
“Todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (Jo 11,26)
Depois do sinal da Água (samaritana) e da Luz (cego de nascimento), o evangelista João oferece hoje o terceiro de seus grandes sinais, a Vida (êxodo de Lázaro).
O tempo quaresmal abre um excelente caminho para aprofundarmos sobre este último tema: a vida é uma oportunidade, um dom, ou algo inevitável e, talvez, insuportável? Há algo mais valioso que a vida para o ser humano? Cuidamos dela e a amamos com empenho, buscamos preservá-la diante de qualquer anomalia ou temor de perdê-la? Porque existem pessoas que “arriscam” sua vida e há aqueles que até doam sua própria vida por uma causa justa?
A morte física nos angustia, nos transtorna. Mas há outra morte que nos ronda sem cessar, ao menos em determinados momentos de nossa existência, ou seja, a ausência do sentido da vida: para que vivemos, lutamos e morremos? O ser humano de hoje, como de todos os tempos, traz cravada em seu coração a pergunta mais inquietante e mais difícil de responder: o que vai ser de todos e de cada um de nós? É inútil fugir dela ou tentar nos enganar. Que podemos fazer diante da morte? Rebelar-nos? Deprimir-nos? Angustiar-nos?...
Sem dúvida, a reação mais generalizada é esquecer essa dura realidade e “tocar prá frente!”. Mas, o ser humano é chamado a viver sua vida com intensidade e inspiração, com lucidez e responsabilidade; ele não deve se aproximar de seu final de forma inconsciente e irresponsável, sem tomar atitude alguma. Diante do mistério último da morte não é possível apelar a dogmas científicos nem religiosos; eles não nos podem guiar para além desta vida.
E, no entanto, queremos continuar vivendo. Todos carregamos no mais íntimo de nosso ser um desejo insaciável de viver. Por que temos de morrer? Por que a vida não é mais ditosa, mais longa, mais segura, mais vida? Do mais profundo do nosso ser brota um anseio profundo que nos move a desejá-la, a amá-la, a cuidá-la, a aceitá-la.
Como cristãos, também temos de nos aproximar com humildade diante do fato obscuro de nossa morte. Mas, fazemos isso com uma confiança radical na bondade do mistério de Deus que vislumbramos em Jesus. Esta confiança não pode ser entendida a partir de fora; só pode ser vivida por quem responde, com fé simples, às palavras do mesmo Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; crês isto?” O teólogo Hans Kung, no final de sua vida, afirmou que, para ele, “morrer é descansar no mistério da misericórdia de Deus”.
A vida é tão valiosa que o centro mesmo da revelação cristã é o anúncio da salvação como vida oferecida a todo ser humano. Deus nos oferece e nos garante a salvação de nossa própria vida. O cristão sabe que a existência não acaba com a morte, no nada, no absurdo. Cremos no Deus que acolhe e abraça a vida de toda criatura e a leva à sua plenitude.
No evangelho deste domingo, em um novo relato catequético, o evangelista João nos apresenta Jesus como “ressurreição e vida”, diante da morte de seu amigo Lázaro.
Progressivamente, ao longo de todo o seu evangelho, o autor vai apresentando Jesus com várias imagens: pão de vida, água viva, luz do mundo, porta, pastor, vinha, caminho, verdade e vida, ressurreição... Todas elas têm um elemento comum: Jesus é reconhecido como portador e doador de vida. E todas pretendem um mesmo objetivo: que a comunidade dos seus seguidores se fundamente sobre esta verdade. Daí a pergunta ao redor da qual giram todas essas catequeses: “crês isto?”.
É preciso compreender, de modo mais profundo, a proclamação que o quarto evangelho põe na boca de Jesus: “Eu sou a Vida”. Assim, tomamos consciência que, com essas palavras, Jesus está revelando nossa verdadeira identidade, que está profundamente unida com a sua. De fato, quando uma pessoa sábia fala, o que diz é válido não só para ela, mas para todo ser humano. A afirmação de Jesus não é a de alguém separado, mas a própria Vida; só a Vida pode dizer “eu sou a vida”. Por isso, para além da pessoa – corpo, mente, psiquismo – na qual nos experimentamos, podemos dizer que em nossa verdade mais profunda “somos vida”. Nós não “temos vida”, mas, na essência, “somos vida”. E esta nunca “morre”.
São muitas as “leituras literais” de “Lázaro” que confundem a ressurreição com o reviver. Lázaro não revive, não volta a esta vida, mas sai desta vida para a Vida, é um êxodo para a verdadeira vida.
Há um forte apelo de Jesus no relato de João, encontrado no versículo 44, e que dá a chave do sentido do grande sinal: “Desatai-o e deixai-o caminhar!” É como se Jesus dissesse: “deixai-o ir mais além, deixai-o ir para a Vida da vida?”
Infelizmente, a mentalidade dualista não consegue compreender os evangelhos; a linguagem religiosa é simbólica, pois aponta para uma outra dimensão. Não podemos nos prender à “materialidade” do relato. Sem a sensibilidade para a criatividade poética dos relatos bíblicos, é impossível deixar-nos transformar pela leitura evangélica. É preciso aprender a ler, reler e deixar-nos “afetar” pelos sinais bíblicos, pois despertam nossa vida da letargia, da acomodação, da paralisia.
Todos somos “lázaros”, fechados em nossos túmulos existenciais, atados em nossas preocupações, travados em nossas “práticas religiosas” estéreis, carentes de sentido na vida, atrofiados em nossa criatividade e busca, presos à “normalidade doentia” do ritmo cotidiano... E o trágico está em “acostumar-nos” a uma vida de “túmulo”. Quantas potencialidades enterradas, quantos recursos não ativados, quanta energia bloqueada!... Muitas vezes nos preocupamos com o “pós-morte” e não temos a coragem de nos perguntar: “há vida antes da morte?”
O relato joanino deste domingo é tremendamente provocativo; tal relato só tem sentido quando provoca uma sacudida em nossa vida e nos arranca da acomodação. É muito fácil nos perder na interpretação fundamentalista do texto sagrado e continuarmos bloqueados por uma pesada pedra na entrada do nosso coração. É preciso deixar ressoar o grito de Jesus nas profundezas de nossa existência: “vem para fora! Deixai-vos desatar e caminhai! Não fostes criados para a paralisia mortal, mas para serdes itinerantes em busca do novo! Deixai-vos conduzir pelo Pai que, com sua graça, fazeis passar da vida medíocre à Vida plena!”
Releiamos, portanto, e reinterpretemos, recriando a narração à luz das palavras de Jesus: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”. Devemos estar centrados na Pessoa de Jesus, que é Vida em plenitude, e não nos percamos no “assombroso” do relato de João, ou seja, um morto que sai do túmulo todo amarrado. Encontrar-nos com Aquele que é Ressurreição e Vida é despertar a vida que quer se expandir em nós.
Com uma autoridade, soberana e amiga, a ordem de Jesus é dada com voz forte, com um grito...
Esta é a mensagem central que o evangelista João quer transmitir:
a verdadeira vida consiste em ouvir a Voz do Enviado pelo Pai para dar a vida ao mundo; o importante não é o maravilhoso, mas mostrar e compreender que Jesus tem a autoridade de dar a Vida. Jesus desata as ataduras, as amarras da morte; elas mantêm os homens cegos, mudos e surdos, atados e asfixiados. Seu lugar não é entre os mortos, mas entre os vivos. Eles precisam ser libertados e soltos por ordem de Jesus para que possam seguir seus caminhos, viver suas vidas livremente, voltar à comunhão com os outros. Não foi só Lázaro que saiu das suas faixas.
Todos os que estavam enclausurados em seus hábitos, presos em suas memórias, sufocados e conformados pela mediocridade, todos os que preparavam túmulos antes da hora de seu último suspiro... todos ouviram esta voz: “Saia!... Saia daí, vão além de vocês mesmos, a caminho!”
Texto bíblico: Jo 11,1-45
Na oração: - quais são as “faixas” que estão travando o fluir de sua vida: religiosas, políticas, sociais, intolerâncias, preconceitos, julgamentos... e que o(a) fazem permanecer no ambiente de morte?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
19.03.2026

“Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença” Jo 9,1)
A Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação profunda de vida; os quarenta dias de duração são um tempo propício para viver a “operação saída”, ou seja, expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é rotineiro, estreito e atrofiante.
Este tempo litúrgico especial certamente mobilizará e ativará todas as dimensões de nosso ser: nossos sentidos se expandirão, olhando, escutando e sentindo a realidade que nos envolve; nossa mente tornar-se-á mais clara, sabendo discernir e não se deixando manipular; nosso coração se fará mais atento e misericordioso diante do sofrimento humano; nossa alegria será o fermento do pão cotidiano, compartilhado com os outros. E, se dedicarmos mais tempo ao silêncio e à oração, recobraremos energia e sentido, necessários para sair da “normose doentia” de todos os dias.
Neste percurso transformador, Jesus é o grande “pedagogo” que nos toma pela mão e nos ajuda a fazer a travessia em direção à Terra Prometida. Ele se revela como presença inspiradora e que desperta o “melhor” que há em cada um de nós. Por isso, o tempo litúrgico da quaresma nos situa diante das grandes realidades existenciais que nos humanizam: Fonte de Água viva, Luz, Vida...
No relato catequético deste domingo, o evangelista João resume todo o percurso de qualquer pessoa que se encontra com Jesus, que se deixa recriar por Ele, que caminha na sua fé descobrindo-O aos poucos, até acolhê-lo como Luz do mundo.
No encontro com o “cego de nascença”, Jesus se revela como Luz que desperta a luz atrofiada no interior daquele homem paralisado, impotente, dependente dos outros (marginalizado). Todos o olham como um pecador castigado por Deus. Mas Jesus o olha de maneira diferente; logo que o vê, sente o impulso de resgatá-lo daquela vida de mendigo, desprezado por todos como um amaldiçoado. Ele se sente chamado pelo Pai para defender, acolher e curar precisamente aqueles que vivem excluídos e humilhados.
Depois dos gestos terapêuticos de Jesus, o cego descobre a luz pela primeira vez. Jesus o cura, mas o cego também deve colaborar; ele é confrontado com sua própria força e vontade, pois precisa “descer” até às águas de Siloé, até às profundezas de seu próprio ser. Com o “toque” das benditas mãos de Jesus, as dimensões mais profundas do pobre homem são despertadas, uma nova energia é ativada, a liberdade é reacendida; reconstruído em sua autonomia, agora ele pode dar direção à sua própria vida.
No encontro com Jesus, o cego obtém a visão; mais ainda, o encontro com Jesus é como um banho que não destrava somente o sentido da visão, mas toda sua vida é reconstruída, prolongando o sexto dia da Criação; finalmente, ele poderá desfrutar de uma vida digna, sem temor de envergonhar-se diante dos outros.
O evangelista João, com uma certa ironia, diz que os vizinhos e as autoridades do Templo discutiam se aquele que agora vê era o mesmo que, um pouco antes, não via. Efetivamente é o mesmo, mas não é o mesmo: sendo o mesmo, é outro. Era “o mesmo”, e graças a Jesus não era mais “o mesmo”, pois agora vê a vida de outra maneira. É a diferença entre o homem dependente, sem iniciativa, sem liberdade..., e o homem livre, capaz de abrir-se às surpresas da vida.
O homem, cego até agora, mendigava, era um personagem marginalizado. O encontro com Jesus o reabilita para a vida; volta a ser uma pessoa na convivência. Ele não sabe se é sábado ou segunda-feira, não sabe se aquele que o curou é pecador ou não; o que ele sabe é que antes não via e agora vê. Aos poucos redescobre sua identidade essencial. Todo aquele que se aproxima do “Eu Sou” (Jesus), redescobre seu “eu sou”, ou seja, participa do mesmo ser, da mesma luz de Jesus. Quem se aproxima de Jesus termina sendo como Ele, “eu sou”. Aquele ex-cego fica transformado por ver a vida a partir de Jesus; recupera sua dignidade.
Mas, ser reconstruído em sua identidade tem um preço; o homem curado provoca conflitos com as autoridades religiosas e acaba sendo expulso da sinagoga. Nessa expulsão se revela um conflito radical dos dirigentes judeus que não aceitam Jesus porque está abrindo os olhos das pessoas, para que estas vejam outro mundo, para que tenham um olhar alternativo. “Vim a este mundo para instaurar um processo, para que os cegos vejam e os que veem fiquem cegos” (9,39).
O conflito de Jesus com os dirigentes vai desembocar na morte. Alguns acolhem a visão e a vida que Jesus traz, mas outros se sentem ameaçados em seus privilégios. São as trevas que rejeitam Jesus. As trevas amam as sombras, as prisões e tumbas desconhecidas, os negócios turvos sem testemunhas, os conluios noturnos, os métodos inconfessáveis, os desaparecidos, os arquivos fechados, as alianças clandestinas. “A luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (1,5).
Mas Jesus não abandona a quem o ama e o busca. Ele tem seus caminhos para se encontrar com aqueles que são rejeitados e expulsos. Ninguém lhe pode impedir. Ele vem sempre ao encontro daqueles que não são acolhidos oficialmente pela religião, daqueles que são excluídos das comunidades e instituições religiosas; aqueles que não têm lugar em nossas igrejas, tem um lugar privilegiado em seu coração.
Quem levará hoje a mensagem da Boa-Nova de Jesus para os grupos ou minorias excluídas que, a todo momento, escutam condenações públicas injustas de dirigentes religiosos cegos, que se aproximam das celebrações cristãs com medo de serem reconhecidos, que não podem comungar com paz em nossas eucaristias, que se veem obrigados a viver sua fé em Jesus no silêncio de seu coração de maneira secreta e clandestina?
Como seguidores(as) de Jesus, precisamos passar por um processo de desobstrução de nossas “cataratas existenciais” que impedem viver em atitude de contínuo assombro e vibrar com a vida do outro. É preciso “cristificar” nosso olhar para sermos reconstruídos em nossa essência.
Jesus olha cada ser humano como tal, mas este gesto não é um simples “ver” as pessoas, mas um olhá-las a fundo; ou seja, Jesus dirige seu olhar às pessoas para perceber nelas aquilo que para Ele é o mais importante: os traços e a imagem de Deus que elas deixam transparecer para quem as olha.
O olhar de Jesus não se restringe ao exercício da visão; seu olhar possui uma eficácia transformadora, encarnada em sua capacidade de amar, isto é, de olhar as pessoas com o amor de seu Pai. Ao olhar as pessoas, Jesus faz emergir a dignidade que elas carregam: filhas de Deus, as criaturas mais apreciadas pelo Criador.
Na verdade, o que imobiliza e petrifica é o olhar que se fecha no egocentrismo, que não se abre ao outro numa atitude de respeito, de fidelidade criativa. “Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo” (Eugênio Bucci).
Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a alguém é um olhar diferente; o futuro, a acolhida, o perdão, a alegria... dessa pessoa podem depender desse olhar novo, cheio de afeto e confiança. Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar.
Num contexto de relações afetivas, onde os sentimentos são determinantes, qualquer caminho de volta ou de diálogo inicia-se sempre com um olhar conciliador ou reconciliador.
Olhar admirado e gratuito, como aquele de Jesus, que transforma, que liberta e que se comove diante da realidade humana, sobretudo daqueles que “não são olhados”.
Texto bíblico: Jo 9,1-41
Na oração: - torne o seu coração vulnerável ao olhar do Pai, receptivo a todo apelo que vem d’Ele, deixando-se tocar pelo inesperado, pela novidade, pela iniciativa amorosa d’Ele; o Amor d’Ele é sempre recriador, suscitando em você lampejos de ressurreição.
- orar é ter acesso ao seu “eu profundo” sob o olhar de Deus e desejar ser visto por Ele até as profundidades mais secretas do seu próprio ser;
- evangelize seu olhar para aprender a olhar como Jesus Cristo, ultrapassando as aparências.
- como você “olha” as pessoas, as coisas, os fatos, o mundo...?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
14.03.2026

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1)
O primeiro domingo da Quaresma nos desloca até o “deserto das tentações”; ali Jesus se deparou com as grandes “forças que desumanizam”: “pão do ego”, “poder autocentrado”, “vaidade estéril”.
Jesus foi conduzido ao deserto imediatamente depois do seu batismo, com a palavra do Pai ressoando em seu coração: “Tu és meu filho amado...”; mas agora, no deserto, vai escutar outras palavras que “tentam” convencê-lo para que não ponha o centro de sua vida nesse amor, mas no poder, na vida fácil, na fama, nas posses... O relato das tentações resume simbolicamente outros momentos da vida de Jesus nos quais esteve submetido à alternativa entre “a maneira de pensar de Deus” ou “a maneira humana”.
Conduzido pela força do Espírito, Ele viveu uma integração a partir de seu coração e não se deixou levar pelas aparências enganosas. Sua vocação à messianidade ficou clara no batismo; daí em diante, buscou os melhores meios para viver sua missão. No seu discernimento, Jesus sentiu que o poder, a riqueza, o prestígio, não eram “meios” para realizar a Vontade do Pai; pelo contrário, inspirado pelo Espírito, elegeu o caminho do esvaziamento de si, da pobreza e do compromisso solidário com os mais pobres e excluídos. Sua missão como Messias devia começar nas periferias, junto aos abandonados pelo poder religioso e civil da época.
O deserto, na tradição bíblica, é um lugar ambivalente: por um lado, é o cenário das maiores dificuldades, onde o ser humano, sem seguranças às quais apegar, se sente submetido às provas mais duras; por outro, no entanto, aparece como o espaço no qual se goza de uma especial intimidade com Deus: “Levá-la-ei ao deserto e lhe falarei ao coração”, diz Oséias (2,14). Sem dúvida, não é casual que ambos significados apareçam unidos.
Mas existe outro “deserto” não buscado e, por isso, com frequência, mais desconcertante e mais difícil de assimilar. Entram aí todas aquelas situações e circunstâncias que a vida nos apresenta, geralmente em forma de crise ou fracasso, nas quais somos convidados a viver um despojamento, um esvaziamento daquilo com o qual tínhamos nos identificado. Trata-se de uma experiência de “deserto” porque também acontece uma quebra das falsas seguranças, nas quais fundamentávamos a vida e, assim, nos encontramos diante daquilo que que se revela como o mais vulnerável e obscuro de nossa existência.
Trata-se de um momento tão difícil como privilegiado. Difícil, inclusive doloroso, porque nos sentimos sacudidos. Este deserto inesperado se caracteriza pela aridez, pela secura, pelo sem-sentido e pela desesperança. A obscuridade parece invadir o espaço que antes nos parecia luminoso e o desconcerto ameaça introduzir-nos numa espiral de vazio.
E, no entanto, é então quando acontece o milagre. Leonard Cohen afirma: “Há uma greta, uma greta em tudo. Por aí é onde entra a luz”. Deus tem mais facilidade de entrar em nossa vida pelas fendas dos fracassos, das feridas, das crises... Esvaziados de nosso ego inflado e inflamados pela força divina, começamos a reescrever nossa história a partir de novas bases, mais humanas, mais inspiradoras... Este é o processo de conversão a que somos chamados a viver: sair dos “lugares estritos” e entrarmos no movimento de plenitude e sentido.
No relato das tentações de Jesus destacam-se os impulsos mais fortes do ego. É facilmente compreensível: nossa primeira e permanente tentação é a de nos identificar com o ego e viver para ele.
É um engano que conduz à confusão e ao sofrimento, porque implicae esquecer-nos de nossa verdadeira identidade e reduzir-nos a “algo” que nos escraviza. O ego, alimenta necessidades e medos, obscurece nossa visão e nos faz ver a realidade a partir de uma reduzida lente contaminada. Prisioneiro de uma insatisfação constante, o ego dedica toda sua vida a acumular, a ser o centro das atenções, a alimentar vaidade e buscar prestígio: esse é o único modo de sentir-se vivo.
O tempo quaresmal nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças, centradas na riqueza, no poder, na vaidade. Inspirados pelo “discernimento” de Jesus no deserto, somos também movidos a buscar nossas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido de maneira intensa, o Espírito nos conduzirá ao fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à
“Terra prometida”, onde há fartura de nutrientes. É preciso retornar à nossa “casa interior” para esvaziá-la de todo desejo de poder, de vaidade, de prestígio e de ridículos ídolos; somente Deus é Senhor de nossa vida.
O tempo quaresmal põe às claras aquelas atitudes que afogam a possibilidade de viver o seguimento de Jesus com mais inspiração; tal vivência desmascara um modo de viver acomodado aos critérios do mundo que petrifica nosso coração: deixar-nos prender pelas garras do consumismo, concretizado nos “afetos desordenados” ou apegos aos bens, poder, autoimagem, lugares, pessoas, títulos..., que esvaziam a vida e nos deslocam do essencial.
Diante das carências existenciais, surge a tentação de buscar compensações, que exigem investimento afetivo, nos tiram do foco e nos fazem cair em estado de letargia e acomodação. Todas essas compensações têm algo em comum: elas nos fazem adormecer e, desse modo, abortam a novidade que poderia brotar em nós e atrofiam a esperança, pois nos prende ao mais imediato (fixação afetiva).
É preciso ter os olhos abertos para além das preocupações cotidianas e poder entrar em sintonia com a presença d’Aquele que vem sempre ao nosso encontro. O maior inimigo de nossa existência é a dispersão, ou seja, investir afetivamente nas coisas cotidianas mais imediatas e esvaziar o horizonte de sentido de nossa vida. Para investir afetivamente no seguimento de Jesus, é preciso alargar espaço em nossas moradas internas, reordenar os afetos, expandir o coração.
Assim, a contemplação de Jesus no deserto nos move à liberdade e se manifesta como um chamado a uma vida mais simples, partilhada, apaixonada, natural, livre, transcendente, intensa, comprometida...
Como seguidores(as) de Jesus, todos nós também temos a experiência do que significa a tentação do poder. Em um mundo onde as relações se estabelecem através da força, da dominação, de uma maneira de exercer o poder, onde o forte se impõe sobre o fraco, o rico sobre o pobre, o que possui informação sobre o ignorante..., o fruto do discernimento de Jesus nos introduz na nova ordem de relações que devem caracterizar o Reino: nele a vinculação fundamental é a da irmandade no serviço mútuo.
A partir do deserto, a prática de Jesus vai desestabilizar todos os padrões e modelos mundanos de poder, desqualificando qualquer manifestação de domínio de uns sobre os outros: inaugura-se um estilo novo no qual o “desenho circular” desloca e dá por superado o “modelo hierárquico”. Sua maneira de se relacionar com as pessoas marginalizadas e excluídas vai pôr em marcha um movimento de inclusão onde, uma casa acolhedora e uma mesa partilhada com os menos favorecidos, invalidam qualquer pretensão de poder, de prestígio, de situar-se acima dos outros, devolvendo a todos a dignidade perdida.
À luz do tema da Campanha da Fraternidade (Fraternidade e moradia), podemos dizer que, no Projeto-Reino de Jesus, a casa-lar ocupa o centro, pois ela convida, convoca e abre espaço na vida de seus moradores, possibilitando a sociabilidade, a partilha, a vivência de valores interpessoais, de humanização.
Nela e com ela aprendemos a acolher o outro como dom; aprendemos a nos doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade.
A casa é também o lugar onde acolhemos as alegrias e as tristezas do outro, os êxitos e os fracassos... Ela é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social. Esse lugar humano é revelador de cultura, de aprendizado e base para a vivência dos valores individuais e coletivos. Lugar fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.
Texto bíblico: Mt 4,1-11
Na oração: No silêncio de seu deserto, entre em diálogo profundo com Aquele que faz morada em seu interior.
- Você é convidado(a) a adentrar-se no território sagrado, chamado “deserto do encontro”. Tão rico é esse lugar que sua espiritualidade, vista como manancial da vida, não exclui nenhum momento: situações tristes, felizes, momentos de sofrimento, de luta, de vitória...
- Nesse espaço, onde o Eterno quer habitar, é que você encontrará o bálsamo e o alívio para sua existência psíquica e espiritual. Nessa fonte sagrada, o sofrimento pode ser compartilhado, a tristeza transformada em alegria, as trevas em luz, o desejo em realidade, a esperança pode ser reacendida...
Pe. Adroaldo Palaoro sj
19.02.26

“Tu, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido” (Mt 6,6
A Quaresma chega de novo, sempre nos chamando a acolher a Boa Notícia a partir de dentro, a partir da conversão do coração. Embora “sejamos pó e ao pó retornaremos”, o que é mais autêntico em nós se revela no serviço e no amor, como Aquele que afirmou ser o caminho, a vida e a verdade.
Estamos iniciando mais um percurso quaresmal, centrados na pessoa de Jesus Cristo, crescendo na identificação com Ele e dando uma feição nova ao seguimento.
Sabemos que a Quaresma é um caminho de discernimento e mudança. Os meios que ela oferece para esta transformação espiritual são as chamadas “práticas quaresmais”: jejum, oração e esmola. O jejum nos ajuda a recuperar a liberdade frente às desordens de todo tipo, adotando um estilo de vida mais simples; a oração faz com que todo o nosso ser se volte para Deus e nos deixemos conduzir por Ele; a esmola nos arranca de nossa comodidade e ativa em nós as atitudes de compaixão, solidariedade e cuidado, fazendo-nos passar da indiferença à responsabilidade diante dos outros, sobretudo dos mais pobres e excluídos.
“Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas” (Mário Quintana). Para podermos viver o tempo quaresmal com mais intensidade e inspiração, vamos entrar em sintonia com a Igreja no Brasil que nos propõe a Campanha da Fraternidade como mediação para despertar nossa sensibilidade diante de situações desumanizantes em nossa realidade. Com o tema: “fraternidade e moradia”, e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a CF quer trazer à tona o drama da falta de moradia que afeta grande parcela de nosso povo.
O que é “estar em casa” para nós hoje, num mundo estranho e em constante mudança? O que significa “casa” para nós atualmente? Que tipo de sentimento está conectado a ela? Onde nos “sentimos em casa”? O drama da falta de moradia para todos é sintoma do caos presente no interior de cada um. O problema da moradia não é só uma realidade externa; existe uma crise de moradia muito mais grave que a falta de casas: é a escassez de pessoas interiormente acolhedoras e disponíveis para seus irmãos.
Uma das metáforas bíblicas mais adequadas para entender nosso momento atual é aquela que fala do “regresso à casa”. Embora existam demasiados ruídos, fugas, competições, vivências superficiais nesta sociedade incerta e estressada e que parecem afogar a pessoa, não é difícil perceber um anseio interno que se expande e que pode ser resumida nesta expressão: “desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa!”.
Com frequência, as pessoas se acomodam em sobreviver, não investem seus recursos internos numa causa mobilizadora e acabam atrofiando o sentido de suas vidas. E, no entanto, se elas prestarem um mínimo de atenção à voz interior, sentirão o brotar do desejo de uma vida mais plena, ativarão a escuta do Mestre interior que, com frequência, sussurra: “retorna à tua casa!”
O ser humano aspira viver em sua casa interior e, por mais distante que esteja da mesma, o sentimento mais forte é o da saudade. Na vida de cada pessoa acontece uma transformação radical quando ela é capaz de experimentar, em si mesma, esse “lugar” interior, referido com a imagem da “casa”. Um lugar de silêncio, em meio a qualquer agitação das ondas; de calma, em meio a qualquer tempestade; de luz, em meio a qualquer obscuridade; de alegria serena em meio a qualquer mal-estar ou angústia...
Esse é o lugar onde a pessoa se reconhece a si mesma: ali ela sente o seu ser, para além daquilo que ela faz. E só ali é possível o “descanso”, no sentido mais profundo dessa palavra. E é justamente desse lugar onde brota o convite que se repete: “retorna à tua interioridade!”
“O ser humano só está em casa no mistério de Deus” (Clemenz Schmeing). Só quando ele experimenta o “mistério de Deus” que está presente nele é que poderá verdadeiramente se “sentir em casa”. Ele só pode permanecer nele mesmo porque se sente habitado pelo próprio Deus que o sustenta e lhe fala ao coração.
Trata-se da “tenda interior” na qual o próprio Deus faz sua morada nele; ali, é plenamente ele mesmo, verdadeiramente em casa. Ele precisa apenas olhar para dentro e transitar pelos espaços interiores. Descobrirá, então, que o céu está nele e ali, no céu interior, está a verdadeira “terra prometida” que ninguém pode roubar ou destruir.
No contexto social pós-moderno as pessoas relatam que perderam não somente seu lar exterior, mas também o interior. Elas se percebem sem o sentimento de acolhida e proteção; elas já não sabem mais quem são; perderam seu vínculo de pertença, além de não mais saberem o que as sustenta; não sabem mais onde poderão encontrar segurança e acolhimento.
Diante da “cultura líquida” e “deslocada” na qual vivemos, é urgente gerar espaços e tempos que facilitem reabrir as vias da interioridade, possibilitar o retorno à “morada interior”, onde é gestada a própria identidade e as opções mais sólidas. Espaço e tempo no qual podemos entrar em contato com algo que a plenifica e a expande.
Nesse sentido, a vivência da Quaresma revela-se como uma excelente oportunidade para “voltar à casa interior”. Pacificados em nossa “casa interior”, brotará em nós uma sensibilidade solidária para lutar em favor de uma moradia digna para todos.
Neste mundo disperso e distraído, a vivência quaresmal pode dar referências e amparo; no percurso que fará, cada um vivenciará sua casa interior; entrará em contato com algo nobre no coração que pode estar encoberto por feridas, traumas, fracassos, sentimentos negativos...; ativará o anseio pelas raízes, a partir das quais poderá viver com mais inspiração e criatividade.
Quem habita em si mesmo, quem está desperto para aquilo que é mais nobre e que cuida dos seus movimentos interiores (inspirações, intuições, desejos...), construirá uma casa que será convidativa para que outros se aproximem, se sintam acolhidos, protegidos, amados...
No evangelho indicado para esta Quarta-feira de Cinzas, Jesus nos convida a retirar-nos para o nosso “quarto”; é aí o nosso deserto: trata-se de um lugar íntimo, sagrado, onde nenhum estranho tem acesso, todo impregnado de solitude e silêncio. É o lugar sagrado da nossa casa. Esse “quarto interior” é habitado por uma Presença providente e compassiva; só quem tem acesso ao seu “eu” mais profundo descobrirá que ele é “morada” do Senhor e que quer estabelecer um diálogo amoroso com ele.
Em grego, o termo “quarto” (“tameión”) significa também celeiro, local onde se guardam as provisões. Por isso “quarto” quer dizer também lugar onde estão guardados os alimentos, o sustento de cada dia, as energias, a criatividade, os sonhos, as intuições... É o lugar dos nutrientes indispensáveis para a vida.
Jesus insiste no caráter secreto desse lugar, de onde podemos escapar dos olhares alheios. É decisivo que a nossa única preocupação seja a de nos colocar apenas diante o olhar de Deus; o que conta é rezar com o coração: trata-se de reservar aí um espaço destinado exclusivamente a Deus.
Quando fazemos a experiência desse retorno à nossa “morada interna”, descobrimos que esse é o tesouro escondido, tão próximo, tão íntimo, capaz de transformar a nossa vida, nosso modo de proceder, de nos relacionar e de nos comprometer.
Texto bíblico: Mt 6,1-6.16-18
Na oração: - Quê mediações você vai ativar durante a Quaresma para ajudar a esvaziar sua “casa interior” e abrir espaço para a atuação livre de Deus?
- Como você se sente em sua casa interior? Precisa abri-la, arejá-la, modificá-la, iluminá-la... É espaço de acolhida, de gratuidade, de serviço...? Ou há falsos senhores que a habitam, travando o fluir de sua vida?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
16.02.2026

“Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo”
Estamos no início do Sermão da Montanha, onde Jesus nos ensina e nos proporciona belas imagens, parábolas e histórias; elas só permanecem no coração e na mente quando são consideradas através da imaginação e não meramente explicadas como uma lição.
A proclamação das Bem-aventuranças desemboca nesta constatação: quando as vivemos, nós nos tornamos, naturalmente, “sal da terra e luz do mundo”. Trata-se de duas imagens profundamente eloquentes, que tem a ver com dois de nossos sentidos e que apontam para algo que todos aspiramos: o sabor e a luz.
As imagens não precisam de explicação nem de comentário. Explicam-se por si mesmas. Exigem, isso sim, uma resposta vital do leitor ou ouvinte. Quando nos deixamos interpelar por elas, descobriremos uma nova dimensão da existência à qual somos convidados. Podemos aceitar o desafio ou rejeitá-lo. As imagens nos colocam frente uma alternativa: ou continuar como estávamos em nosso modo de ser e viver, ou aceitar a nova maneira de assumir a vida que elas nos sugerem.
Embora o sal e a luz não tenham nada em comum, há um aspecto no qual coincidem. Nenhuma das duas é proveitosa em si mesma. O sal sozinho não serve para a saúde, só é útil quando acompanha os alimentos. A luz não é para ser vista; ela possibilita ter uma visão clara das coisas.
O sal e a luz têm duas formas diferentes de realizar sua ação: o sal remete a uma ação invisível; no entanto, próprio da luz é brilhar. De acordo com o texto, as formas de presença, significadas pela luz e pelo sal, não se eliminam; as duas são inseparáveis. Sal e luz são elementos expansivos; a importância não está neles mesmos, mas na relação com a realidade onde se fazem presentes: o sal realça o sabor dos alimentos; a luz revela a realidade escondida na escuridão.
O sal atua no anonimato. Se um alimento tem a quantidade precisa, passa desapercebido, ninguém se lembra do sal. Quando a um alimento lhe falta sal ou tem demasiado, então nos lembramos dele. Não se pode comê-lo diretamente. Se não há comida, o sal é simplesmente veneno. O que importa não é o sal, mas a comida temperada com sal. Quando a comida tem excesso de sal se faz intragável. A dose tem que estar bem calculada.
O significado é tão simples como profundo: o sal serve para que os alimentos realçam seu sabor; a luz serve para que se possa ver o que já existe. Ambos têm uma só função: servir para que outras coisas sejam válidas, para que sejam o que são. Ser sal e luz é ressaltar e potenciar tudo o que é positivo na vida humana.
“Vós sois a luz do mundo”: não é uma expressão de futuro, mas de uma realidade que já é presente.
Um pouco antes, Mateus nos havia dito que Jesus era “a luz que brilhou na Galiléia” (4,16). Agora, Jesus afirma que é luz todo aquele que encarna o espírito das bem-aventuranças. Ou seja, somos luz, como Jesus, na medida em que, esvaziando-nos de nosso eu, permitimos simplesmente que a luz “passe” através de nós sem encontrar obstáculo.
O texto do evangelho de hoje constitui uma clara afirmação de que a missão dos discípulos no mundo faz parte de sua própria identidade. Neles aparecem os traços fundamentais que caracterizam esta missão. “Vós sois” diz Jesus e não “vós deveis ser”, ou “tendes que se transformar em...” Os discípulos “são”, querendo ou não, pela força do chamado que lhes foi dirigido. “Sois”: este tempo verbal no presente refere-se a uma identidade marcada pelo modo de ser e de agir de Jesus. Quem o segue, afetado pelo seu chamado, fica plenamente transformado em sal da terra e luz do mundo.
Na brisa calma do monte, Jesus evoca uma imagem cálida e pede que imaginemos uma pequenina chama. É de uma lamparina que ilumina uma casa. Vemos uma chama dançante que expande sua luz.
E Ele pergunta aos seus ouvintes: “onde deve ser colocada a lamparina: dentro de um alqueire ou no candeeiro?” O alqueire era um recipiente que se utilizava para medir a quantidade de grãos. Não tem nada a ver com a lamparina. É absurdo utilizar um alqueire para cobrir uma chama que ilumina uma casa escura. Se está acesa, é evidente que a luz deve ser visível e tornar visível as coisas.
O tom das palavras que emprega revela uma grande preocupação por parte de Jesus: é como se quisesse nos alertar de que em nós há uma tendência inata à obscuridade, à penumbra, que corremos o risco de deixar na sombra o que deveria brilhar (nossos dons, nossos recursos...).
Por isso, suas palavras estão cheias de amor, são fogo, são chama. Isso é o que nós, como seus seguidores devemos ser, e não presenças obscuras e, talvez, sem sol. Suas palavras são pronunciadas para despertar a luz vacilante e tímida de nosso interior, e assim expandi-la amplamente.
Somos portadores da “luz nova”; não extinguir essa luz que ilumina dentro. Abafar essa luz é menosprezar a vida da Graça, o tesouro que nos foi confiado no batismo. Devemos guardá-la ciosamente, velar por ela, valorizá-la pela nossa colaboração, estimá-la e protegê-la, como a chama olímpica que nos levará à vitória.
Se voltamos ao início do relato da Criação, a primeira coisa que ouvimos é que Deus cria a luz; “faça-se a luz”: esta é a primeira palavra que Ele pronuncia como potência criadora e que possibilita a vida.
As trevas, as sombras, a obscuridade é não-ser e não-existir. Nossa fonte original é Luz.
O simbolismo da luz está muito presente em toda a Escritura, mas, de maneira especial, em dois momentos: a) na sua primeira carta, João define a Deus como Luz sem mistura de trevas; b) a afirmação de Paulo de que somos filhos da luz, a caminhar na luz, a desmascarar as trevas, a conectar com a Luz fontal, para que nossas obras sejam luz.
Através do apelo de Jesus, no evangelho deste domingo, somos convidados a aprender a gerir nossa luz e sabor/sabedoria, a viver em conexão com nossa verdadeira identidade, a gerar espaços de conhecimento daquilo que é essencial para que nós mesmos, nossas comunidades, nosso mundo, nossa casa comum, sejam reflexo do movimento profundo da fonte da Vida.
No último parágrafo do evangelho deste domingo, há um ensinamento esclarecedor: “...para que vejam as vossas boas obras e louvem o Pai que está nos céus”. A única maneira eficaz para transmitir a mensagem são as obras. Uma atitude verdadeiramente evangélica se transformará inevitavelmente em obras.
Evangelizar não é propor uma doutrina muito bem elaborada e convincente. As obras que os outros percebem devem desvelar as nossas atitudes internas. Quando elas são fruto só de uma programação externa, não ajudam os outros a encontrar seu próprio caminho. Só as obras que são reflexo de uma atitude vital autêntica, são canal por onde flui iluminação para os demais. O que existe em nosso interior, só pode chegar aos outros através das obras. Toda obra feita a partir do amor e da compaixão é luz.
Quando nos é pedido que sejamos luz, está nos dizendo algo decisivo para a vida espiritual, própria e dos outros. A luz brota sempre de uma fonte incandescente. Se o nosso coração não arde, não poderemos emitir luz. Mas se há brasas incandescentes, não poderemos deixar de emitir luz. Só se vivemos nossa humanidade, poderemos ajudar os demais a desenvolver a sua própria humanidade.
Ser luz significa pôr toda nossa bagagem espiritual a serviço dos outros.
Texto bíblico: Mt 5,13-16
Na oração: “O amadurecimento da experiência e uma visão de fé mais profunda evidenciam a grande Luz que nos precede, acompanha e segue no percurso da vida”.
- Deixa-te iluminar, leva a Luz nas suas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do seu cotidiano.
- Deixa-te iluminar para seres presença que desperta o sabor da vida.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
08.02.2026

“Quando entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe” (Mt 2,11)
Para a Igreja do Oriente, hoje é o dia da Natividade, o dia que Jesus se manifestou como a Luz do mundo, o dia que Deus elegeu para manifestar-se a todos os homens através da pequenez do filho de Maria. Esta festa nos convida a descobrir a “epifania” não só em nós, mas em tudo e em todos. Tudo é transparência de Deus, tudo é manifestação de Sua presença providente e iluminadora.
O evangelho de Mateus nos faz aproximar do nascimento de Jesus através de um relato original, carregado de simbolismos que nos orientam e nos ajudam a captar o verdadeiro significado deste evento divino.
Por isso, é importante não ler o texto de forma linear, mas dando atenção aos diferentes cenários que se cruzam para ter uma visão panorâmica de tudo o que está acontecendo.
O primeiro cenário, que abre e fecha o relato, é o fato simples e cotidiano do nascimento de um menino numa pequena aldeia. Um menino em quem transparece a salvação de Deus, renovada e persistente em seu desejo de convidar todo ser humano a vivê-la.
Mas essa iniciativa divina carregada de gratuidade e ternura é vista como ameaça pelo rei Herodes e pela elite religiosa de Jerusalém que protagonizam a ação do segundo cenário. Herodes usa estratégias para cortar pela raiz a ameaça ao seu poder, quando fica sabendo que o anúncio da salvação de Deus brota a partir de baixo, da periferia, das fendas cotidianas da história.
Por sua parte, os Magos vindos do Oriente, que ignoravam os grandes desígnios divinos, só conhecidos pelos representantes religiosos de Israel, aparecem como buscadores honestos, pondo todo seu conhecimento e seu esforço em encontrar Aquele que salva e dá vida. Para isso, não duvidam em colocar-se a caminho, em questionar sua própria verdade e arriscar tudo a partir de uma intuição do coração.
Os Magos, dos quais Mateus se refere, representam o dinamismo próprio das religiões que vão mais além delas mesmas; um dinamismo que é busca da verdade, a busca do verdadeiro Deus, a busca da sabedoria, a busca de um sentido para a vida. Por isso, os magos são representantes dos “buscadores” de todos os tempos. Eles deixam transparecer a verdadeira identidade de todo ser humano, que se define como buscador.
Viver é desafiador na medida que viver é buscar. A dinâmica da busca marca a caminhada humana e define os rumos da vida. Vive-se em permanente busca e só à medida que se vive para buscar é que a vida se torna, de verdade, vida, com mais sabor e sentido. O que se busca define e determina o que é a vida da pessoa. “Diga-me o que você busca e lhe direi quem você é”.
É decisivo ter claro o que é que se busca. No supermercado da vida pode-se buscar tudo. As ofertas são muitas e são sedutoras. Viver para buscar “outras coisas” é correr o risco de perder o rumo, priorizar o menos importante, apegar-se ao que é passageiro, não perceber o que é e onde está o essencial. Muitas buscas, que permanecem na superfície da vida, acabam gerando prejuízos graves porque a atitude de busca, tão própria do ser humano, desemboca em algo sem sentido, sem horizonte, vazio.
É difícil alimentar o “espírito de busca” quando nossa realidade insiste na vivência do imediato, entendido como carência de um projeto de vida consistente, de uma causa mobilizadora, de uma razão por viver enraizada no coração. É difícil buscar quando alguém se encontra acomodado e satisfeito de tudo e, ao mesmo tempo, de nada. Então, para que buscar? Como despertar e alimentar a fome e sede da busca?
A força da busca que move o próprio coração exige cuidado e especial atenção. Toda busca inclui a purificação de motivações para permitir, como fruto, o encontro de tudo o que garante e promove a vida. É exercício de discernimento constante: “o quê busco? Por que busco? Tem sentido e valor aquilo que busco? Para onde me leva a força da busca?...” É preciso buscar sempre, pois é esta atitude que dá garantias de fecundidade e criatividade à vida.
Nesse sentido, o relato dos Magos é uma das passagens bíblicas mais belas que descrevem o sentido, o valor e a dinâmica da busca. De fato, todo o relato e todos os protagonistas são pessoas que estão em busca: Herodes e toda Jerusalém, os sumos sacerdotes e os escribas do povo e, obviamente, os Magos. Todos envolvidos na inquietante busca do Messias. No entanto, quanta diferença nas motivações e nos êxitos desta busca.
Herodes não é somente o cínico e perverso rei que teme pela estabilidade do seu trono. É também aquele que vive na mentira e que tem medo da verdade. Quer, portanto, buscar a verdade, mas para eliminá-la radicalmente da face da terra. Tudo faz para conservar egoisticamente o seu poder. Este é o seu ídolo e este é o seu verdadeiro deus. Os sumos sacerdotes e os escribas sabem onde buscar a verdade, tem a Escritura, são “experts” em indagar e investigar a verdade, mas permanecem fechados e resistentes em sua posição. No fundo estão a serviço do poder e tem medo de perder seu lugar.
Quão diferente, contrastante e diametralmente oposto foi a atitude de busca dos Magos!
E não foi ingenuidade o fato de irem perguntar ao rei da Judéia onde tinha nascido o Rei dos judeus; foi, antes de tudo, o desejo de envolver os outros na própria busca da verdade. Não viram grandes prodígios, mas experimentaram uma grande alegria. Compreenderam que a aventura da busca não se dá nas alturas, mas no encontro com a humanidade. Por isso, depois de um longo e penoso percurso, encontraram-se diante d’Aquele que se humanizou. Só lhes restou “caírem de joelhos diante dele e o adoraram”. E quando aqueles homens se levantaram, já não eram mais os mesmos.
Ajoelhar-se pode parecer um gesto servil, mas, em ocasiões como esta, é um gesto de humildade. Implica descer do pódio do ego, sobre o qual ele busca subir constantemente, acreditando ser o melhor, o mais sábio, o mais famoso, o mais perfeito. De joelhos, clama-se por compaixão, ajuda, clemência, compreensão, misericórdia. E levantar-se é poder de novo estar de pé, tendo passado pela experiência da pequenez.
Além disso, pôr-se de joelhos diante daquele menino significa abrir passagem na própria vida à ternura, à grandeza que não está em saber mais, nem ser mais forte, mas a de ser mais humano e, por isso, profundamente imagem de Deus. Ajoelhar-se diante daquele menino é, acima de tudo, despertar o deslumbramento, o assombro, a admiração. Quando alguém se encontra com aquele que “é” luz, parece que tudo em sua vida se torna mais luminoso, e essa luz se revela expansiva.
Herodes e sua corte representam o mundo do “ego” inflado, prepotente, que busca seus próprios interesses e vê ameaça por todos os lados. Tudo vale nesse mundo quando se trata de garantir o próprio poder: o cálculo, a estratégia e a mentira. Vale inclusive a crueldade, o terror, o desprezo ao ser humano e a destruição de inocentes. Apresenta a falsa imagem de ser defensor da ordem e da justiça, mas é vulnerável e mesquinho, pois termina sempre buscando um “menino” para matá-lo.
Para reconhecer a dignidade do ser humano, em vez de destruí-la, é preciso percorrer um caminho oposto àquele que Herodes segue. Como os Magos saem de sua terra para buscar o Menino, nós precisamos sair de nosso “ego”, de nossas seguranças terrenas para buscá-Lo. Sem essa atitude, embora tenha nascido o Menino, embora apareça a estrela, o encontro não acontecerá.
Texto bíblico: Mt 2,1-12
Na oração: Diante de milhões de estrelas de nosso mundo que ofuscam nossos olhos, é preciso aprender a discernir aquela que nos conduz a Jesus. Nesse sentido, o relato dos Magos é paradigma de discernimento.
- Pedir a graça de ser libertado(a) das atitudes e comportamentos que geram resistência e acomodação; e graça de saber descobrir e discernir no céu, na história e em si mesmo(a) os sinais externos, as moções interiores e os caminhos que levam ao Deus da Vida e à vida plena das pessoas que Deus ama.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
02.01.2026
imagem: Bartome Estevaban Murilo

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20)
No início deste Novo Ano busquemos inspiração no relato do evangelho de Lucas sobre os pastores dos arredores de Belém, pastores que buscam, encontram e constroem a paz. Relato que quer abrir nossos olhos, despertar nossa esperança, suscitar nosso compromisso e abrir um novo horizonte de sentido na nossa vida.
Muitas vezes costumamos cair neste erro: considerar o ano civil como um “ciclo”, como um tempo circular que volta sempre, sem mudança, repetindo-se mecanicamente. Esta sensação de circularidade imprime monotonia e rotina à nossa vida e não corresponde ao que proclamamos como cristãos; continuamente celebramos o Deus da surpresa, o Deus da novidade, Aquele que vai sempre à frente, que não se repete, Aquele que sustenta e impulsiona nossa história (pessoal, comunitária, mundial, eclesial...), que nos interpela e nos compromete na construção do Reino, até que Jesus (o centro de nossa vida) seja realmente “tudo em todos”.
Foi assim que os pastores, ao se deslocarem para a gruta de Belém, se depararam com a surpreendente novidade de Deus: a salvação se fez visível na margem, na periferia da vida. No rosto de uma criança recém-nascida se revelou a ternura acolhedora de Deus. O “novo” brotou do chão despojado da vida e não dos palácios, dos templos.
Neste primeiro dia do Ano vamos reler o relato dos pastores com a liberdade com a qual foi escrito por Lucas. É de noite. Alguns pastores velam seus rebanhos dos perigos. São pobres, marginalizados da sociedade e do sistema religioso. Desejam a paz, a paz da justiça ou a justiça na paz. Não querem a paz do império romano, de seu poder violento. Tampouco podem esperar que algum “messias” (rei ou sacerdote) traga a paz. Que podiam eles esperar de Deus, pois são considerados como gente de duvidosa moralidade e ritualmente impura e, portanto, excluída dos benefícios divinos do templo, gente privada do perdão e da paz divina que a religião promete? Que podem esperar do “Deus altíssimo”, invocado pelos poderosos e a quem os sacerdotes do templo imolam os cordeiros de seus rebanhos? Que podem esperar do Deus manipulado pelos mestres da lei que os exclui, por serem ignorantes e inferiores? Por acaso existe outro Deus?
E, de repente, sentem que, na noite da desesperança, uma luz os envolve e uma voz os consola. E se põem a caminho, guiados pelo coração e pela luz. E na gruta, onde costumam guardar seus rebanhos, a luz de seus olhos se encontra com a glória da vida e do universo, encarnada no sinal mais humilde e luminoso: um recém-nascido. Nas ruínas do velho mundo quebrado, do mundo desgarrado, se acende a luz da justiça que garante a paz verdadeira, a luz da paz que gera a justiça. Nas profundezas do universo e de cada ser humano se acende e brota sem cessar um mundo novo, onde as honras não fascinam, as riquezas são compartilhadas, os poderes se rendem, um mundo onde a justiça e a paz se encontram.
“Já não há mais um Deus altíssimo”, poderiam ter dito aqueles simples pastores. Não existe o Deus dos reis com seus exércitos, tronos e palácios, nem o Deus das religiões com suas doutrinas, cleros e templos. Deus é o Ser fontal de tudo quanto existe. É a Luz originária da qual tudo nasce e vive desde sempre. É a luz da energia que tudo atrai e tudo impulsiona. É a Paz na justiça, a paz ativa, terna e subversiva, que cria e recria tudo incessantemente, de transformação em transformação. É o Amor universal que atrai tudo e tudo impulsiona para o “novo céu e a nova terra”.
É preciso ter um coração de um humilde pastor para compreender o “mistério” da Gruta de Belém. O Deus de Jesus não é o Deus que já tem tudo preparado, atado e bem atado; não é o Deus da inércia ou da rotina, mas o Deus que faz tudo novo e, por isso, nos move à renovação permanente e nunca à acomodação. É o Deus sempre criativo que suscita o “novo” e o “surpreendente”, que não “ata” as coisas nem amarra a Criação; por isso, nos convida a sermos co-criadores e colaboradores com Ele na criação contínua através do trabalho e da ação humana. É o Deus da surpresa e da liberdade; uma liberdade humana que conduz a situações imprevisíveis.
Naquela noite de Natal, numa Gruta despojada de qualquer tecnologia, aconteceu uma conexão muito especial, a melhor conexão jamais inventada. Deus, rompe as distâncias, faz-se “humano” e se põe em contato com a humanidade, sem mensagens nem mensageiros. É certo que fora anunciado pelos profetas, mas fazia muitos anos e não havia nenhum sinal extraordinário de que fosse acontecer naquele momento. Mas, esta é a surpresa: Ele vem em pessoa, rompe as distâncias entre o céu e a terra, entre sua divindade e nossa humanidade; naquela luminosa noite, Deus, em Jesus, nascido da Virgem Maria, se faz um de nós, “um entre tantos” e nos faz partícipes de sua vida. O “Verbo se humaniza para nos divinizar”; e assim recebemos a filiação divina e nos tornamos filhos e filhas de Deus.
O Deus do “novo” vem dar sentido e inspiração ao Novo Ano que se inicia. É Ele que desperta nossa imaginação, reacende nossos desejos e alimenta nosso espírito de busca. Imaginação, inspiração, originalidade, criatividade... são o sal da vida e o sopro do Espírito; é o que faz sair luz das sombras e ordem da confusão; é o início de tudo. Tudo o que é novo começa por uma inspiração e o que não é novo é apenas repetição do que já foi. A criação é privilégio do Criador. Participar de alguma maneira humilde, simples, mínima, na emoção suprema da criação primeira é o prazer mais íntimo que o ser humano pode ter sobre a terra. A criatividade e a inspiração são a faísca do divino no coração do ser humano. É a expressão da inspiração que, tal como vento, não se sabe de onde vem e nem para onde vai. Por nossa conta não podemos fazer muito, apenas nos preparar, estar atentos, observar o horizonte, esperar a oportunidade. Mas quando a inspiração surge é preciso lançar-nos. Quem hesita diante da oportunidade perde a vida, que é feita de oportunidades. É preciso aprender a reconhecê-la, acolhê-la com imediata alegria e vontade decidida. “Cada um deve inventar sua vida”.
A vida só tem sentido quando se torna “história”, isto é, quando não se limita a repetir o passado, senão que gera algo novo a partir de uma origem. Todo ser humano experimenta, de alguma maneira, “impulsos para a superação de si”; sua vida está orientada para algo definitivo, pleno... e ele vai construindo-se a si mesmo até converter-se em alguém único e irrepetível. A maneira de fazer isso não pode ser forçada, mas consiste em aceitar o que já se tem e, partindo daí, dar uma direção nova à sua história.
Somos impulsionados, continuamente, a romper com a vida formal e convencional, a vida ordenada com normas claras e recompensas seguras, o exercício de virtudes pessoais... e caminhar para uma vida mais audaz e incerta, de horizontes amplos, de exigências que nos impulsionam a “começar de novo”, de significado mais universal; despertar a motivação e a intenção daquilo que vivemos e fazemos: por quê? para quem?... Temos um coração maior que o mundo e desejos que nos fazem ter asas de águia.
O ser humano é, em sua essência, mudança, movimento, dinamismo, energia... Deus não nos deu um espírito de timidez, de medo, de fuga, de acomodação..., mas de audácia, de criatividade, de luta, de participação... Quando alguém não vive a vida a fundo, só lhe resta a rotina da vida e o vazio vital.
Texto bíblico: Lc 2,16-21
Na oração: Não percebemos precisamos de um coração novo? Não sentimos a necessidade de sacudir nossa apatia e autoengano? Como despertar o melhor que há em cada um de nós? Como reavivar a atitude humilde e transparente dos simples pastores que “glorificavam e louvavam a Deus” depois de terem encontrado o Menino na Gruta?
- Qual é o “novo” que Deus quer realizar em nós e conosco, em nossos ambientes, neste ano que começa?
- É preciso nos aproximar da Gruta de Belém “com todo acatamento e reverência possível” e, se fazemos isso de boa vontade e de bom coração teremos o privilégio de nos sentir envolvidos pela rede do amor misericordioso de Deus.
Se conseguirmos que o ano de 2026 seja “novo” com a eterna novidade da bondade, então também teremos um ano feliz.
Um inspirado 2026!
Pe. Adroaldo Palaoro sj
01.01.2026
imagem: pexels.com

“Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12)
Há mais de um mês que somos continuamente bombardeados pela publicidade, oferecendo um “natal” esvaziado, centrado no consumo, no impacto das luzes que nos cegam, nas insistentes ofertas que nos ensurdecem... A impressão que temos é que tudo no Natal é publicidade, consumismo, materialismo...
Há uma pergunta que todos os anos nos incomoda, quando observamos pelas ruas os preparativos que anunciam a proximidade do Natal: o que existe ainda de verdadeiro no fundo desta festa tão esvaziada por interesses consumistas e por nossa própria mediocridade? Não há algo mais nobre e profundo que os interesses do mundo não conseguem afogar?
Continuamente ouvimos falar da superficialidade da festa natalina, da perda de seu caráter familiar, da vergonhosa manipulação dos símbolos religiosos e de tantos excessos e despropósitos que deterioram hoje o sentido do verdadeiro Natal.
Mas, o problema é mais profundo. Como pode celebrar o mistério de um “Deus feito homem” uma humanidade que vive praticamente de costas para Deus e que destrói, de tantas maneiras, a dignidade do ser humano? Como pode celebrar “a humanização de Deus” uma sociedade marcada por uma desumana indiferença, onde os grandes sonhos e causas mobilizadoras estão esvaziados?
Para muitas pessoas não faz diferença crer ou não crer, ouvir que “Deus morreu” ou que “Deus nasceu”. Sua vida continua funcionando como sempre. Não parecem necessitar mais de Deus.
A realidade contemporânea está nos empurrando para esta grave situação: já faz algum tempo que se falou da “morte de Deus”; hoje, fala-se da “morte do ser humano”; faz alguns anos que foi proclamado o “desaparecimento de Deus”; hoje, anuncia-se “o desaparecimento do ser humano”. Não será que a morte de Deus arrasta consigo, de maneira inevitável, a morte do ser humano?
No entanto, para quem tem um coração contemplativo, percebe que junto a tantos luminosos sinais, há outros mais discretos, que ninguém anuncia: relatos que falam daquela noite em Belém, de uma Boa Notícia, de um Deus que nasce nas entranhas da terra, que é acolhido por humildes pastores...
Nesta Noite Santa, a esperança que foi sendo alimentada durante séculos, rompe o céu e se derrama numa gruta de uma aldeia insignificante com o nome de poesia: Belém.
Nesta Noite Santa, o rebento de um tronco já seco germina para a vida do Universo, abrindo um novo tempo e uma nova Criação, onde não haverá pranto nem lágrimas.
Nos olhos fechados de um recém-nascido, deitado em um presépio, se revela e se faz visível toda a ternura de Deus, toda a espera de muitos séculos, todos os sonhos de muitas gerações.
Nesta Noite Santa, Deus se faz um de nós, passando a transitar, como um “clandestino”, por entre os mais excluídos e revelando que todos somos incrivelmente amados e com capacidade ilimitada de amar.
Nesta Noite Santa, o silêncio se faz gesto radical de entrega, amor transbordante, humanidade plenificada. Na presença repousante de uma criança, encontra-se toda a humanidade que sonha um mundo diferente, de paz, de justiça e de concórdia.
A festa de Natal nos conecta com a essência de nossa própria humanidade. O que se celebra é um Deus-menino, que está chorando entre animais, e que não mete medo nem julga ninguém. É bom que os cristãos voltem a esta imagem; ela representa o “puer aeternus”: o eterno menino que, no fundo, nunca deixamos de ser.
Ter o “eterno Menino” diante dos olhos desperta em nós renovação da esperança, o retorno à inocência perdida, o surgimento de novas possibilidades de vida que correm em direção ao futuro.
Imaginamos “outro Natal possível”, mais próximo do Menino Jesus, nascido humildemente em um presépio, onde, em lugar de “dar presentes”, nos “faremos presentes” junto aos famintos, necessitados e excluídos, abriremos corações e portas à chegada salvadora do Deus que se humaniza. A solidariedade e a ternura abrirão passagem frente ao individualismo, ao egoísmo e ao consumismo.
Imaginamos um Natal onde aproveitaremos para fazer uma viagem ao interior de nosso coração, ali onde habita o Deus da Vida que dá fundamento à nossa verdadeira identidade.
Imaginamos um Natal simples, solidário, alegre... sem luxos, onde abriremos espaços em nosso interior para que ali encontrem hospedagem todas as pessoas que sofrem e que são as preferidas de Deus Pai e Mãe.
Desejamos ardentemente que Deus nasça de novo entre nós, que brote com Luz nova em nossas vidas, que abra caminho em meio aos nossos conflitos e contradições.
Para encontrar-nos com esse Deus não é preciso ir muito longe. Basta nos aproximar silenciosamente de nós mesmos; basta “descer” em nossa gruta interior, em nossos desejos mais profundos.
Deus sempre é surpreendente e novo; é assim que Ele, como um anônimo, se aproxima de nós, onde estamos, para fazer de nosso eu profundo sua Gruta, onde a Vida se revela. O Deus “inacessível” se fez humano e sua proximidade misteriosa nos envolve. Em cada um de nós pode nascer Deus.
Caminhemos até Belém! Vamos todos fazer este caminho em direção ao “Deus clandestino”, para que as águas do Natal possam empapar nossas vidas e despertar em nós o assombro, a acolhida, o olhar contemplativo... diante do Menino que não fala, mas revela tudo de Deus.
Basta “ser gruta” para Ele.
“Eu vos anuncio uma grande alegria... nasceu para vós um Salvador”. Quem está preparado para escutar e acolher esta surpreendente notícia? Somente os pastores, a profissão mais desprezada e marginalizada daquele tempo. A Salvação é anunciada em primeiro lugar aos oprimidos, aos que não são contados, aos excluídos. Os demais estão descansando, adormecidos, acomodados; não precisam de nenhuma salvação.
Deus sempre é Boa Notícia. Deus deixa transparecer seu rosto salvífico no rosto de um recém-nascido.
Atualizando este mistério, podemos assim afirmar: Deus está vindo sempre em nossa direção, para nos comunicar vida plena. Os pastores saem correndo. Não é fácil encontrá-Lo. Alguma pista? Um menino, enrolado em faixas e deitado entre palhas, num coxo de animais. Seus pais não dizem nenhuma palavra. O que poderiam dizer? Deus decide enviar sua Palavra e nos envia um recém-nascido que não sabe falar.
Tudo o que nos torna mais humanos deve ser incorporado a esta Festa: o encontro familiar, a refeição, os abraços, a memória celebrativa...; tudo pode nos ajudar a descobrir o que somos na nossa essência humana e manifestar isso com muita alegria. A festa adquirirá sentido para todos os momentos em que soubermos unir o humano e o divino. Se formos capazes de ir mais além da superficialidade, poderemos nos encontrar celebrando a única realidade que interessa: a Vida que está em nós e espera ser ativada.
Deus continua nascendo entre nós se O deixamos transparecer em nossas atitudes diante dos outros, em nossa entrega e sensibilidade oblativa. Deus está onde nós O descobrimos e nos fazemos presentes. Deus está onde há amor, compaixão, vida partilhada, acolhida...; ali onde um ser humano é capaz de superar seu egoísmo e viver descentrado; ali onde há compreensão, perdão, abertura ao diferente...; ali está Deus, “assim novamente encarnado” (S. Inácio).
Texto bíblico: Lc 2,1-14
Na oração: O mais importante acontece no silêncio, acontece no centro de sua própria vida e o convida a olhar para além das aparências. Viver um Natal inspirado implica fazer uma viagem ao interior de seu coração, ali onde habita o Deus da Vida que dá fundamento à sua verdadeira identidade.
Continua sendo Natal em cada história, em cada terra, em cada vida que se abre ao Mistério, em cada verbo que se faz eco das palavras de justiça e de paz, em cada gesto que se soma na mobilização dos direitos de todos, dos direitos da Terra, dos direitos da vida.
Um Natal com sabor de Evangelho fará toda a diferença em sua vida!
Um inspirado Natal a todos!
Pe. Adroaldo Palaoro sj
23.12.2025

“Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa” (v. 24)
O Advento nos oferece uma excelente oportunidade para nos aproximar dos verdadeiros protagonistas da história: homens e mulheres de todos os tempos, pessoas pouco ou quase nada conhecidas que, com sua passagem humilde por esta terra, com sua presença despojada, sua espiritualidade do serviço, sua confiança no Deus providente, nos inspiram e nos conduzem a viver o verdadeiro progresso humano e espiritual.
Os Evangelhos narram a história vivida e contada por protagonistas de “segunda fila”, ocultos nos relatos históricos “oficiais” e que só narram as façanhas dos poderosos, com suas ambições, seus privilégios e a opressão que exercem sobre os povos.
O tempo do Advento nos faz entrar em sintonia com S. José e seu assombro diante daqueles momentos tão desconcertantes que ele viveu. E, nele, podemos todos nos reconhecer. Quem não experimentou em seu interior a insatisfação cheia de resistências frente às mudanças que fizeram cair o que fora planificado com toda expectativa. A mudança de planos, seguida de dúvidas, nos alteram, nos dividem por dentro, nos deixam na obscuridade. E é na resposta confiada onde aparece o caminho que nos faz crescer de verdade como pessoas.
A figura de S. José nos permite retornar à essência dos Evangelhos. “A boa notícia do Evangelho consiste em mostrar como, apesar da arrogância e da violência dos governantes terrenos, Deus sempre encontra um caminho para cumprir seu plano de salvação” (Papa Francisco, Patris Corde, 5).
É preciso, portanto, reorientar nosso olhar: primeiro para ler a história a partir dos últimos, dos pequenos e descartados; e, segundo, para desejar profundamente permanecer entre os que estão “à margem”. É por ali que Deus “entra” na história; é ali que surge o broto de um novo tempo e de uma nova esperança.
O testemunho de José vem, além disso, reafirmar a convicção de que nos mais humildes repousa o melhor e mais belo da humanidade. Das periferias, dos “menos-valorizados” ..., surgem valores e experiências que nos fazem progredir a todos, nos propõem perguntas e apontam para novos horizontes...
O evangelista Mateus inseriu o personagem José, "o esposo de Maria" (Mt 1,16), no início de sua catequese, e o descreveu como modelo de quem adere ao discipulado do Reino, proclamado e vivido por Jesus de Nazaré. O leitor-ouvinte de sua catequese, ao longo da narração, deve se dispor a assumir atitudes idênticas às de José na relação com o querer divino, inspirando-se nesse discípulo ideal.
O texto evangélico de hoje afirma claramente o conflito vivido por José. Ele viveu a experiência de uma verdadeira “noite escura”, do “silêncio de Deus”. Mais uma vez é Deus quem toma a iniciativa.
José era um pobre noivo, pertencente a uma nação oprimida e a uma categoria social esquecida, mas conservava límpidos os olhos do espírito, prontos para perceber e acolher a presença surpreendente de Deus em sua vida. Na narração de Mateus, o anjo comunicou ao confuso José o mistério que estava acontecendo com sua esposa Maria. Por essa revelação do anjo, José foi atingido como que por um raio, foi tomado de surpresa: sua noite, seu silêncio, seu sono, sua rotina diária foram quebrados por uma novidade absoluta.
O que José recebeu no sonho foi o chamado a uma existência marcada por constantes “deslocamentos”, pois, a mulher que entrou em sua vida e vai entrar em sua casa, Maria, levava em suas entranhas Aquele que para muitos será uma presença provocativa, uma ameaça ao poder estabelecido, um transgressor das leis e normas religiosas... A vida inteira de José, o justo, vai ficar desestabilizada a partir deste momento porque foi convidado a aproximar-se do mistério surpreendente do Deus feito homem.
Exteriormente, o mundo permanecia como estava, aparentemente nada mudou; mas, ao associar-se ao destino do “Deus que se humaniza”, também José se revelará como presença surpresa, marcada pelo cuidado, pelo silêncio e pela prontidão ao chamado de Deus.
José de Nazaré é o ícone da maior parte dos homens da humanidade que, a partir do silêncio e do anonimato, transitam pelo caminho do trabalho e da família, ambas primitivas vocações dadas no Genesis, no momento da Criação. Na era da imagem em que vivemos, na qual é mais importante “aparecer” que “ser”, a figura de S. José é contracultural e ilumina milhares de seres humanos, para que sejam pessoas com dignidade e não massa amorfa de consumidores e excluídos, presos nas redes sociais e caminhando em direção ao abismo da solidão e do sem-sentido.
A essência da figura de S. José continua sendo seu amor comprometido e kenótico (esvaziamento); não se pode assumir tanto amor sem um esvaziamento e um desmonte do egoísmo e da vaidade. S. José é a imagem daqueles que estão continuamente abertos à Graça transformadora e, portanto, plenamente humanos, em sintonia com a humanidade nova dos construtores do Reino; aqueles que sabem que não são ilhas perdidas de boas intenções, mas que sentem sua pertença a uma História e a um Povo; aqueles que sabem que, para além do êxito ou fracassos pessoais, visibilidade ou invisibilidade midiática, contribuem com suas vidas a um plano maior, a do amor de Deus.
No evangelho de Mateus, a personalidade de José está marcada por uma atitude eloquente de silêncio e discernimento. Um silêncio que não era um vazio, mas um espaço rico na alma, para escutar continuamente, em seu interior, a voz de Deus e o clamor dos demais. Seu silêncio também era habitado por incertezas e sofrimentos, momentos de solidão, de conflito interior, de escuta...
Como discípulos autênticos do Reino entramos em sintonia com o querer e o desejar de Deus nas situações onde nos falta clareza e parece nos encontrar num impasse. São muitas as circunstâncias em que, como José, devemos trilhar o caminho da justiça confrontado com decisões dramáticas a serem tomadas.
O discípulo do Reino, em hipótese alguma, age por impulso, tampouco movido por razões arbitrárias. Antes, nos momentos difíceis, quando deve tomar decisões importantes, valoriza o discernimento como tempo de ponderar tudo diante de Deus, com o desejo de ouvir sua voz, como José na escuta do anjo do Senhor. A voz divina faz-se ouvir de muitas maneiras, de modo especial, nas palavras das pessoas carregadas de sabedoria espiritual e experientes na arte de discernir o desejo de Deus no emaranhado de vozes e apelos em que o ser humano se vê enredado. Nas encruzilhadas difíceis da vida, vale a pena escutá-las!
O evangelista Mateus aponta outro detalhe: “José, era justo...”. Esta expressão na linguagem bíblica é qualificativo de uma pessoa honrada, que se abre à Presença do Deus Amor sem colocar resistência, que busca fazer o bem e retificar o que está torto. É o “anawin” na linguagem bíblica (o pobre de Javé). Como a Virgem Maria, também S. José é o “pobre do Senhor” e pode cantar o “Magnificat”. José é “justo” porque não sucumbiu à tentação do poder, do prestígio social, da febre obsessiva de tudo possuir.
Como homem “justo”, José acolheu Maria sem impor condições prévias. Um gesto inspirador para este nosso mundo onde a violência psicológica, verbal e física sobre a mulher é patente.
Acolhendo Maria numa situação de pessoa “suspeitosa e indefesa”, José nos convida a acolher os outros, sem exclusões, tal como são, com preferência pelos mais fracos. Cada necessitado, pobre, sofredor, estrangeiro, prisioneiro, enfermo, é “o Menino” que José protege e cuida. Neste sentido, sua figura evoca a multidão de pessoas “justas” cuja conduta, em todos os rincões do mundo, é germen de vida e sinal de esperança.
Texto bíblico: Mt 1,18-24
Na oração: A espiritualidade do Advento pede de nós uma docilidade à audição da Voz que nos habita; é também o sussurro que vem da realidade e das coisas, carregada da Presença d’Aquele que desperta o nosso ser para o assombro, para a maravilha e para o milagre.
Diante do “Mistério” que nos envolve e nos escapa, brota do mais profundo do nosso ser, o grito cheio de surpresa.
Eis a plenitude da vida: mergulhar naquela Presença benfazeja que nos enche de sentido, de alegria, e nos surpreende a cada momento, nos invade e nos conduz a caminhos novos.
- Fazer memória das “surpresas” de Deus que despertaram um novo “movimento” em sua vida.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
19.12.25

“Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo...” (Mt 11,4)
Hoje precisamos ativar uma nova sensibilidade contemplativa para perceber a misteriosa ação de Deus em nosso mundo, marcado pela injustiça, pela violência, pela cultura da indiferença, do preconceito e da intolerância. Encontrar Deus numa realidade de profunda desumanização foi e será sempre um desafio.
Jesus, movido por uma sensibilidade oblativa, manda dizer a João Batista e a nós para que abramos nossos sentidos à realidade, ao novo. Não nos diz, como em outras ocasiões, “recordem”, “façam memória”, “pensem”, “reflitam”, “ponderem” ..., mas, sim, “olhem”, “escutem”, “abram bem os sentidos, percebam a realidade de outra maneira, tirem de suas vidas as formatações que lhes travam o olhar e entopem os ouvidos, sacudam para fora de vocês a escuridão e o frio do inverno que os tem congelados, percebam os brotos, o germinal que rompe as cascas endurecidas e os terrenos petrificados que lhes querem silenciar; descubram o novo que Deus realiza em cada momento”.
Jesus revela uma sensibilidade diferente. Em seu coração arde a certeza de que a criatividade de Deus não pode ser bloqueada e, portanto, é preciso estar sempre atento, acordado, olhando a realidade com olhos contemplativos, porque a qualquer momento pode brotar algo inesperado e surpreendente. A fidelidade de Deus é como uma semente que permanece aberta à vida debaixo da terra completamente seca e desolada. Basta uma chuva para que brotem as folhas verdes e pintem de esperança a paisagem sem vida.
É preciso estar olhando sempre o horizonte da história para ver se aparece um ponto pequeno, insignificante, que balança e cresce ao aproximar-se como novidade salvadora. É preciso estar olhando sempre o silêncio dos corações para ver se Deus faz surgir algo novo, uma intuição pequena que cruze o firmamento interior como uma estrela fugaz, algum sonho que abra a vida a novas possibilidades.
O Advento revela-se como um itinerário espiritual que vai nos transformando desde a “cegueira” e “surdez”, que pode levar-nos à perdição e morte, até a possibilidade de ver Deus presente em tudo, sem exclusão nenhuma, trabalhando sem descanso, para que possamos contemplá-lo em tudo, unindo-nos a Ele e à Sua atividade que tudo recria.
Nossa sensibilidade, cada vez mais petrificada pelo excesso de imagens e sons, tem maior dificuldade em perceber os detalhes mais finos da vida. Assim, esta mesma vida vai se banalizando, de tal maneira que vemos mortes, miséria e violência sem nos alterarmos, sem distinguirmos se é uma notícia ou um filme a mais que compete pela audiência, alimentando as atrocidades mais explícitas. Por outro lado, a contemplação das “margens da dor e da injustiça” nos faz mergulhar no Mistério profundo de Deus. A experiência cristã nas margens da história é “mistério e contradição”, superabundância e sequidão, mística e vazio... Por isso é necessário reacender a “mistagogia do olhar” para poder compreender, ou ao menos vislumbrar, a “faísca de luz” que reluz nos contextos de exclusão.
“Tudo é segundo a dor com que se olha” (Benedetti). Ver a vida a partir da tela de um computador, ou auscultar os lamentos a partir de um celular, ou experimentar a vida a partir de um belo “powerpoint” carregado de música emotiva e imagens impactantes, não nos capacita para “ver o novo nas margens da história”. João Batista pede um sinal porque teme por sua vida e quer deixar uma boa herança para seus seguidores. Envia uma delegação e Jesus lhes responde citando Isaías: “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”
Jesus não veio impor nada, nem complicar a vida com mais leis e ritos, mas estabelecer um movimento de vida centrado no serviço e no cuidado. Sua atividade de não-violência, seu ministério terapêutico, seu anúncio da Boa Notícia, sua liberdade diante da lei e das tradições religiosas, escandalizou a todos.
Não podemos imaginar Jesus pregando a conversão pelos povoados e oferecendo penitência aos pecadores. Ele quebrou as distâncias, aproximou-se dos enfermos e dos sofredores de tal maneira que, poderíamos dizer, Jesus introduziu uma revolução religiosa de caráter curativo, uma religião terapêutica que não tinha precedentes na tradição judaica. Ele anunciou a salvação curando; isto foi tremendamente novo.
Jesus revelou que o maior pecado é praticar a injustiça, causar sofrimento ou tolerar a exclusão, dando as costas aos preferidos de Deus. Para Ele, o pecado não é uma simples transgressão de leis, mas quebra de relação, indiferença diante dos excluídos ou daqueles que são vítimas de uma estrutura social e religiosa. O pecado revela seu rosto desumanizador encarnado naquelas pessoas que estão sofrendo, vítimas da dureza de coração de muitos e que estão sendo esquecidas por todos. Começou, então, a curar...
Jesus curou não de maneira arbitrária ou por sensacionalismo, mas movido pela compaixão; revelou que os sofredores são os primeiros a experimentarem, em sua própria carne, o que é a bondade de Deus; os mais excluídos, os mais desesperançados, os mais quebrados, os que já não tem nem rosto humano..., são aqueles que devemos colocar no centro de nosso coração, porque são o centro do coração do Pai.
A grande revolução de Jesus, portanto, foi nos mostrar que Deus é de todos, que o encontro com Ele vai além dos templos magníficos, das vestimentas ostentosas, dos ritos sofisticados, dos sacerdotes que não “sentem o cheiro das ovelhas”. Os sábios, os entendidos, os moralistas e legalistas não eram os seus preferidos; mais ainda, se nos deixamos inspirar por aquilo que vemos em Jesus, percebemos que Seu coração sempre se inclinou para os marginalizados, os impuros, os excluídos, os enfermos... Poderíamos dizer que o Deus de Jesus não é “justo”, mas “compassivamente parcial” em favor dos mais necessitados. Jesus viu o Pai criando a vida nova e inimaginável, soltando todas as amarras que, precisamente por razões religiosas e por má interpretação do sábado e de Deus, paralisavam e mantinham seus filhos na escravidão.
Esse é o dinamismo do Amor de Deus que se faz ternura e abraço acolhedor de todo ser humano.
Há um modo contemplativo de estar no mundo que nos capacita para perceber a Deus como Presença primeira e constitutiva da Realidade, pulsando em todas as coisas. Porque, em definitiva, o que nossos olhos querem ver, o que nossos ouvidos querem ouvir, é o Rosto-mais-além-dos-rostos que se manifesta através da realidade. Revelar a beleza de alguém é revelar o seu valor e dignidade, dedicando-lhe tempo, atenção e ternura.
Amar não é apenas fazer algo pelo outro, mas revelar ao outro sua própria originalidade, comunicando-lhe, assim, que ele é especial e digno de atenção. Podemos expressar essa revelação por meio da nossa presença aberta e gentil, pela maneira como olhamos e escutamos uma pessoa, pelo modo como falamos com ela e cuidamos dela. Os sentidos, cristificados, nos impulsionam em direção ao outro e nos fazem acreditar na beleza e dignidade escondidas na fragilidade da condição humana. Mergulhar na realidade que nos cerca, por meio dos sentidos bem abertos e evangelizados, é deixar estremecer de vida divina a fragilidade de nossa condição humana.
Uma comunidade de seguidores(as) Jesus não é só um lugar de iniciação à fé, nem só um espaço de celebração. Deve ser, de muitas maneiras, fonte de vida mais sadia, lugar de acolhida e casa para quem necessita de um lar.
Uma comunidade que segue o “Amigo da Vida” deve se constituir como “comunidade curadora”: mais próxima daqueles que sofrem, mais atenta aos doentes desassistidos, mais acolhedora daqueles que precisam ser escutados e consolados, mais presente nas situações dolorosas das pessoas...
Texto bíblico: Mt 11,2-11
Na oração: Se alguém nos pergunta se somos seguidores do Messias Jesus: que obras em favor da vida podemos lhes mostrar? Que mensagem libertadora eles podem escutar de nós?
- Quais são as marcas características que não podem faltar em uma comunidade de seguidores(as) de Jesus?
- Sua comunidade cristã é “curadora” e “cuidadora”? É aberta à vida ou só se preocupa com ritualismos e moralismos? É “comunidade-em-saída” ou autocentrada?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
13.12.2025

“Vigiai porque não sabeis em que dia virá o Senhor” (Mt 24,42)
Mais uma vez nos deparamos com ritos de passagem: final de ano litúrgico, a expectativa ardente alimentada pelo Advento, a memória natalina, a ansiedade diante dos desafios do novo ano que virá...
Advento: tempo celebrativo marcado pela gratidão, para acolher as experiências vividas e aprender com elas; tempo de inspiração e criatividade diante da certeza do novo; e, sobretudo, tempo para recompor a esperança, tantas vezes reprimida ao longo do ano.
O Advento nos situa no clima das grandes esperanças da humanidade; neste dezembro mágico nosso coração caminha mais rápido, rompe o tempo, já está lá na frente, pronto para acolher a surpresa. Tudo aponta para o Eterno que nos escapa e nos encontra. Aqui a imaginação trabalha e cria momentos felizes. Com essa esperança, podemos dar sabor à nossa vida, muitas vezes modesta e simples.
A esperança tem raízes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas coisas. Nos despojados gestos ela floresce e aponta para um sentido novo. É preciso um coração contemplativo para captar o “mistério” que nos envolve.
Em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações e inquietudes, que constituem o atual momento histórico, queremos dar vez a um brado de esperança e expressar a fé no futuro da nossa vida. Mesmo diante dos profundos dilemas sociais, achamos possível ser e viver de outro modo, inventamos e reinventamos opções, criamos novas saídas... e, sem cessar, sonhamos com o “mais” e o “melhor”. Ainda que soframos ventos contrários e as nuvens se adensem no horizonte, sabemos e confessamos com o profeta Jeremias: “Há uma esperança para o teu futuro” (31,17). Nesse sentido é que compreendemos a esperança como geradora do futuro; ela se revela como espera criativa e nos prepara para acolher as surpresas da vida.
Quem ama e espera (esperançar) o futuro não pode “conformar-se” com a realidade tal como é hoje. A esperança não tranquiliza, mas inquieta, gera protesto, nos desperta da apatia e da indiferença... nos desinstala. Aquele que vive com esperança se sente impulsionado a fazer o que espera. O futuro que espera se converte em projeto de ação e compromisso, alimenta a solidariedade, desperta a ternura, a acolhida compassiva...
E este compromisso é precisamente o que gera esperança no mundo. “Estamos abastecidos de futuro” (Pedro Arrupe, sj). É preciso desatá-lo.
Nossa concepção de futuro se atrofiou: vivemos “tempos sem futuro”. Não podemos prever o futuro com segurança. Hoje, o futuro se apresenta a nós muito mais aberto que em qualquer outra época de nossa humanidade. Os conhecimentos, os meios de comunicação, a tecnologia... não nos asseguram uma certeza do que virá. Aventurar no futuro torna-se cada dia mais complexo e difuso, pois predomina a incerteza que nós mesmos geramos.
Vivemos uma geração que teme o futuro; por isso vivemos um “presente esticado” porque o futuro nos apavora. Já que preferimos não imaginar o futuro, alargamos o presente. Precisamente porque faltam valores e um sentido para a existência é que se irrompe o medo do futuro, a acomodação, o refúgio no efêmero e no imediato, sem raízes e sem esperança. O medo do futuro nos ajuda a entender a mediocridade e o vazio do presente.
Não esqueçamos que o Advento é toda uma possibilidade de vida que temos à frente. Por isso o grande grito deste primeiro domingo é “Vigiai!” porque “não sabeis quando virá o vosso Senhor”. Ninguém vigia o passado que já passou e já não existe mais. Vigiamos o que está por vir, o que está vindo. A vigilância olha sempre o futuro. Um futuro que depende de Deus e depende de nós. Porque uma coisa é a ação de Deus em cada um de nós neste tempo do Advento e outra coisa é o que nós fazemos para que algo novo aconteça.
Nós mesmos somos um “advento”, porque nosso futuro humano depende do que esperamos. Haverá aqueles que já não esperam nada. Haverá outros que esperam algo novo, mas duvidam. E haverá aqueles que esperam o novo e dedicam suas vidas a criá-lo já agora.
Porque em cada momento definimos nossas vidas; em cada momento algo surpreendente pode acontecer em nossa vida; em cada momento nossa vida pode apagar-se ou pode rejuvenescer-se.
No evangelho deste domingo, as duas pequenas parábolas insistem na atitude da vigilância. A primeira delas nos adverte com uma intencionalidade clara: o maior inimigo da vigilância é a dispersão, revestida de rotina e apego ao costumeiro (“comer, beber, casar-se”). Viver vigilantes para olhar mais além de nossos pequenos interesses e preocupações. Na segunda, a insistência se situa na importância de “estar vigilante”, porque o que está em jogo é nada menos que a segurança da “casa”, ou seja, a consistência da própria pessoa.
Não é raro que, ao sentir um mal-estar ou medo frente ao nosso mundo interior, optemos pela “distração” ou “dispersão”. Por outro lado, vivemos dispersos e ansiosos porque crescemos com a ideia de que nos falta “algo” que, supostamente, se encontra “fora” de nós, com o qual conseguiríamos, finalmente, desfrutar da felicidade desejada.
A dispersão é o estado habitual de quem se encontra identificado com seus pensamentos, sentimentos, emoções ou reações, ignorando sua verdadeira identidade. Vivemos num contexto marcado pela “dispersão”, seduzidos por estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de fora, cativado pela mídia, pelas inovações rápidas, magnetizado por ofertas alucinantes... E então, nós nos esvaziamos, nos diluímos, perdemos a interioridade e... nos desumanizamos.
A pessoa “dispersa”, por não ter um horizonte de sentido que a atraia, fixa-se no cenário externo, agarra-se ao mundo circundante, apega-se às coisas, na ilusão de alcançar uma segurança almejada. Ela foge de si mesma, tem medo de encontrar-se. Por isso, acompanha o ritmo dos outros, repete a linguagem dos outros, adota os critérios dos outros, e acaba sendo influenciada e dominada por pressões e hábitos externos.
A “dispersão” corrói a interioridade da pessoa e dissolve aquilo que é mais nobre em seu interior. Longe de uma humanidade dinâmica, operante, ousada... o que a pessoa deixa transparecer é uma humanidade neutra, apática, estagnada; é humanidade lenta, afogada na “normose”, estacionada na repetição dos gestos e dos passos. Ela gira em torno de si mesma e não consegue fazer um salto libertador. Isso tudo leva a pessoa a debilitar-se, provocando a redução da vitalidade humana em vez de favorecer o crescimento pessoal.
Advento é tempo propício – “kairós” - para ajudar a superar nossa “dispersão” e poder recuperar a densidade humana interna. Para isso, precisamos entrar em “estado de vigilância”, repensar a interioridade perdida, reconquistar a autodeterminação.
Estar atentos e vigilantes é uma condição humana e cristã para viver intensamente; viver distraídos e dispersos é perder as oportunidades de muitos encontros, é deixar que o outro passe ao nosso lado sem nos darmos conta, é deixar que Deus passe sem que o percebamos, é deixar passar o momento em que Ele nos chama e perdemos a oportunidade de dar uma resposta vivificadora.
Viver é estar atentos à vida, a nós mesmos, aos demais. Viver é estar atentos às ocasiões únicas, às oportunidades que não voltam; viver é estar com os olhos abertos para contemplar, é estar com os ouvidos atentos para escutar.
É nessa direção que o “tempo do Advento”, centrado n’Aquele que vem, mobiliza e reordena todas as dimensões da vida e propõe um caminho de humanização. Ele desafia cada um a assumir o potencial humano criativo que está latente em seu interior.
Texto bíblico: Mt 24,37-44
Na oração: - Em quê dimensões da vida você sente a força desagregadora da “dispersão”?
- “Vida atenta” é vida com largos horizontes: neste Advento, o que você está “lendo” no seu horizonte pessoal, social, profissional, familiar, religioso...?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
27.12.2025
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“Acima dele havia um letreiro: ‘Este é o rei dos judeus’” (Lc 23,38)
Ao longo do ano litúrgico fizemos um percurso catequético e espiritual da história da salvação, vivendo e celebrando os momentos mais significativos da vida e missão de Jesus Cristo: encarnação, nascimento, vida pública, anúncio da boa-notícia, paixão-morte-ressurreição-ascensão...
Agora, no final deste tempo litúrgico, nos encontramos com a festa de Cristo Rei, cume do caminho percorrido, de nossa vida pessoal, da história e da missão da Igreja. Ele é o horizonte. Rei: não há outra palavra menos apropriada para Jesus. Jesus, rei atípico. Os reis deste mundo vivem às custas de seus súditos. Jesus crucificado é um estranho rei: seu reinado não se dá de forma impositiva, violenta ou cruel. N’Ele descobrimos um Rei que não se apoia na força e no poder, mas na fragilidade e no escândalo da Cruz; seu trono é o madeiro da cruz: sinal de fracasso; sua coroa é a de espinhos; seu cetro é a toalha para lavar os pés: sinal de serviço; não tem manto, está desnudo; até os seus seguidores o abandonaram.
Lucas nos diz onde e como Jesus ganha este título de rei: na entrega de sua vida até a morte. Seu senhorio é de amor incondicional, de compromisso com os pobres, de liberdade e justiça, de solidariedade e de misericórdia. Jesus reina perdoando, amando e comunicando vida a partir de uma situação de humilhação e impotência extremas. Um rei crucificado é uma contradição e um escândalo.
Usamos, ainda hoje, sobretudo na linguagem religiosa, imagens que nasceram em outro tempo e em outro contexto cultural. Que reações provoca o título de “rei” numa sociedade na qual os reis já são tão pouco estimados e menos amados? A realeza atribuída a Jesus necessita de uma oportuna iluminação.
O título de Cristo Rei corre o risco de ser utilizado de uma forma pagã, como uma pura imitação dos reis deste mundo. O triunfalismo religioso e político tem utilizado este título para defender ideias conservadoras, concepções triunfalistas e dominadoras, poderes vazios... Se continuarmos escondendo Jesus debaixo de vestes suntuosas e trono de ouro, tão distantes do que Ele foi na realidade, o reduziremos a uma entidade quase mítica que só pode interessar às pessoas esotéricas, supersticiosas e saudosas do passado.
Esse é o maior paradoxo da história humana: o Crucificado é esperança dos pobres, dos pecadores e de todos os sofredores. Jesus é Rei desta forma e não da forma triunfalista como querem os cristãos “triunfalistas”. Um rei que toca leprosos, que prefere a companhia dos excluídos e não dos poderosos deste mundo. Seu reinado passa pela dinâmica do serviço, do perdão e da disponibilidade, da acolhida, da misericórdia e da proximidade. Um rei que lava os pés dos seus, um rei que não tem riquezas e que não pode defender-se, pois não tem exército... Um rei sem trono, sem palácio, sem poder. Pobre rei!
Por isso, para poder aplicar a Jesus o título de “rei”, devemos despojá-lo de toda conotação de poder, força ou dominação. Jesus sempre se manifestou contrário a todo tipo de poder. E não só condenou aqueles que que se impõem sobre os outros, como também condenou, com a mesma veemência, aqueles que se deixam submeter e se fazem subservientes.
Jesus quer seres humanos completos, isto é, livres. Ele quer pessoas ungidas pelo Espírito de Deus, que sejam capazes de manifestar o divino através de sua humanidade. Tanto o que escraviza como o que se deixa escravizar, deixa de ser humano e se afasta do divino.
Jesus quer que todos sejamos “reis”, ou seja, que não nos deixemos escravizar por nada nem por ninguém. Quando responde a Pilatos, não diz “sou o rei”, mas “sou rei”; com isso, está demonstrando que não é o único, que qualquer um pode descobrir seu verdadeiro ser e agir segundo esta exigência. Há uma nobreza e uma realeza presentes em nosso interior e que são ativadas no encontro com o outro, através da compaixão, do serviço, do amor solidário...
Devemos estar conscientes de que o sentido que queremos dar a esta festa não é aquele dado pelo papa Pio XI que, em 1926, num momento delicado para a Igreja diante da perda de seu prestígio e de seu poder, quis ressaltar o “poder espiritual” de Cristo como rei da história e do mundo; ao mesmo tempo, quis reafirmar, frente aos poderes deste mundo, o poder de Cristo como origem de toda autoridade real ou política e, sobretudo, como fundamento do poder da própria Igreja.
Uma leitura mais repousada do Evangelho e do Concílio Vaticano II nos convida a reler de novo esta festa para despojá-la, como fizeram com Jesus, de suas roupagens políticas, dos adereços dos poderosos e influentes. A Igreja não deve e não pode ser um poder real no mundo, mas uma presença inspiradora de transformação do coração e das estruturas que excluem o ser humano e o esvaziam de sua dignidade.
Devemos, sim, conservar o título, mas mudar a maneira de entendê-lo, ou seja, com o Evangelho na mão podemos continuar falando de “Jesus Cristo, rei do universo”. Jesus será “Rei do Universo” quando a paz, o amor e a justiça reinarem em todos os rincões da terra, quando todos sejamos testemunhos da verdade, quando em todos os ambientes a mesa do Reino se tornar mesa de inclusão e de acolhida... Jesus será Rei quando estivermos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que hoje estão dependurados nela.
O Evangelho da festa de hoje faz parte da narração da Paixão de Jesus. Ele nos relata a investidura do rei Jesus de Nazaré, que se dá na Cruz, em meio a zombarias, açoites e blasfêmias. Fixemos nosso olhar nos personagens que assistiam ao tremendo espetáculo da crucifixão. O povo estava ali olhando. Não era a multidão que habitualmente O seguia, mas pessoas que assistiam com curiosidade zombadora.
Os chefes, as autoridades religiosas escarneciam de Jesus. Eles conservavam a ideia de um Messias triunfal. Tinham um Deus feito à medida de seus interesses. A mensagem de Jesus não os afetou. Julgavam-se em posse da verdade. Os soldados também lhe zombavam. Aproximavam-se dele para dar-lhe vinagre. Os executores da violência do poder romano não podiam entender um rei que não fazia nada para defender-se. O letreiro também indicava ironia: “Este é o rei dos judeus”.
Um dos ladrões o insultava: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”. Ninguém pareceu ter entendido Sua vida e Sua mensagem. Ninguém compreendeu seu perdão aos algozes. Ninguém viu em seu rosto o olhar compassivo do pai. Ninguém percebeu que, pendente da Cruz, Jesus se unia para sempre a todos os crucificados e sofredores da história.
A resposta de Jesus diante dos insultos foi o silêncio carregado de mistério. Silêncio que poderia ser interpretado como impotência resignada ou reconhecimento do fracasso. No entanto, Ele transformou a onda de insultos em manifestação de misericórdia e salvação. Ele só respondeu ao bom ladrão com a força de suas palavras salvadoras: “ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Em sua entrega cumpre a vontade do Pai.
O título da Cruz, registrado pelos quatro evangelhos, provavelmente é uma chave muito completa para interpretar a impressão que Jesus causou às autoridades: “este é o rei dos judeus”. O crucificado era um rei que colocava em questão os poderes deste mundo. E que, além disso, questionava os valores que regiam a sociedade bem pensante de então e de agora. Dizia que tinha vindo para chamar os pecadores e não os justos.
Deus está mais interessado pelos que se sabem pecadores que pelos que acreditam serem piedosos. As palavras e a maneira de agir de Jesus são uma denúncia para aqueles a quem o poder lhes encanta e para aqueles que se dedicam a condenar os que não pensam ou atuam como eles.
Um denunciante assim só pode acabar expulso, marginalizado, rejeitado.
Texto bíblico: Lc 23,35-43
Na oração: quando levantamos nossos olhos até o rosto do Crucificado, contemplamos o Amor insondável de Deus; se O contemplamos mais atentamente, logo descobriremos nesse Rosto o rosto de tantos outros crucificados, longe ou perto de nós, clamando por nosso amor solidário e compassivo.
- Diante do Crucificado, trazer à memória os crucificados de hoje: isto o(a) afeta? o(a) deixa inquieto(a)? o(a) incomoda?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
21.11.2025

“Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2,16)
Os profetas de Israel costumavam recorrer a “gestos proféticos” para expressar, de um modo visual e contundente, mensagens que lhes pareciam decisivas. Na mesma linha dos profetas de seu povo, Jesus realiza também gestos repletos de simbolismo: suas refeições com os pecadores, o lava-pés, a ação contra o Templo... É disso que trata o Evangelho da festa de hoje (Dedicação da Basílica do Latrão), ou seja, uma ação simbólica na qual se pretende mostrar que o tempo do Templo terminou. A expressão “purificação do Templo” não é a mais adequada, porque não se trata de purificar o espaço que se tinha convertido em centro comercial, mas de substituí-lo. Jesus prescindiu do Templo para relacionar-se com o Pai.
A partir de seu projeto, que chamava “Reinado de Deus”, foi questionando uma religião que desumanizava as pessoas. Ele mesmo, durante sua vida, foi relativizando e esvaziando os pilares da religião judaica: o sábado, a “pureza” legal, o Templo, o jejum, o culto, os sacrifícios, as doutrinas, os sacerdotes... E pouco a pouco foi colocando tudo isso em questão, transgredindo suas normas e atacando a hipocrisia de um culto a Deus que desprezava as pessoas.
O simbólico ataque final ao Templo foi determinante para ser considerado como um “subversivo” pelo sistema político e um blasfemo pelo sistema religioso. Aquele Templo já não era a casa de um Deus Pai, pois não era espaço de acolhida, mas de exclusão. Jesus se sentia como um estranho naquele lugar. O que seus olhos viam nada tinha a ver com o verdadeiro culto ao Pai. Deus não pode ser o protetor e encobridor de uma religião tecida de interesses e egoísmos. Deus é um Pai a quem só se pode prestar culto trabalhando por uma comunidade humana mais solidária e fraterna.
Nesse gesto ousado de Jesus, fica claro o que Ele pretende: denunciar os “templos e as religiões” que se absolutizam como lugares da presença divina, criando dicotomias ou dualismos estranhos entre o “religioso” e “o profano”. A novidade de Jesus consiste em afirmar que existe só um caminho para encontrar a Deus e que não passa pelo Templo. Na religião, o determinante está no “sagrado”; no projeto de Jesus, o centro de tudo está no “humano”, na dignidade e felicidade das pessoas, na vida. Jesus não suprimiu o “sagrado”, mas o deslocou do religioso ao humano. Para Ele o sagrado é o ser humano como pessoa, com os demais seres humanos. Desse modo, supera-se definitivamente aquele dualismo e se reconhece a vida como lugar da Presença. Os templos não são fronteiras que dividem o sagrado e o profano; são espaços onde se vive a sacralidade de toda a vida. O verdadeiro “templo” é a vida, e vida destravada, aberta...
Ao “substituir” o Templo por seu Corpo, Jesus nos convida a viver o encontro com Deus no centro de nossa pessoa e da vida mesma. E Ele se torna referência para nos ajudar a ver o que é uma vida vivida desse modo: uma existência marcada pelo amor compassivo e pela alegria de uma vida plena.
Ali é onde vamos encontrar Deus com certeza; ali se enraíza o “segredo” do viver humano: no amor e na alegria intensa. As pessoas não serão mais ou menos santas porque vão rezar no templo; sua santidade se fará visível na vida cotidiana.
A superação do Templo significa recuperar o verdadeiro lugar da religião na vida cristã. Não no sentido de que é preciso deixá-la de lado (tanto a religião como o templo podem ser meios valiosos para muitas pessoas), mas no sentido de não absolutizá-la. A absolutização da religião provocou e provoca muita exclusão e sofrimento entre os humanos.
As religiões se fazem indigestas e sumamente perigosas quando pretendem apoderar-se do Absoluto.
Devemos fazer de nossas comunidades cristãs um espaço onde todos possam se sentir na “casa do Pai”; uma casa acolhedora e calorosa onde não se fecham as portas a ninguém, onde nenhum é excluído e nem se sente discriminado; uma casa onde aprende-se a escutar o sofrimento dos filhos mais desvalidos de Deus e não lugar de busca do próprio interesse e poder; uma casa onde pode-se invocar a Deus como Pai de todos, porque todos se sentem seus(suas) filhos(as) e buscam viver como irmãos(ãs).
Com seu gesto provocativo, Jesus põe abaixo todas as barreiras existentes: religiosas, sociais, culturais ... De maneira especial, Ele acaba com o predomínio do poder sagrado, que tanta divisão, submissão, marginalização e sofrimento causaram durante séculos aos seres humanos. Aqueles que acreditam em Jesus, seguindo suas pegadas, não iniciam uma nova religião com caráter sagrado, senão um novo estilo de vida, assimilando os principais critérios do Reinado de Deus, que Ele deixou nos evangelhos.
Jesus teve consciência que o poder religioso divide, discrimina, subordina e alimenta medo, enquanto o serviço e a solidariedade criam irmandade e igualdade. Jesus desencadeou um movimento que teve inicio nas periferias da Galiléia. Ele não foi sacerdote do Templo, consagrado a cuidar e promover uma religião; nem funcionário do Templo, nem ostentou cargo algum relacionado com a religião, nem foi um mestre da Lei, fechado em seu legalismo.
Jesus, como os profetas de Israel, não formou parte da estrutura política nem do sistema religioso. Não foi nomeado por nenhum poder. Sua autoridade não vinha da instituição, não se baseava nas tradições religiosas. Provinha de sua experiência de Deus, empenhado em conduzir seus filhos e filhas pelos caminhos da justiça.
Jesus fugiu de todo poder e se preocupou especialmente das pessoas marginalizadas. Não organizou nenhuma religião; pelo contrário, entrou em conflito com a religião judaica e suas instituições (sinagoga, Templo de Jerusalém, Lei). Cercou-se de pessoas, homens e mulheres, dispostas a continuar seu caminho anunciando a mensagem do Reino de Deus. Proclamou as bem-aventuranças, como projeto do reino de Deus. Denunciou as opressões e injustiças, tornando realidade a salvação do Deus pai e Mãe, através de suas curas.
Jesus superou as antigas divisões (sacerdotes ou laicos, judeus ou gentios, homens ou mulheres...) e a estrutura social dominante que geravam exclusão e violência. Não veio complicar a vida com mais exigências legais e cultuais, nem alimentar as “vantagens” de quem pretende se impor sobre os outros, na linha do poder ou do conhecimento, senão para romper esse esquema de valores e privilégios.
Esta é a sua novidade messiânica. Ele não nos impõe pesadas leis, não exige que cumpramos simplesmente alguns preceitos religiosos... Ao contrário, quer que todos vivamos e possamos desenvolver em plenitude nossas potencialidades. Jesus não veio para sancionar uma ordem existente, deixando cada um com sua exclusão, senão para oferecer a todos um caminho de humanização. Por isso tornou-se um transgressor: rompeu as fronteiras que foram traçadas pelos poderosos, abrindo um caminho de humanidade a partir de baixo, ao lado dos excluídos e dos últimos... Um transgressor consequente, a serviço da vida e dos mais pobres.
Assim foi Jesus. Assim devem viver seus seguidores.
Texto bíblico: Jo 2,13-22
Na oração: Muitas pessoas pensam que é somente no templo (capela, lugar santo e cerimônias sagradas) onde é possível fazer uma experiência de encontro com Deus. Se o Deus que é experimentado no templo não coincide com o Deus que move nossa vida nas casas, na convivência com os outros, no compromisso com os últimos..., então o templo e seu suposto “deus” não tem nada a ver com o Deus de Jesus, e a prática religiosa é vazia.
- O decisivo é o “templo interior”, com portas abertas a todas as pessoas que queiram se aproximar e entrar.
- Somos também o “novo templo”, morada do Espírito, presença que alarga nosso interior para que todos possam ali ter acesso.
- Quem são os “frequentadores” do seu “templo interior”?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
07.11.2025

“Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18,14)
No seu inspirado ensinamento, são impactantes os diferentes personagens que Jesus apresentou como modelos de vida e que eram, social e religiosamente, considerados “impuros” e “imperfeitos” entre os membros daquela comunidade judaica que resistia acolher a sua mensagem de amor e seu chamado libertador.
Por outro lado, Jesus denunciou com severidade as atitudes dos fariseus, porque eram exigentes, rigoristas, tradicionalistas, intolerantes, sentindo-se superiores aos demais. Não sentiam a necessidade de se converterem e de restabelecerem a fraternidade com aqueles que não eram de seu grupo.
Com frequência, pessoas assim são desumanas, pouco compassivas, aferram-se às suas opiniões e desprezam os outros. Sua autossuficiência lhes impede se reconhecerem como filhos de Deus e irmãos dos outros, porque Deus só pode ser reconhecido de verdade nos outros e através dos outros e, de uma maneira muito especial, no rosto dos mais oprimidos deste mundo.
A indiferença, o julgamento, a intolerância e a “imagem aureolada” de si mesmo que exige méritos, são sinais distintivos de um ego inflado em seu modo de se situar na vida e na religião. O ego é incapaz de compaixão e de empatia: vive fechado em sua couraça de necessidades e de medos, empenhando-se por conseguir uma existência agradável para si, à margem de qualquer outro critério. E a religião tem sido um campo fértil para a manifestação das mazelas de um ego prepotente, julgador, rigorista, vazio de vida.
A parábola contada por Jesus revela que o fariseu é um observante escrupuloso da lei e um praticante fiel de sua religião. Sente-se seguro no templo. Ora de pé e com a cabeça erguida. Sua oração é autocentrada: uma oração de louvor e ação de graças a Deus, mas não lhe dá graças por Sua grandeza, Sua bondade ou misericórdia, mas pela própria grandeza e por aquilo que realiza.
Ele pensa que pode “ficar de pé” diante de Deus, que pode estabelecer o confronto sem problemas, como de igual para igual. O fariseu não suplica a Deus e nem tem necessidade de ouví-Lo; já eliminou as distâncias com as suas palavras e se ilude de ter uma linha direta com o Altíssimo.
Em 2º lugar, o fariseu despreza os outros. Como ele se considera perfeito e não vê nenhuma falha em si mesmo, considera-se superior aos outros. Ao mesmo tempo que se autoelogia, critica e despreza os outros. De fato, não descobre nenhum projeto divino sobre si, basta-lhe saber que é melhor que todos.
Na realidade, de acordo com o evangelho deste domingo, a oração é o lugar privilegiado onde cada pessoa deixa transparecer sua identidade; a oração é reveladora de quem é o ser humano. Observamos uma falsidade na oração do fariseu. Mais que orar, este homem se contempla a si mesmo. Narra sua própria história cheia de méritos. Necessita sentir-se com créditos diante de Deus e exibir-se como superior aos outros.
Na verdade, este homem não sabe o que é orar. Não reconhece a grandeza misteriosa de Deus nem confessa sua própria pequenez. Busca a Deus para enumerar diante d’Ele suas “boas obras” e despreza os outros: isso é próprio dos perfeccionistas e legalistas. Por detrás de sua aparente piedade se esconde uma oração “ateia”. Este homem não precisa de Deus, não lhe pede nada; na sua soberba, basta-se a si mesmo.
Em sua oração, o fariseu aparece centrado em si mesmo, naquilo que faz. Sabe o que ele não é: ladrão, injusto ou adúltero; nem tampouco é como o publicano, mas não sabe quem é ele na realidade. A parábola nos leva a reconhecer quem de fato ele é, precisamente não pelo que faz (jejuar, pagar o dízimo...), mas pelo que deixa de fazer (relacionar-se bem com os outros).
A oração do publicano, no entanto, é muito diferente. Sabe que sua presença no templo é malvista por todos. Seu ofício de cobrador de impostos é odiado e desprezado. Não se desculpa; reconhece que é pecador. Suas batidas no peito e as poucas palavras que sussurra já dizem tudo: “Meu Deus, tem compaixão de mim que sou pecador!”.
Este homem sabe que não pode vangloriar-se. Não tem nada que oferecer a Deus, mas sim muito que receber d’Ele: seu perdão e sua misericórdia. Em sua oração há autenticidade. Este homem é pecador, mas está no caminho da verdade.
O fariseu não se encontra com Deus, mas com seu ego inflado. O publicano, pelo contrário, encontra a atitude correta diante de Deus: a atitude daquele que não tem nada e necessita tudo. Não se detém sequer a confessar com detalhe suas culpas. Reconhece-se pecador. Dessa consciência brota sua oração: “Tem compaixão deste pecador!”. Por estar longe de sua própria verdade, o fariseu não pode viver a prazerosa gratuidade – está esperando uma recompensa – e cai no desprezo do outro. Pelo contrário, o publicano apoia-se na verdade sobre si mesmo; e é a verdade que o salva e o reconcilia.
Jesus era um profundo conhecedor da condição humana; sabia que a pessoa consciente das suas imperfeições é mais disponível para acolher o anúncio do Reino. Sabemos que as escolhas de Jesus não caíram sobre os chamados “perfeitos”. As pessoas com quem Ele entrou em contato não eram conhecidas por suas boas maneiras nem por práticas religiosas; antes, eram pecadoras públicas.
A parábola narrada por Jesus tem força para desmascarar atitudes egóicas e que nos distanciam dos outros e do próprio Deus. Por “delicadeza”, ou para satisfazer os outros, ou por viver dependente da autoimagem aureolada, ou alimentar a perfeição..., podemos perder a vida, nossa vida tão bela, tão frágil e efêmera.
Somente quando integrarmos e nos reconciliarmos com os aspectos de nós mesmos que tínhamos negado ou até rejeitado, poderemos alcançar a paz e a harmonia estáveis. Portanto, nosso esforço não consiste em sermos “perfeitos”, mas “completos”. Na medida em que somos mais “completos”, porque acolhemos de maneira integral toda a nossa verdade, vamos nos tornando mais compassivos e humanos.
O que Deus quer de nós não pode ser conhecido por meio da busca da perfeição e das altas exigências que estabelecemos para nós mesmos. Pois é nisso que justamente se manifesta a nossa ambição. Queremos alcançar altos ideais para darmos a impressão de estar bem diante dos outros e, também, diante de Deus.
É esse modelo de perfeição que gerou demasiado sofrimento inútil, causando verdadeiros estragos na vivência do seguimento de Jesus. Gostaríamos de ser pessoas fortes, perfeitas, ascetas virtuosos; sonhamos ser onipotentes, “feitos para vencer” ... Na realidade, estamos mais preocupados com a própria glória, poder e perfeição que com a glória de Deus.
E aqui nos deparamos com uma das práticas mais comuns e universais do ser humano: a justificação. Buscar continuamente argumentos para esconder nossas fragilidades e incoerências. Somos peritos em alimentar um “fariseu” dentro de nós, com a lei na mão e rigidez no coração.
Elaboramos discursos e mais discursos para nos autoconvencer e convencer os outros daquilo que julgamos que somos. Tanto esforço para nada. Impossível cobrir a verdade tão simples como evidente daquilo que, na realidade, somos: “pobres pecadores(as)”.
O “fariseu”, que todos hospedamos em nosso interior, realiza seu trabalho em silêncio, mas com uma eficácia impressionante: torna o nosso coração impermeável à experiência divina e petrifica nossa compaixão na relação com os outros.
O publicano, por outro lado, nos revela que basta redescobrir o caminho da humildade (do húmus), bem no fundo de nós mesmos: este é o lugar da oração. E quanto mais baixo for o ponto de partida, tanto mais alta ela vai subir... A salvação que esperamos não é fruto de nosso esforço e penitências, de nossa prática legal e de nossas virtudes perfeitas. Ela é puro dom de Deus, divino presente de seu coração de Pai. Só nos resta acolhê-la em atitude de humilde gratidão.
Texto bíblico: Lc 18,9-14
Na oração: A humildade é a coragem de acolher a verdade sobre si mesmo; ela é o caminho para Deus; ela é a resposta para a experiência de Deus; ela é o lugar onde nós podemos ir ao encontro do Deus verdadeiro. A humildade é acolher as próprias fragilidades e alargar o espaço interior para que o Infinito possa atuar livremente nas “fendas” de nossa existência.
- Trazer à memória os possíveis sintomas da presença do “fariseu” em sua relação com os outros: rigidez, julgamento, legalismo, perfeccionismo, indiferença, religiosidade autocentrada...
Pe. Adroaldo Palaoro sj
23.10.2025
imagem: James Tissot

“Faze-me justiça contra o meu adversário!” (Lc 18,3)
A parábola da viúva e do juiz sem escrúpulos é, como tantas outras, um relato aberto, provocativo e que pode despertar nos ouvintes diferentes ressonâncias. Segundo Lucas, trata-se de um chamado a orar sem desistir, mas é também um convite a confiar no Deus que fará justiça àqueles que lhe clamam dia e noite.
Que ressonâncias pode ter hoje em nós este relato dramático de uma viúva e que nos recorda tantas vítimas abandonadas injustamente à sua sorte?
O evangelista Lucas, ao narrar esta breve parábola, nos indica a intenção de Jesus ao falar para os seus discípulos sobre “a necessidade de orar sempre, e nunca desistir”. Este tema é muito frequente em Lucas e, em várias ocasiões, repete a mesma ideia. Como é natural, a parábola foi lida quase sempre como um convite a cuidar da perseverança de nossa oração na relação com Deus.
No entanto, se observarmos o conteúdo do relato e a conclusão do mesmo Jesus, vemos que a chave da parábola é a sede de justiça. Até quatro vezes se repete a expressão “fazer justiça”.
Mais que modelo de oração, a viúva do relato é exemplo admirável de luta pela justiça em meio a uma sociedade corrupta que abusa dos mais fracos.
O primeiro personagem da parábola é um juiz que “não temia a Deus, e não respeitava homem algum”. É a encarnação exata da corrupção que os profetas denunciaram repetidamente: os poderosos não temem a justiça de Deus e não respeitam a dignidade nem os direitos dos pobres. Não são casos isolados. Os profetas sempre desmascararam o sistema judicial em Israel e a estrutura machista daquela sociedade patriarcal.
Ao dizer-nos que este juiz não se importava nem com Deus nem com os homens, está dando destaque à índole dele: uma pessoa terrível, sem princípios, à margem de toda lei e à margem de todos.
O segundo personagem é uma viúva indefesa em meio a uma sociedade injusta. Por uma parte, vive sofrendo os atropelos de um “adversário” mais poderoso que ela. Por outra, é vítima de um juiz que não se importa em absoluto com a pessoa da pobre viúva e nem com o seu sofrimento. Assim vivem milhões de mulheres em todos os tempos e em todos os lugares.
As viúvas eram, nos tempos de Jesus, juntamente com os órfãos e estrangeiros, a expressão da máxima pobreza e vulnerabilidade, pois viviam sozinhas e desamparadas, não tinha ninguém para protegê-las e ampará-las, e muitos, sem escrúpulos, costumavam abusá-las. Marginalizadas, não tinham maridos e nem filhos para defendê-las; não contavam com apoios governamentais ou da religião. Só tinham adversários que as exploravam. Já os antigos profetas tinham chamado a atenção sobre este drama humano.
À pobre mulher do evangelho deste domingo só lhe restava a voz para clamar por justiça a um juiz sem religião e sem sentimento humano; finalmente ele cede e lhe concede justiça, não por compromisso ético, mas para que a viúva o deixasse em paz.
O que a mulher lhe suplica não é um capricho pessoal. Só reclama justiça. Este é seu protesto, repetido com firmeza diante do juiz: “faze-me justiça!”. Sua petição é a de todos os oprimidos injustamente. Um grito que está na linha daquilo que Jesus dizia aos seus discípulos: “Buscai o Reino de Deus e sua justiça!”.
Na parábola, Jesus nos surpreende a todos pelo fato de um juiz injusto fazer justiça à pobre viúva. Evidentemente este juiz não é imagem de Deus. Não temos de “ganhar” o coração de Deus através da força da insistência. Essa imagem está muito longe do “Abbá” que Jesus nos revela como Boa Notícia.
No entanto, Jesus marca a distância entre o que diz e faz o juiz injusto e o modo de atuar de Deus Pai.
Deus é justiça e está sempre pronto a fazê-la valer. Na visão bíblica, Deus é justo porque Ele é bom; na essência, a justiça é a bondade de Deus para com todos os seus filhos e filhas. Aqui estamos bem longe da justiça jurídica, própria dos tribunais humanos.
Diante da tentação que nos leva a pensar que Deus é um juiz que não atende a todos, Jesus nos convida a mudar nossa visão e descobrir a verdadeira essência de Deus, a descobrir que, muitas vezes, a justiça que Deus quer realizar fica travada pelo nosso comportamento injusto, pois, muitas vezes, nos tornamos um obstáculo à justiça de Deus.
Suplicar sem desfalecer e com fé é abrir-nos à justiça de Deus para descobrir nossa responsabilidade e a parte que nos toca viver naquilo que estamos pedindo. A súplica é mobilizadora e desperta nossos melhores recursos para buscar aquilo que tanto desejamos. Não basta insistir, pedindo a Deus que conceda a paz e a justiça em nosso mundo; somos nós, ali onde estamos e com todas as nossas possibilidades, construtores de paz e de justiça; paz e justiça que o Espírito do Senhor infunde em nossos corações. Construir o Reino é trabalhar no fluxo da justiça de Deus. A graça de Deus vem ao encontro de nossos desejos e os tornam oblativos, operativos...
Na conclusão da parábola, Jesus não fala da oração. Antes de mais nada, pede confiança na justiça de Deus. “Não fará Deus justiça a seus eleitos que lhe gritam dia e noite?” Estes eleitos não são os membros de uma determinada religião, mas os pobres de todos os povos que clamam pedindo justiça. Deles é o Reino de Deus.
Finalmente, Jesus lança uma pergunta que é um grande desafio para todos nós, seus seguidores e seguidoras: “Mas o Filho do Homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” Ele não está pensando na fé como adesão doutrinal, mas na fé que se sensibiliza diante da atuação da viúva, modelo de indignação, resistência ativa e coragem para reclamar justiça aos corruptos de plantão.
Por que nossa comunicação com Deus não nos faz escutar o clamor daqueles que sofrem injustamente e nos gritam de mil formas: “faze-nos justiça?”. Se, ao orar, nos encontramos de verdade com Deus, como não somos capazes de escutar com mais força as exigências de justiça que chegam até seu coração de Pai?
Nesse sentido, a nossa oração de seguidores de Jesus só é “eficaz” quando nos faz viver com fé e confiança no Pai e em atitude solidária com os irmãos. A oração é “eficaz” porque aumenta nossa fé e nos faz mais humanos; abre nossos ouvidos do coração para escutar a Deus com mais sinceridade, vai purificando nossos critérios e nossa conduta daquilo que nos impede ser mais fraternos. Ela sustenta nosso viver cotidiano, reanima nossa esperança, fortalece nossa fragilidade, alivia nosso cansaço.
Aquele que aprende a dialogar com Deus e a invocá-Lo “sem nunca desistir”, vai descobrindo onde está a verdadeira eficácia da oração e para quê “serve” rezar. Simplesmente para viver com mais sentido, inspiração e compromisso. Oração sem presença solidária é vazia.
Jesus sempre deixa transparecer a imagem de um Deus desprovido de dogmatismos, um Deus desprovido também de controle e arbitrariedade. O Deus de Jesus não é um juiz com um catálogo de leis que tem necessidade de mandar, controlar, verificar... Basta-lhe a misericórdia, a compaixão...
A misericórdia de Deus constitui a resposta à indigência e ao clamor do ser humano. Ela oferece a possibilidade de pôr de lado o julgamento e a condenação. O passado de erros e fracassos é substituído pelo presente de aceitação e perdão.
Onde não há misericórdia, não há sequer esperança para o ser humano.
Existem “viúvas” que clamam dentro de nós. Enquanto o Reino de Deus estiver no nosso meio, o “juiz interior” não terá nenhuma chance, estaremos sãos e salvos, livres dos seus juízos, de suas expectativas e exigências, de suas acusações e sentenças. Nesse espaço ninguém poderá nos ferir, nenhum inimigo terá acesso, seja ele interior ou exterior.
Texto bíblico: Lc 18,1-8
Na oração: A parábola deste domingo nos interpela a todos: continuaremos alimentando nossas devoções privadas, nossas mortificações estéreis, nossas penitências vazias, esquecendo aqueles que vivem sofrendo injustiças? Continuaremos orando a Deus para pô-lo a serviço de nossos interesses, sem que nos importemos com as injustiças que há no mundo?
- “Tomar consciência” dos momentos em que o seu “juiz interior” emitiu seus “pareceres de morte”, seja na relação consigo mesmo ou com os outros.
Pe. Adroaldo Palaoro sj

“A mãe de Jesus estava presente” (Jo 2,1)
Celebramos, neste domingo, a festa da Padroeira do Brasil: Virgem Maria da Conceição Aparecida.
A liturgia da Igreja no Brasil nos propõe, para esta festa, o relato joanino do “casamento em Caná”, onde Maria “estava presente”: presença inspirada que fez a diferença; presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de uma mãe; presença expansiva que mobilizou os outros, assim como mobilizou seu Filho a antecipar sua “hora”.
A “boda em Caná” é o ícone evangélico que melhor revela a situação atual da Igreja e do cristianismo. Por todos os lados pede-se renovação e em muitos lugares surgem experiências ousadas e renovadoras. É o frescor de uma espiritualidade que abre passagem entre os caminhos quase desertos de uma religião em agonia. É o vinho novo que se faz presente para brindarmos o amor e celebrar a vida.
No entanto, insistimos em pôr vinho novo em odres velhos. Esse é o drama da Igreja: aferrada aos odres da doutrina e suas obsoletas estruturas, não sabe aproveitar nem desfrutar do vinho novo. Com frequência, não sabe o que fazer com este vinho novo e o desperdiça.
Precisamos de odres novos para este vinho espumante e gracioso, um vinho cheio de vida e de sabor, um vinho encorpado e robusto, um vinho com tanta força que vai rompendo sem piedade os odres desgastados e rachados. É o vinho novo que exige reformular a vida cristã e a Igreja.
Segundo o evangelista João, Jesus realizou “sinais” para dar a conhecer o mistério de sua pessoa e para convidar os seus seguidores e seguidoras a acolherem a força salvadora que Ele trazia consigo.
Qual foi o primeiro “sinal”? O que primeiramente devemos encontrar em Jesus?
O evangelista fala de uma “boda em Caná da Galiléia”, uma pequena aldeia de montanha, a 15 km de Nazaré. No entanto, a cena tem um caráter claramente simbólico. Nem a esposa ou o esposo tem rosto: não falam, nem atuam. O mais importante é um “convidado” especial que se chama Jesus.
Na Galiléia, as festas de casamento eram as mais esperadas e desejadas entre os camponeses. Durante vários dias, familiares e amigos acompanhavam os noivos, comendo e bebendo com eles, bailando danças de casamento e cantando canções de amor.
O vinho era indispensável em um casamento. Para aquelas pessoas, o vinho era o símbolo mais expressivo do amor e da alegria. Já dizia a tradição judaica: “o vinho alegra o coração”. A noiva cantava para seu amado um lindo canto de amor: “Teus amores são melhores que o vinho”.
O início do relato joanino apresenta Jesus sendo apenas um convidado; como anônimo, Ele vem de fora, não pertence por si mesmo ao espaço do casamento. Ele e seus discípulos parecem formar um mundo à parte, estão como que de passagem. Logicamente, não se preocupam com as questões da organização da festa, ao menos no primeiro momento. Esta é a surpresa da cena: Jesus vem como por casualidade e, no entanto, logo atua como responsável verdadeiro diante das velhas e das novas “bodas” da terra.
Neste contexto, tornam-se centrais as relações entre a mãe (que é sinal da humanidade anterior, ou seja, do judaísmo da lei, da esperança messiânica) e Jesus (que será o iniciador das novas bodas do Vinho do Reino).
A mãe é a mulher que introduz a nova páscoa de Jesus. Ela marca a diferença entre as antigas e as novas bodas, a passagem da água ao vinho. É a mulher de dois mundos, dois tempos, duas bodas.
Parece que ninguém tinha descoberto a carência de vinho. Só a Mãe de Jesus notou a falta e se moveu a buscar uma solução para um problema que parecia sem saída.
De imediato, a mãe de Jesus lhe avisou: “eles não têm mais vinho”. Como vão continuar cantando e bailando? Que significa um casamento sem alegria e sem amor? O que se pode celebrar com o coração triste e vazio de amor?
No pátio da casa havia “seis talhas de pedra”. Eram enormes. Estavam colocadas ali, de maneira fixa. Nelas se guardava a água para as purificações. Representavam a piedade religiosa daqueles camponeses que procuravam viver “puros” diante de Deus.
A Mãe de Jesus é, por um lado, uma mulher do mundo antigo: pertence ao espaço das velhas bodas; conhece e compartilha por dentro os problemas e preocupações dos homens e mulheres que não conseguem saborear o verdadeiro matrimônio da vida. Ela se encontra no lugar onde a alegria deveria se manifestar: não é luto de morte, mas fonte de vinho, isto é, de esperança criadora, de Bodas de Deus. É mulher da vida prazerosa: está a serviço gratuito da festa. Seu desejo verdadeiro é o banquete (quer que os homens e mulheres bebam, dancem, vivam), não o ritual das purificações e abluções.
Nesse sentido, a Mãe de Jesus é mulher do mundo novo, mulher de bodas: ela sabe que há um vinho de “bodas” diferentes, sabe que já chegou quem pode proporcioná-lo. Por isso, ela não se contém: a impaci-ência do novo Reino de Deus pulsa no centro de sua vida e procura expressá-la.
Assim, aproxima-se e diz a Jesus, de maneira sóbria e reverente: “eles não têm mais vinho!”.
Jesus que, num primeiro momento, parecia ter-se distanciado de sua mãe (“Mulher, porque dizes isto a mim?”), cumpre logo, de maneira diferente e por sua própria vontade, o que ela lhe pediu; e faz isso de maneira transbordante, muito mais que aquilo que ela lhe pedira. Oferece vinho abundante e de excelente qualidade aos convidados das “bodas”. Dessa forma realiza e transborda o desejo mais profundo de Maria.
Sua intervenção vai introduzir amor e alegria naquela religião. Este é seu primeiro “sinal”.
O evangelho indicado para este domingo nos revela esta grande notícia: Deus se manifesta em todos os acontecimentos que nos convidam a viver com mais sentido e prazer. Deus não quer que renunciemos a nada do que é verdadeiramente humano; Ele quer que vivamos o divino naquilo que é cotidiano e normal. A ideia do sofrimento e da mortificação como exigência divina é ante evangélica.
A mensagem para nós hoje é muito simples, mas demolidor. Nem ritos, nem abluções podem purificar o ser humano. Só quando ele saboreia o vinho-amor, no encontro e na comunhão com o outro, ficará ele todo limpo e purificado. Quando descobrirmos Deus dentro de nós e nos outros, seremos capazes de viver a imensa alegria que nasce da unidade-amor. Que ninguém nos engane: o melhor vinho está sem estourar, escondido na adega de nosso interior.
“Eles não têm mais vinho!”
Esta é uma das expressões mais fortes do NT e do conjunto da Bíblia. Em primeiro lugar, ela é proferida pela Mãe ao seu Filho, mas logo podemos e devemos aplicá-la a diferentes situações de nossa vida. São palavras que, quando escutadas, têm profundas ressonâncias em nós, sobretudo quando estamos comprome-tidos na nobre missão de “despertar o sabor da vida”.
Precisamente ali onde podemos nos sentir satisfeitos, ali onde pensamos que as coisas se encontram já resol-vidas, tudo em ordem, se eleva com mais força a voz da Mãe de Jesus dizendo: “Eles não têm mais liberda-de, estão cativos!” “Não têm mais saúde, estão enfermos!” “Não tem mais pão, estão famintos!” Não tem mais família, estão abandonados!” “Não tem paz, encontram-se deprimidos, em guerras sem fim!” ...
Já não podemos mais responder como Jesus em um primeiro momento: “que importa a mim e a ti? Não é nossa hora!” Sabemos que, em Jesus e por Jesus, chegou a hora da Mãe que nos mostra as necessidades de seus filhos, os humanos sofredores. Sobre um mundo onde falta o vinho das bodas da liberdade/amor/justiça, sobre um mundo que sofre a opressão e o forte vazio da vida, sobre um mundo onde continua acontecendo guer-ras, ódios, intolerâncias..., a voz da Mãe de Jesus ressoa como uma recordação ativa das necessidades das pesso-as; por isso, é princípio de forte compromisso.
Texto bíblico: Jo 2,1-11
Na oração: Como podemos pretender seguir a Jesus sem cuidar mais da alegria e do amor entre nós? O que pode ser mais importante que isto na Igreja e no mundo? Até quando poderemos conservar em “talhas de pedra” uma fé triste e enfadonha? Para que servem nossos esforços, se não somos capazes de introduzir amor e alegria em nossa religião?
Nada pode ser mais triste do que dizer de uma comunidade cristã: “eles não têm mais vinho!”.
- Sua presença na comunidade cristã desperta o sabor do bom vinho da vida e da amizade?
Pe. Adroaldo Palaro sj
10.10.2025

“Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas” (Lc 16,9)
A parábola do evangelho deste domingo não pretende se referir em absoluto à corrupção e ao roubo, mas ela está centrada numa questão radical: “Os filhos das trevas são mais astutos que os filhos da luz”.
Jesus, na parábola, não louva o mal administrador por sua péssima administração e roubos. O que Jesus quer destacar é sua “inteligência” e “esperteza” para garantir seu futuro, a astúcia com que atua para atrair a benevolência dos credores de seu amo.
Não devemos imitá-lo na sua injustiça, mas na sua previdência. O administrador infiel é um filho deste mundo; deixa-se guiar pelo cuidado de sua existência terrena. Com esperteza, com decisão e sem escrúpulos, aproveita o que lhe pode proporcionar vantagem para garantir sua vida futura.
E é aqui onde encontramos a chave de compreensão do relato: como “filhos da luz” precisamos agir de um modo inteligente e com esperteza, utilizando todos os recursos em favor da vida.
Jesus reconhece a astúcia dos “filhos deste mundo” utilizada para cometer delitos, enganar, roubar ou levar uma vida corrupta; para aqueles que o seguem, Jesus revela a necessidade de serem astutos para fazer o bem e lutar pela justiça; quer que os “filhos da luz” sejam astutos positivamente: estejam atentos, sejam hábeis e permaneçam despertos diante dos mecanismos do mal e usem da criatividade para o bem do Reino.
O administrador astuto, quando foi denunciado por desvios dos bens do patrão, agiu pensando exclusivamente nele, procurando abrir para si um caminho no futuro imediato, para continuar fazer o que sempre fazia: roubar.
Quando o dinheiro se converte no “deus” a quem adorar, o ser humano se deprecia: direitos humanos em liquidação, a educação, a saúde, a moradia..., tudo é deixado de lado.
O dinheiro, como meio, tem sua importância, mas é preciso estar atento aos sinais de alerta antes de atravessar essa sutil fronteira que leva à ambição, à cobiça e à avareza, até transformar a pessoa num ser que já não sabe valorizar o que acontece por dentro, sente-se diferente e distante do resto da humanidade.
Em cada um de nós convivem a luz e as trevas. A parábola deste domingo parece conter uma profunda ironia, ao confrontar-nos conosco mesmo e perguntar-nos de que maneira procedemos nos assuntos que concernem às “trevas” (ego) e naqueles que potencializam a luz que somos.
A experiência nos diz que quando é nosso ego que toma iniciativa, ele ativa meios, recursos, táticas, estratagemas..., com a finalidade de sobressair vaidoso e assegurar sua sobrevivência (como faz o empregado da parábola, que representa, justamente, o nosso próprio ego e seu mundo de interesses).
O que ocorre com a luz, que é a nossa verdadeira identidade? Que fazemos com o melhor de nós mesmos? Se investíssemos tanta motivação e tantos meios para que nossa verdadeira identidade se manifestasse e deixasse sua marca, nosso mundo seria bem diferente.
A parábola e as sentenças de Jesus trazem à tona a questão da riqueza no caminho espiritual, com um destaque fundamental: diante do risco de absolutizá-la (endeusá-la), requer-se lucidez (astúcia) para usá-la como instrumento a serviço da vida.
“Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Estas palavras de Jesus não podem ser esquecidas nestes momentos por nós que nos sentimos seus seguidores, pois contém a advertência mais grave que Jesus deixou à sua comunidade. O dinheiro, convertido em ídolo absoluto, é o grande inimigo que impede a construção de um mundo mais justo e fraterno, querido por Deus.
Infelizmente, a riqueza se converteu, no nosso mundo globalizado, em um ídolo de imenso poder que, para sobreviver, exige cada vez mais vítimas, desumaniza e empobrece cada vez mais a história humana; assim nos encontramos enredados por uma crise gerada, em grande parte, pela ânsia de acumular.
Praticamente tudo se organiza, se move e se dinamiza a partir dessa lógica: buscar mais produtividade, mais consumo, mais bem-estar, mais prestígio, mais poder sobre os outros... Esta lógica é destruidora; se não a estancarmos, pode colocar em perigo o ser humano e destruir a Casa comum.
Jesus nos alerta que, a primeira coisa a fazer, é tomar consciência daquilo que está acontecendo. Esta não é só uma crise econômica. O apego aos “bens” apresenta-se como uma das tentações mais poderosas para todo seguidor de Jesus. A busca da própria segurança é a base da tentação pelo dinheiro.
De fato, nossa relação com o dinheiro nunca é mera e exclusivamente funcional, econômica, monetária, de valor de troca. Sempre há um “algo mais” em nossa vinculação com ele.
Provavelmente, poucas relações com o mundo material de objetos estão tão “carregadas” afetivamente como esta do dinheiro. A atração, o apego, a dificuldade para desprender-nos dele... e, muitas vezes, uma forte ambivalência, ou seja, uma polaridade de sentimentos e afetos contrários em relação com esse objeto que progressivamente vai se fazendo tão determinante em nossa existência. Compreender as vinculações íntimas que todos mantemos na relação com o dinheiro nos ajudará a compreender, sem dúvida, a lógica perversa que pode ser desencadeada na relação conosco, com o outro e com a criação.
Nos relatos do Evangelho, o “dinheiro” é designado pelo termo “mamón”, que só aparece quatro vezes no Novo Testamento e sempre na boca de Jesus. Trata-se de um termo que provém da raiz aramaica “aman” e significa qualquer riqueza sobre a qual o indivíduo apoia sua existência.
Além de uma evidente e fundamental função de valor de troca que possui, são múltiplas e variadas as significações que o dinheiro pode chegar a desempenhar para cada um: meio com o qual ganhar afeto, um suporte de prestígio e segurança pessoal ou um instrumento poderosíssimo de poder sobre os demais, um meio de defesa e inclusive de ataque sobre os outros, um acréscimo de valia pessoal, tendências perversas de exibição e ostentação frente os outros, corrupção...
“Usai o dinheiro injusto para fazer amigos”: é um apelo a investir tudo o que temos a serviço daquilo que vale verdadeiramente: nosso verdadeiro ser, alimentar comunhão com os outros, viver a partilha...
Utilizamos com sabedoria o “dinheiro injusto”, quando compartilhamos com aquele que passa necessidade.
Nunca poderemos atuar como donos absolutos daquilo que possuímos. Somos simples administradores. A única coisa que se conserva é a que é partilhada. O que não se partilha, se perde.
No fundo, Jesus nos quer dizer assim: “Empregai vossa riqueza injusta para ajudar os pobres; ganhai sua amizade compartilhando com eles vossos bens. Eles serão vossos amigos e, quando na hora da morte o dinheiro já não sirva para mais nada, eles os acolherão na casa do Pai”.
Dito com outras palavras: a melhor forma de “lavar” o dinheiro injusto diante de Deus é dividi-lo com seus filhos mais pobres.
Traço característico, que define a qualidade de vida de uma pessoa que segue Jesus Cristo, é a simplicidade de vida, entendida no sentido de um nível econômico simples e despojado.
- Como testemunhar que se pode ser feliz vivendo uma cultura da gratuidade, da moderação, da solidariedade, possibilitando uma partilha dos bens de maneira mais igualitária e justa para todos os seres humanos e que favoreça melhores condições de realização humana?
- A quem sirvo? Quem é o “senhor” que comanda o meu coração?
Deus pôs em minhas mãos tantos dons, tantas possibilidades... E que estou eu fazendo com tanta “riqueza” que o Senhor me confiou? Sou um(a) administrador(a) fiel e solícito(a), ou vou desperdiçando pela vida os “bens” (talentos e oportunidades) que o Senhor me deu e continua me cumulando?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
20.09.2025

“Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo”
Celebramos, neste domingo, a festa da “Exaltação da Santa Cruz”. Não exaltamos o sofrimento, a mortificação, as cruzes de cada dia... Nela mesma, a Cruz não tem sentido (instrumento de tortura), mas o que aconteceu nela: a fidelidade e a entrega radical de uma Vida em solidariedade com todos os crucificados da história.
Assim, à luz do Crucificado, vemos a Cruz como fonte de vida em um mundo de morte. A Cruz tem suas raízes no deserto em um momento de morte e como sinalo de vida (1ª. leitura). Agora, a Cruz é reveladora do Amor com que Deus ama o mundo e fonte de vida para que “todo o que n’Ele crer, tenha a vida eterna”.
No rosto desfigurado do Crucificado revela-se um Deus surpreendente, que rompe nossas imagens convencionais d’Ele e põe em questão toda prática religiosa que pretenda prestar culto a Ele, esquecendo o drama de um mundo que continua crucificando os mais indefesos e inocentes. Se Deus morreu identificado com as vítimas da maldade humana, sua crucifixão se apresenta como um desafio inquietante para os seguidores de Jesus. Não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes; Ele sofre nos seus filhos e filhas.
Deus não está de acordo com a Cruz, mas está a favor do Crucificado. Na Cruz de Jesus se revela, ao mesmo tempo, o que Deus não quer (o sofrimento das vítimas) e o que Deus quer: a vida e a felicidade para todos, o entendimento e a reconciliação entre as pessoas e os povos, o trabalho por um mundo mais justo, no qual seja possível a vida para todos os filhos e filhas d’Ele.
Na vida e missão de Jesus encontramos duas paixões: a primeira, foi a paixão pela vida, pelo Reino, pelo compromisso em favor dos mais pobres e excluídos. Esta paixão foi expressão de uma opção, assumida fielmente por Ele até o fim. A segunda paixão foi a da cruz (patíbulo), imposta pelos poderes religiosos e civis. Ela não foi fruto da opção de Jesus e nem fazia parte da vontade do Pai. Ela é a visibilização da violência, do ódio, do fechamento frente à proposta de vida revelada pelo mesmo Jesus.
Sabemos que a cruz só tem sentido quando é consequência de uma opção autêntica em favor da vida ou de uma verdade assumida: por exemplo, se sofremos por levar adiante uma causa justa, por defender pessoas, por evitar um mal ou denunciar uma injustiça... Jesus não morreu na cruz para buscar o sofrimento, mas por ser fiel até o final à sua mensagem: o amor incondicional ao Pai e o compromisso com os excluídos.
No grego, “cruz” é “staurós” e tem dois significados: de um lado, é patíbulo, instrumento de tortura imposta pelos romanos aos rebeldes do império; de outro, significa prontidão, estar preparado, mobilizado, firme, sólido, estar de pé, ser fiel até o fim... Jesus não buscou a cruz do sofrimento, o patíbulo, a morte violenta... Ele buscou a cruz da fidelidade, da vida comprometida. Nesse sentido, a “staurós-cruz” é vida aberta, expansiva, oblativa, vida descentrada em favor dos outros. Ela não foi um evento, mas um modo de viver, pois perpassou toda a vida de Jesus.
“Cruz-staurós” foi vivida a partir de uma causa: o Reino.
Nesse sentido, a cruz de Jesus não foi um “peso morto” a ser suportado; ela foi consequência de uma opção radical em favor da vida; a cruz não significou passividade e resignação, pois ela brotou de uma vida plena e transbordante. Nesse sentido, a cruz resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida vivida na fidelidade ao Pai, que quer que todos vivam intensamente.
A cruz, desligada de uma vida comprometida, não tem sentido; ela é salvífica quando é assumida e vivida em favor dos demais. Nunca é sofrimento buscado, como se Deus necessitasse de nossa dor para nos redimir. A Cruz liberta quando não acaba na cruz, mas na ressurreição. Enquanto a carregamos, ela se torna leve se temos diante de nós um horizonte de esperança. “Vinde a mim todos vós que estais fatigados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11,28-30). Infelizmente, a história da espiritualidade cristã confundiu “cruz-patíbulo” com “cruz-fidelidade” e acabou gerando uma espiritualidade do sofrimento, da mortificação, da renúncia... como se isso fosse agradável a Deus. A Paixão e Morte de Jesus foi “desconectada” de sua vida comprometida em favor dos pobres e sofredores, dando a impressão que só a “paixão de Jesus” é salvífica. Toda a vida de Jesus é salvação porque é vida que destrava vidas e abre para elas um novo sentido.
Com isso, privilegiou-se a “cruz da dor” desligada da “cruz da vida”, do compromisso com o Reino. Tal concepção desembocou numa vivência cristã intimista, farisaica, alienada, descompromissada...
Sabemos que o(a) seguidor(a) de Jesus quando vive a fidelidade à “cruz-staurós”, por causa do Reino, pode encontrar a perseguição, oposição e morte, como o próprio Jesus (a cruz patíbulo). Mas Jesus também acolheu e integrou a “cruz patíbulo”, dando um sentido a ela e revelando sua máxima solidariedade com todos os crucificados da história. Por isso, na Cruz assumida o Crucificado se fez amigo dos crucificados.
A Cruz assumida por Jesus manifestou-se “expansiva” porque foi expressão de uma vida entregue; ao mesmo tempo, ela O projetou para a “margem” onde Ele revelou uma presença despojada, vulnerável, que se identificou com a dor do mundo, com a marginalização dos excluídos e com a desgraça de todos os miseráveis da terra. Sua Cruz manifestou que Deus é Compaixão porque continua do lado do inocente sofredor; Deus não apenas se solidariza, mas sofre “em sua pele” a dor de seus filhos e filhas.
Existem cruzes que são vazias, sem sentido, insensatas..., pois elas fecham a pessoa em si mesma, no seu sofrimento e angústia; não apontam para o futuro, para a vida.
São cruzes que nós mesmos colocamos sobre nossos ombros ou que os outros nos impuseram. São cruzes que nascem dos fracassos, dos traumas, das rejeições, das experiências frustrantes... Tornam-se um “peso morto” pois não abrem um horizonte de vida; elas nos fixam no passado, na morte... e nos deixam no túmulo. Fazer o caminho contemplativo junto a Jesus, que leva a Cruz da fidelidade, nos ajuda a romper com as cruzes que nos afundam no desespero.
A festa da “exaltação da Santa Cruz” nos faz “descer” com Jesus até à cruz da humanidade. A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, o compromisso com a vida e com a causa do Reino, nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, o “Justo e Santo”, identificado com os crucificados da história.
Como diz o teólogo Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela. É gratificante fazer memória de tantos homens e mulheres que são presença compassiva e, inspirados no Crucificado, consomem suas vidas em favor da vida; histórias silenciosas de tantas pessoas que com suas presenças ajudam os outros a viver; pessoas que revelam a paixão por viver em pequenas paciências cotidianas, que entregam suas vidas sem brilho algum, sem vozes que as proclamem; são como o fermento silencioso que se dissolve na massa para fazê-la crescer; pessoas solidárias que ajudam a carregar as cruzes de tantos que são rejeitados, incompreendidos, odiados, perseguidos...; pessoas que visibilizam a Cruz da fidelidade de Jesus.
Texto bíblico: Jo 3,13-17
Na oração: Associar-se ao Crucificado em sua “descida” para “subir” com Ele significa, também, arrancar do próprio coração a cumplicidade com todo tipo de morte e deixar-se possuir pela glória de Deus.
- Quando levantamos nossos olhos até o rosto do Crucificado, contemplamos o Amor insondável de Deus; se O contemplarmos mais atentamente, logo descobriremos, nesse Rosto, o rosto de tantos outros crucificados, longe ou perto de nós, reclamando nosso amor solidário e compassivo.
- Diante do Crucificado, trazer à memória os crucificados de hoje: isto o afeta? o deixa inquieto? O incomoda?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
11.09.2025
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