“Todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (Jo 11,26)

Depois do sinal da Água (samaritana) e da Luz (cego de nascimento), o evangelista João oferece hoje o terceiro de seus grandes sinais, a Vida (êxodo de Lázaro).

O tempo quaresmal abre um excelente caminho para aprofundarmos sobre este último tema: a vida é uma oportunidade, um dom, ou algo inevitável e, talvez, insuportável? Há algo mais valioso que a vida para o ser humano? Cuidamos dela e a amamos com empenho, buscamos preservá-la diante de qualquer anomalia ou temor de perdê-la? Porque existem pessoas que “arriscam” sua vida e há aqueles que até doam sua própria vida por uma causa justa?

A morte física nos angustia, nos transtorna. Mas há outra morte que nos ronda sem cessar, ao menos em determinados momentos de nossa existência, ou seja, a ausência do sentido da vida: para que vivemos, lutamos e morremos? O ser humano de hoje, como de todos os tempos, traz cravada em seu coração a pergunta mais inquietante e mais difícil de responder: o que vai ser de todos e de cada um de nós? É inútil fugir dela ou tentar nos enganar. Que podemos fazer diante da morte? Rebelar-nos? Deprimir-nos? Angustiar-nos?...

Sem dúvida, a reação mais generalizada é esquecer essa dura realidade e “tocar prá frente!”. Mas, o ser humano é chamado a viver sua vida com intensidade e inspiração, com lucidez e responsabilidade; ele não deve se aproximar de seu final de forma inconsciente e irresponsável, sem tomar atitude alguma. Diante do mistério último da morte não é possível apelar a dogmas científicos nem religiosos; eles não nos podem guiar para além desta vida.

E, no entanto, queremos continuar vivendo. Todos carregamos no mais íntimo de nosso ser um desejo insaciável de viver. Por que temos de morrer? Por que a vida não é mais ditosa, mais longa, mais segura, mais vida? Do mais profundo do nosso ser brota um anseio profundo que nos move a desejá-la, a amá-la, a cuidá-la, a aceitá-la.

Como cristãos, também temos de nos aproximar com humildade diante do fato obscuro de nossa morte. Mas, fazemos isso com uma confiança radical na bondade do mistério de Deus que vislumbramos em Jesus. Esta confiança não pode ser entendida a partir de fora; só pode ser vivida por quem responde, com fé simples, às palavras do mesmo Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; crês isto?” O teólogo Hans Kung, no final de sua vida, afirmou que, para ele, “morrer é descansar no mistério da misericórdia de Deus”.

A vida é tão valiosa que o centro mesmo da revelação cristã é o anúncio da salvação como vida oferecida a todo ser humano. Deus nos oferece e nos garante a salvação de nossa própria vida. O cristão sabe que a existência não acaba com a morte, no nada, no absurdo. Cremos no Deus que acolhe e abraça a vida de toda criatura e a leva à sua plenitude.

No evangelho deste domingo, em um novo relato catequético, o evangelista João nos apresenta Jesus como “ressurreição e vida”, diante da morte de seu amigo Lázaro.

Progressivamente, ao longo de todo o seu evangelho, o autor vai apresentando Jesus com várias imagens: pão de vida, água viva, luz do mundo, porta, pastor, vinha, caminho, verdade e vida, ressurreição... Todas elas têm um elemento comum: Jesus é reconhecido como portador e doador de vida. E todas pretendem um mesmo objetivo: que a comunidade dos seus seguidores se fundamente sobre esta verdade. Daí a pergunta ao redor da qual giram todas essas catequeses: “crês isto?”.

É preciso compreender, de modo mais profundo, a proclamação que o quarto evangelho põe na boca de Jesus: “Eu sou a Vida”. Assim, tomamos consciência que, com essas palavras, Jesus está revelando nossa verdadeira identidade, que está profundamente unida com a sua. De fato, quando uma pessoa sábia fala, o que diz é válido não só para ela, mas para todo ser humano. A afirmação de Jesus não é a de alguém separado, mas a própria Vida; só a Vida pode dizer “eu sou a vida”. Por isso, para além da pessoa – corpo, mente, psiquismo – na qual nos experimentamos, podemos dizer que em nossa verdade mais profunda “somos vida”. Nós não “temos vida”, mas, na essência, “somos vida”. E esta nunca “morre”.

São muitas as “leituras literais” de “Lázaro” que confundem a ressurreição com o reviver. Lázaro não revive, não volta a esta vida, mas sai desta vida para a Vida, é um êxodo para a verdadeira vida.

Há um forte apelo de Jesus no relato de João, encontrado no versículo 44, e que dá a chave do sentido do grande sinal: “Desatai-o e deixai-o caminhar!” É como se Jesus dissesse: “deixai-o ir mais além, deixai-o ir para a Vida da vida?”

Infelizmente, a mentalidade dualista não consegue compreender os evangelhos; a linguagem religiosa é simbólica, pois aponta para uma outra dimensão. Não podemos nos prender à “materialidade” do relato. Sem a sensibilidade para a criatividade poética dos relatos bíblicos, é impossível deixar-nos transformar pela leitura evangélica. É preciso aprender a ler, reler e deixar-nos “afetar” pelos sinais bíblicos, pois despertam nossa vida da letargia, da acomodação, da paralisia.

Todos somos “lázaros”, fechados em nossos túmulos existenciais, atados em nossas preocupações, travados em nossas “práticas religiosas” estéreis, carentes de sentido na vida, atrofiados em nossa criatividade e busca, presos à “normalidade doentia” do ritmo cotidiano...  E o trágico está em “acostumar-nos” a uma vida de “túmulo”. Quantas potencialidades enterradas, quantos recursos não ativados, quanta energia bloqueada!... Muitas vezes nos preocupamos com o “pós-morte” e não temos a coragem de nos perguntar: “há vida antes da morte?”

O relato joanino deste domingo é tremendamente provocativo; tal relato só tem sentido quando provoca uma sacudida em nossa vida e nos arranca da acomodação. É muito fácil nos perder na interpretação fundamentalista do texto sagrado e continuarmos bloqueados por uma pesada pedra na entrada do nosso coração. É preciso deixar ressoar o grito de Jesus nas profundezas de nossa existência: “vem para fora! Deixai-vos desatar e caminhai! Não fostes criados para a paralisia mortal, mas para serdes itinerantes em busca do novo! Deixai-vos conduzir pelo Pai que, com sua graça, fazeis passar da vida medíocre à Vida plena!”

Releiamos, portanto, e reinterpretemos, recriando a narração à luz das palavras de Jesus: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”. Devemos estar centrados na Pessoa de Jesus, que é Vida em plenitude, e não nos percamos no “assombroso” do relato de João, ou seja, um morto que sai do túmulo todo amarrado. Encontrar-nos com Aquele que é Ressurreição e Vida é despertar a vida que quer se expandir em nós.

Com uma autoridade, soberana e amiga, a ordem de Jesus é dada com voz forte, com um grito...

Esta é a mensagem central que o evangelista João quer transmitir:

a verdadeira vida consiste em ouvir a Voz do Enviado pelo Pai para dar a vida ao mundo; o importante não é o maravilhoso, mas mostrar e compreender que Jesus tem a autoridade de dar a Vida. Jesus desata as ataduras, as amarras da morte; elas mantêm os homens cegos, mudos e surdos, atados e asfixiados. Seu lugar não é entre os mortos, mas entre os vivos. Eles precisam ser libertados e soltos por ordem de Jesus para que possam seguir seus caminhos, viver suas vidas livremente, voltar à comunhão com os outros. Não foi só Lázaro que saiu das suas faixas.

Todos os que estavam enclausurados em seus hábitos, presos em suas memórias, sufocados e conformados pela mediocridade, todos os que preparavam túmulos antes da hora de seu último suspiro... todos ouviram esta voz: “Saia!... Saia daí, vão além de vocês mesmos, a caminho!”

Texto bíblico:  Jo 11,1-45

Na oração: - quais são as “faixas” que estão travando o fluir de sua vida: religiosas, políticas, sociais, intolerâncias, preconceitos, julgamentos... e que o(a) fazem permanecer no ambiente de morte?

  • Para onde você sente que o grito de Jesus impulsiona a sua vida?     

 

Pe. Adroaldo Palaoro sj

19.03.2026