
É fácil colocar a responsabilidade do sucesso de um novo ano numa folha de calendário. Já quase não usamos calendários em papel, mas é essa a sensação que nos fica: uma passagem breve, rápida. E, de súbito, uma imposição: é suposto mudar. Avançar. Apressar os passos para uma coisa melhor, para uma versão mais bonita nossa. É como se houvesse a obrigação de fazer tudo o que ainda não tínhamos feito até então.
Essa pressão aperta-nos por dentro e deixa-nos com a sensação de estarmos encurralados. De ter de fazer mais do que aquilo que somos capazes. É por isso que é importante perceber que não há nenhuma novidade na passagem de ano. Há uma esperança que se veste para nos visitar, mas não é uma esperança exclusiva desse momento. Somos nós que, de repente, estamos disponíveis para cruzar olhares com ela. A única novidade no Ano Novo somos nós. Somos nós que estamos diferentes do ano passado por tudo o que vivemos até aqui. Pela volta ao sol que nos trouxe lições, bênçãos, dores, esperanças, tristezas e caminhos novos. Somos nós que temos nas mãos a possibilidade de fazer tudo o que quisermos, não é a mudança de ano ou do relógio.
Se conseguirmos dedicar algum tempo a olhar para nós, a contemplar o caminho já percorrido e a perceber a possibilidade de novas direções já é ação suficiente. E, mais ainda, se pudermos simplesmente parar e perceber que também é possível ficar no mesmo sítio até estar pronto para avançar, isso também será igualmente válido.
Que o novo ano seja leve.
Que traga a paz que precisamos e que se faça semente a partir de nós.
Que o caminho seja percorrido com amor, quando nos faltar a compreensão.
Que as ideias e os sonhos rimem sempre com as nossas raízes e não nasçam de superficialidades ou vazios.
Que tudo nos aproxime da nossa melhor versão, ainda que esse processo traga sofrimento.
Que a vida dos nossos continue junto da nossa por muito tempo e que aprendamos a cuidar bem deles. E do que trazemos no coração.
E que a alma se acende sempre na direção do caminho que nos fizer mais felizes.
Marta Arrais
In: imissio.net 3.01.24
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O presépio de Belém — O Fato
O anjo anuncia a uns pastores uma Boa-Nova que será alegria para todo o povo: “hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo, o ungido do Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura”.
O presépio de Greccio — O Símbolo
Na noite de Natal de 1223, pastores, gente comum e nobres de Greccio, celebram a Missa, organizada pelo frei Francisco numa gruta, com um boi, um burro, uma manjedoura e dentro dela a imagem do Menino. Francisco canta o Evangelho e no sermão fala do pobre rei a quem chama de "o menino de Belém". São Francisco de Assis inventa o Presépio.
Uma invenção que é o seu maior protesto, suave e silencioso, contra uma sociedade e uma Igreja que usam a Cruz de Cristo como bandeira para as Cruzadas: guerra para conquistar os lugares santos. Igreja e sociedade que esquecem o valor da ternura e abraçam as armas para obter glória e fortuna.
Até mesmo a Ordem dos Frades Menores, fundada por Francisco, está em discórdia a respeito da vida de pobreza mais ou menos rigorosa que os frades devem observar.
Francisco faz uma revisão no documento de constituição da Ordem e obtém a aprovação do Papa, mas a discórdia não é de todo superada. Ele renuncia à liderança da Ordem, para permanecer seu pai espiritual.
Um Francisco, portanto, que é provado interiormente e sua resposta é a invenção do presépio, trazendo de volta a verdadeira dimensão do Natal: o novo, o simples, a ternura, a paz, o amor. O presépio proposto por Francisco é simplesmente o boi e o burro, porque no imaginário coletivo da época o boi e o burro representavam dois grandes povos que a Igreja e a sociedade combatiam: os judeus e os muçulmanos. Mas Francisco nos diz que Jesus veio para todos.
Outra hipótese é que tenha se inspirado em Isaias que coloca o boi e o burro como as figuras principais das primeiras linhas de sua profecia: “O boi conhece o seu proprietário, e o burro a manjedoura do seu senhor; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (Is 1,3).
Jesus veio para todos. Eis porque a gruta do presépio não tem porta, como um coração é chamado a não ser parafusado, com barras, acorrentado, mas aberto, livre, capaz de acolher e emanar todas aquelas energias vitais, aqueles sentimentos extraordinários que o Natal nos sugere.
Nosso presépio: Belém é aqui — Hoje e todos os dias
Hoje nos presépios, cabem todos os ofícios, ou seja, toda a nossa vida está ali representada. E, no contexto de guerra em que vivemos, nos diz da preciosidade deste dom tão importante: a Paz. Convida-nos a estar, dia após dia, perto dos que querem esta Paz e não a podem viver, como os que sofrem as agruras da guerra, o flagelo da fome e do desemprego, a amargura de opções políticas que levam ao totalitarismo, o absurdo das nossas lutas interiores movidas pela egolatria. Jesus veio menino, para nos lembrar que podemos renascer a cada dia, construindo novos futuros para nós e para todos os seres.
O presépio nos recorda que Natal é “noite nova de antiguidade”, é “animação para surpresas, tintins tilintos, laldas e loas!” — PAZ!
Ildeu Geraldo de Araújo
Natal de 2023

Sabes o que te faz sofrer? Sabes por que razão isso te magoa? Sabes que é possível dar sentido a uma dor?
Há quem tenha muitas dores e não as saiba identificar, talvez porque isso implicaria olhá-las nos olhos ou talvez porque às vezes as dores juntam-se e formam novas formas de dor às quais é difícil reconhecer ou dar nome.
Uma dor que se esconde de nós ou da qual nós nos tentamos esconder acaba por doer ainda mais. A solidão é um fermento potente de dores. Pode engrandecê-las até a um ponto próximo do insuportável.
Seria bom que vivêssemos num mundo onde todos nós tivéssemos com quem falar sobre aquilo que nos faz sofrer, sendo também, cada um de nós, capaz de escutar, e assim aliviar, as dores do próximo.
Mas hoje reina a lógica de uma estranha verdade: como só é considerado bom partilhar as partes boas da existência, as redes sociais enchem-se de realidades que, não sendo falsas, são apenas metade da verdade, fazendo com que quem sofre julgue que as suas dores são as únicas que conhece… e, portanto, que se deve isolar ainda mais, a fim de não estragar a felicidade dos outros.
Todos sofremos, mais ainda porque o escondemos até de nós mesmos, e como ninguém pode mudar o que não aceita, fica na mesma ou piora.
Se as dores morrem ou apenas adormecem, para algum dia acordarem de novo, é um mistério.
Amar implica sofrer. As maiores dores têm, quase sempre, uma estreita relação com o que cada um de nós tem de mais nobre no seu coração. Se alguém não quiser sofrer, então não pode amar. Haverá algo de bom que não tenha sido criado sem dor?
Quem és tu? Quais são as tuas dores? Só te conheces depois de teres passado pelos vales do sofrimento.
As dores são lições sem palavras, para quem as quer aprender. Mestres que escavam em nós, tornando-nos cada vez mais profundos. E a morada das nossas grandes dores é sempre no mais fundo de nós, sendo que aquilo que nos pode curar e salvar habita por baixo desse chão.
José Luis Nunes Martins
In: imissio.net 10.11.23

Em quase todas as situações, separar será mais fácil do que unir. Porque destruir exige menos energia, inteligência e coragem do que construir.
A paz que tantas pessoas buscam só se alcança à custa de muita bondade e justiça. Mas é mesmo muito difícil alguém ser, ao mesmo tempo, justo e bom. E depois, ainda falta o vizinho que também tem de estar em paz, porque caso contrário… não haverá paz por muito tempo.
A paz não é um deserto onde nada acontece, é sim o resultado de um sem número de equilíbrios e cedências onde todos têm o dever de cuidar e de estar atentos a cada instante.
Quem fica sentado à espera da paz, viverá em guerra com os outros e consigo mesmo, apesar de se julgar desculpado por estar à espera da oportunidade certa ou da pessoa certa. Mas, e isto é claro e evidente, não há nem oportunidades ideais nem pessoas perfeitas.
O tempo e o mundo não esperam por ninguém. Cada momento é uma oportunidade e cada pessoa que está próxima de nós é, apesar de tudo, alguém com quem temos de aprender a conviver.
Importa, acima de tudo, trabalhar com paciência e fé na construção de encontros de onde nasça confiança mútua, esperança e fé. A nível mundial, mas também em cada uma das nossas casas e famílias.
É o medo que provoca as guerras, e torna-se ainda mais forte quando se conjuga com a estupidez e a ganância.
José Luis Nunes Martins
In: imissio.net 19.10.23
imagem: pexels.com


Quando algo nos magoa, importa que sejamos capazes de o tratar e sarar. Quem busca através do ódio, da violência ou até de uma fria vingança repor a justiça, agrava o mal que o aflige, em vez de o curar.
Quantas vezes ficamos zangados com acontecimentos que, na realidade, não se passaram tal como os recordamos? Será que não devíamos, em nome da verdade, ser mais humildes e procurar saber com rigor os factos antes de reagirmos?
Há quem se alimente do mal e faça o seu coração bater em busca de castigos para os outros. Busca a justiça, mas age de forma tão justiceira que acaba por ser tão injusto quanto aqueles males que julga combater.
Perdoar é renunciar à cobrança. É velar pelo seu próprio bem, compreendendo que se todos erramos, também todos podemos ser perdoados. O perdão é um ato de amor, é dar ao outro mais do que merece…
Mas… quem sou eu para julgar os outros? As suas razões e os seus gestos? Se os perdoar, tal como fui, sou e serei perdoado, que mal estou a fazer ao outro ou a mim mesmo?
Quando os nossos silêncios são de murmúrios, lamentações e intrigas interiores, não temos paz.
Não será o perdão sempre justo?
Quem é digno de condenar aquele a quem Deus pode decidir perdoar?
Se sou perdoado na medida em que perdoo, então condenar o outro é condenar-me a mim mesmo!
José Luis Nunes Martins
In: imissio.net 06.10.2023

Se és autêntico, então és diferente de todos os outros… acabarás por ser uma ovelha negra. Não és nem serás de nenhum rebanho, porque não há rebanhos de ovelhas negras, e isso é bom. Preocupa-te quando estiveres a ficar parecido com aqueles que preferem não seguir o seu caminho para não destoar.
Alguns passam a vida a tentar encaixar-se onde não pertencem, com medo da solidão. Escondem-se até de si mesmos, porque não compreendem que são únicos e procuram, de muitas formas, ser como outros. Que, na verdade, raras vezes são tão bons quanto parecem.
Quem é honesto nos seus juízos e sincero nas suas palavras não tem muitos amigos. Tem-se a si mesmo, inteiro, e a quem o reconhece como tal.
Há quem seja expulso do mundo das modas e quem se adiante e, com coragem, erga uma vida longe das críticas alheias, porque, apesar de serem a esmagadora maioria das vezes pouco acertadas, acabam sempre por nos desconcentrar e roubar o nosso tempo tentando mostrar a verdade a quem não a quer ver.
Não queiras ser sozinho. Isso será um orgulho que te destruirá, mais tarde ou mais cedo. Não construas muralhas em torno de ti para impedir a ligação aos outros. Abre a porta e cuida de que se mantenha assim, para que possas sempre ir ao encontro de quem mais precisa, quando precisar de alguém.
Se não és compreendido, isso não quer dizer que estejas errado… é até provável que sejas o único a estar certo!
Serão sempre poucos aqueles que buscam o bem mais alto, mas a sua companhia vale mais do que a de todos os outros.
José Luis Nunes Martins
In: imissio.net 29.09.23

Caminhar em direção à luz será sempre o rumo certo. Quem voltar as costas à luz seguirá sempre a sua própria sombra, rumo à maior das escuridões.
Mas que luz é esta que devemos buscar? Aquela que nos permite ver melhor o que são as pessoas e as coisas para além da sua aparência. A verdade ilumina. Na penumbra, as obras de um santo não se distinguem das de um malvado. É a luz que faz ver, porque sem ela, ainda que os olhos estejam em perfeitas condições e as coisas bem diante deles… nada se verá.
Quem foge da luz senão aqueles que se envergonham do que são? A verdade revela os defeitos com a mesma nitidez que celebra as perfeições. Só quem não tem fé em si mesmo, nem busca mais do que já, se permite a não ver aquilo em que pode ser melhor. Quem se emprega a corrigir as incorreções que a luz da verdade lhe mostra está no bom caminho.
Entre ti e a luz haverá sempre obstáculos que, roubando-te a luz, derramarão sobre ti a sua sombra. Não desanimes, porque uma grande sombra é um sinal claro de uma grande luz.
Cuidado para não te deixares enganar pelos brilhos que são apenas reflexos de uma luz que não é sua nem está ali, está no lado oposto.
Subir ou descer? É no alto da montanha que se está mais perto do céu. Quem se eleva aperfeiçoa-se. Muitos são os sacrifícios que são pedidos aos que sobem. Por vezes, o chão, de tão íngreme, parece uma parede que nos aconselha a voltar para trás.
O caminho de cada um de nós constrói-se a cada passo, não existe antes de nós o fazermos. Todos os caminhos que decidimos não criar, não existem na realidade, apenas nos sonhos de quem não os criou.
Ser livre é só isso: cumprir o dever de fazer o seu caminho. Nos dias em que não andamos para diante, não vivemos… apenas demoramos.
José Luis Nunes Martins
In: imissio.net 15.09.23

O amor é firme, paciente e tranquilo. Aprende-se a amar e a humildade de nunca se dar por satisfeito é a razão pela qual não tem fim. Aqueles a quem amamos vão tendo necessidades diferentes, pelo que para ir ao seu encontro devemos estar atentos a eles, mais do que à nossa forma de amar.
O amor é a resposta à vida. Só existe por ela e para ela, portanto, deve acompanhá-la sempre, adaptando-se a cada dia, a cada paisagem e a cada falta. O amor compensa todas as perdas porque é infinito e eterno, assim confiemos e nos entreguemos a ele.
Os males aprendem-se sem mestre e são muito mais difíceis de perder que os bens, para os quais é sempre preciso que a vontade esteja disposta a alguns sacrifícios. O sacrifício mais comum que o amor nos propõe é o abandono de nós mesmos e dos nossos desejos mais superficiais. É preciso renunciar ao poder e à vontade de dominar para servir, amando, aqueles de quem queremos ser instrumentos de alegria e felicidade.
Encontrar uma pessoa que ame é muito raro. Muitos são os que falam sobre o amor, mas falta-lhes sempre a consciência do que é a existência. Julgamo-nos quase sempre como estando e sendo acima dos outros, com feridas sempre mais dolorosas que os demais, com tragédias profundas e sonhos que, com injustiça, nunca se cumpriram… enfim, somos vítimas do que está à nossa volta. Ora, o amor não é algo que desça sobre nós e nos acerte como uma seta de um qualquer arqueiro divino. Isso é paixão e passa quase sempre muito depressa. O amor decide-se, é uma resposta voluntária e consciente cuja prática se deve renovar através de ações concretas a cada dia, ainda que depois de assim ter sido durante muitos anos até aí.
Não se ama de um momento para o outro. O amor faz-se grande através daquelas quase infinitas pequenas coisas que fazemos mesmo sem testemunhas, da mesma forma que as faríamos diante de uma multidão.
O amor aprende-se e precisa que quem é amado se abra um pouco, para dar algum sinal sobre aquilo que julga precisar para ser feliz.
Amar é uma decisão que exige um esforço da vontade e que se deve concretizar numa infinidade de obras, belas, verdadeiras e úteis.
Nada falta a quem ama, porque só o amor é o bastante.
José Luis Nunes Martins
In: imissio.net 01.09.23

Viver implica resistir a muitas perdas. Começamos com nada e partiremos sem levar coisa alguma. Tomamos quase sempre como justo o bem que nos chega, e como injusta e absurda a perda dos bens que, na verdade, nunca foram nossos.
À medida que os anos passam em silêncio, cresce a necessidade de fazermos amizade com a solidão. Por mais que nos sintamos cansados de nós mesmos, a verdade é que a vida é um caminho no qual andamos quase sempre sozinhos, pelo que ou nos fazemos amigos de nós próprios ou andaremos sempre em má companhia.
Quanto mais velhos estamos, maior é a tendência para nos abrigarmos no passado, porque a verdade é que por mais longo que tenha sido o caminho que já fizemos, a esperança exige que nos inclinemos para o futuro e isso é, por si só, cada vez mais desafiante. Os passos que demos, estão dados e já não nos doem, os que faltam dar, esses sim, parece que já começaram a ferir.
A sabedoria que chega na velhice talvez não seja resultado de muita experiência, mas da distância face aos acontecimentos que permite ver tudo de forma mais clara e evidente. Os conselhos dos mais velhos não são histórias concretas da sua vida, mas sim o que fariam hoje se estivessem no nosso lugar, tendo presentes os seus fracassos e a clareza com que hoje compreendem os seus porquês.
Ao longe vê-se melhor. E os anos levam-nos para um lugar distante e mais alto.
O melhor do que somos revela-se quando a vida nos maltrata. A velhice é um tempo de verdade revelada, pelo que podemos observar de nós mesmos, no que fomos, no que somos e na forma como encaramos a incerteza do amanhã.
É a vontade de amar que dá sentido à vida e a justifica em absoluto.
Cada dia a mais será um dia a menos. Os dias que nos são dados não são mais do que momentos que havemos de perder. Seria bom que todos assumíssemos o fim de cada dia como uma perda irremediável – pior ainda se não o aproveitámos.
José Luis Nunes Martins
In: imissio.net 18.08.23

Somos excelentes no desenvolvimento e no apregoamento de teorias. As palavras saem-nos rapidamente no sentido do julgamento ou de uma forma que nos quer colocar acima das atitudes dos outros com quem falamos e convivemos. É como se aquilo que dizemos fosse lei pela qual todos os demais se deviam reger. Opiniões também temos de sobra. Se fosse eu, fazia assim. Se eu fosse aquela pessoa não teria ido por aquele caminho ou não teria tomado aquela decisão. Fácil de dizer. E de atirar para o ar. Mas a verdade é que não somos (nem fomos) aquela pessoa. Cada um é cada um mas isso não nos dá o direito de assumir que todos temos de agir da mesma forma.
No entanto, há um desafio que nos é colocado a cada momento, e principalmente, nos momentos mais adversos ou importantes das nossas vidas: o da coerência. O de rimar as nossas atitudes com aquilo que a nossa boca apregoa e reza. A coerência está em vias de extinção. Vê-se pouco e sente-se ainda menos. O que se sente, na realidade, são as consequências do pautar a existência por uma superficialidade de palavras e de opiniões.
Somos todos muito bons a viver a vida dos outros. Mas a história deles não é a nossa. A vida deles não é a nossa.
O que nos é pedido a todos (e não me excluo) é que vivamos mais de acordo com as nossas palavras. Que consigamos devolver aos outros a certeza de saberem o que podem receber do nosso lado. Que saibamos alinhar os nossos valores e os nossos princípios com o que apresentamos aos que se cruzam connosco. Porque de dizer uma coisa e fazer outra está o mundo cheio. E nós cansados de não ver nada bater certo. E nós cansados de ouvir palavras que rimam com vento e com pouca verdade, ao invés de atitudes certas, corretas e recheadas de bom senso.
Temos, todos, um longo caminho a percorrer. Falta-nos aprender a ter mais cuidado com os que conhecemos e, também, com aqueles que conhecemos pouco. Merecemos todos mais respeito, mais coerência e mais verdade da parte uns dos outros.
Claro que as máscaras sociais, as aparências, as roupas bonitas e as marcas caras são profundamente atrativas num mundo que se quer de carneirada… mas valerão tanto assim?
Valeremos assim tão pouco que deixámos de nos importar com o que realmente merece a nossa dedicação?
Marta Arrais
In: imissio.net 12.07.23
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A ingratidão é uma das formas mais comuns de orgulho magoa muitas pessoas que, tendo feito o bem a alguém, acabam por se sentir traídas por esses a quem as suas obras beneficiaram.
Há pessoas que só não são ingratas nas oportunidades em que o que querem é obter ainda mais favores.
A verdade é que um ingrato é sempre um fraco, mas também o é quem faz o bem com intenção de ser louvado.
O bem nunca deixa de ser meritório, embora aquele que age de forma interesseira não tenha direito a muito mais elogios do que aqueles que obtém de quem lhe agradeceu ou aplaudiu.
Por outro lado, quando alguém faz o bem sem buscar nada em troca, esse sim merece muito mais do que qualquer aplauso ou louvor humano. É mais do que justo que o seu gesto seja agradecido, se não neste mundo, então naquele de que este faz parte. Há obras que só mesmo a eternidade pode revelar e agradecer.
Importa viver, escolher e agir bem, sem esperar gratidão ou aplausos. E quando o bem que fizermos for menosprezado, esquecido ou espezinhado, é bom que tenhamos presente que isso não retira valor algum àquilo que fizemos, talvez até o aumente.
Valerá a pena amar um ingrato? Sim, porque se não for o amor, é mais do que certo que nada o poderá redimir.
É duro ter de admitir que, muitas vezes, os ingratos somos nós… quantas vezes agradeço o bem que fazem por mim? Ou será que julgo que é justo que assim seja, porque eu sou melhor do que os outros e, por isso, eles me devem servir?
Uma das estratégias mais comuns é a de nos fixamos nos erros e vícios de quem nos faz bem do que na sua bondade.
Não esqueças, nunca, o bem que te foi feito. Não haverá maior honra do que essa a quem o fez.
–
Obrigado a quem lê o que escrevo. Obrigado a quem com a sua bondade me faz sentir útil e bom. Obrigado, muito.
José Luis Nunes Martins
In: imissio.net 14.07.23
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A família é a base da felicidade. Porém, quando nela persiste o egoísmo, o orgulho ou o ressentimento, torna-se numa espécie de pedra atada a todos, impedindo qualquer um dos seus membros de ter paz.
Sem perdão não há família. Todos erramos uns com os outros. Pelo que só com amor se podem sarar estas feridas. Na verdade, o perdão é uma prova concreta do amor que une os que decidem viver e lutar pela alegria duradoura juntos.
Uma família precisa de espaço e tempo entre aqueles que a compõem. O respeito pelo outro exige que guardemos alguma distância e sejamos pacientes. Sem liberdade não há nem verdade nem felicidade. Estar presente não significa invadir um espaço que não é meu. Amar é dar espaço e tempo. Também por isso é que uma família é muito maior do que a soma dos seus membros!
Uma família alimenta-se da fé, da confiança partilhada, de valores comuns, de sonhos em que os outros também entram, de uma vontade comum de que não haja ali solidão não desejada. Numa família todos somos um eu e um nós.
Sem um compromisso que se renove e cumpra a cada dia, apenas subsiste um conjunto de pessoas que não são uma verdadeira família, mas que assim se arrastam umas às outras para uma verdadeira tristeza por vezes disfarçada de sossego, mas que, por isso mesmo, se torna ainda mais trágica a sua tristeza.
As tribulações são parte constante da vida individual e familiar. Por isso, importa que aproveitemos os raros dias de bonança para descansar com vista às tempestades que, com certeza, apesar de em tempo incerto, se aproximam.
Face às contrariedades, não devemos abandonar os nossos. Por piores que sejam as adversidades e por menos bons que nos pareçam aqueles que, apesar de tudo, devemos amar.
Uma família mantém-se unida e firme na tribulação. Resiste às angústias, aos desesperos, à aparente falta de amor, de sentido e de justiça do mundo e dos outros.
Se eu não sei ser justo, porque não sei julgar com o conhecimento de tudo o que importa, então porque passo tanto tempo da minha vida a culpar e a condenar os outros a começar pelos da minha família?
José Luis Nunes Martins
In: imissio.net 23.06.2023
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Se procuras a verdadeira alegria, então trata de a semear naqueles que estão à tua volta, a começar pelos mais próximos. É impossível alcançares a felicidade para ti, porque ela só te pode chegar através de outra pessoa.
Tal como qualquer árvore de fruto, também tu não te preocupes em distinguir entre aqueles a quem te podes dar. Mesmo que haja quem julgues que não merece… não julgues e dá-te. Se houver algum mal nessa pessoa, tal não te contaminará.
Promover o bem de alguém é criar condições para que seja quem é, tal como fazer-lhe mal é diminuí-lo ou aniquilá-lo. Por isso, uma das formas mais nobres de fazer o bem é combater o mal!
É de grande valor a existência capaz de ver em si todo o bem que tem. A maior parte das pessoas só depois de o perder tem consciência do quanto iluminava a sua vida.
Alguns, tão escuras são as trevas do inferno em que vivem, que sentem o bem que lhes é feito como algo que os importuna e desrespeita… A solução que veem para o mundo é a de que o mal se espalhe por todo o lado em vez de abrirem a sua vida ao bem que, por mais que pareça tardar, vence sempre. Sempre. Cuida de te preparares porque, por maiores que sejam os bens que faças, não terás as respostas que mereces. Serás mal interpretado, poucos te agradecerão e alguns até te hão de tentar atingir nos dentes. Mas a verdade é que nunca foi grande herói aquele que só fez o bem a quem lho fazia também.
Faz o bem que tens a fazer, apesar de tudo.
Sem promessas, apenas como um compromisso de ti para contigo!
José Luis Nunes Martins
16.06.2023
In: imissio.net
Imagem: pexels.com

Não consigo ser feliz sozinho. Preciso dos outros, porque a minha existência só ganha sentido quando faço parte da vida de outras pessoas. Posso estar mais ou menos presente, posso precisar de receber mais ou de dar mais, posso estar triste ou alegre, mas nunca consigo ser eu sem ninguém com quem me preocupar e sem ninguém que se preocupe comigo.
Cada pessoa é um mistério, um universo quase tão infinito quanto belo, e a verdade é que nem sempre estamos iguais, como se nos víssemos a partir de diferentes perspetivas, tempos e disposições… chegamos a parecer ser diferentes até de nós mesmos.
É um bom princípio assumir que todos os outros têm algo de bom, se não for possível acrescentar-lhes bem, pelo menos importa garantir que não lhes fazemos mal.
Não somos iguais a ninguém e isso é bom. Mas no mais profundo de cada uma das nossas identidades há um conjunto de valores que quase todos partilhamos. Cabe a cada pessoa fazer o seu caminho, por entre uma multidão infindável de outros que, ao mesmo tempo, andam pelo mundo em busca da felicidade, um pouco por todo o lado.
O encontro é algo sublime. Reencontrar no outro algo que também sou, como se fossemos mesmo irmãos que partilham um código genético, é extraordinário. Há muitos sonhos e pesadelos que um dia descobri que não eram só meus. Não sou o único inspirado nem o único atormentado em nada! E isso é bom!
Ao contrário das aparências, as pessoas são muito mais parecidas connosco do que julgamos. Consideramos aqueles que não conhecemos bem melhores do que talvez sejam… o que implica que talvez comecemos por nos menosprezar. Alguns julgam-se mesmo melhores do que nós, o que nos dá a certeza de que não são! Mas também nós, por vezes, nos julgamos acima do outro… o que é um erro e um péssimo ponto de partida.
Não te importes muito com o que os outros ficam a pensar de ti. A maior parte das vezes nunca mais lhes passamos pelos pensamentos… esquecem-se do que somos, dissemos ou fizemos. Pensam em mil outras coisas, não se importam… enquanto alguns de nós achamos mesmo que estão a dedicar o seu tempo a pensar mal de nós!
Mais vale preocupares-te a sério e apenas com o que tu próprio dizes, fazes e és. Isso inspirará os outros e ajudá-los-ás sem teres de te impor de qualquer forma.
Ninguém é o que parece, nem tu! Apesar disso, somos mesmo todos irmãos. E isso é bom!
Que nunca julgues importante o que possam dizer ou pensar de ti, apenas o que tu és!
Mas não te esqueças que és parte da aldeia de que os outros precisam para serem felizes.
José Luis Nunes Martins
in: imissio.net 09.06.23

Quando a morte leva para longe alguém que amamos, tudo o mais perde importância. A vida fica estranha, por um lado parece que afinal não tem valor algum, mas, por outro, torna-se mais preciosa do que nunca.
Faz-nos falta quem perdemos e faz-nos falta aprender a lidar com a nossa vida sem eles.
A existência como que perde sentido, porque ficamos sem compreender nem a morte nem a vida.
E a minha? Quando será? Sofrerei? E os meus, sentirão a minha falta?
Talvez seja bom eu aprender a preocupar-me mais com a minha vida do que com a minha morte. Se vivo à espera de morrer, morrerei à espera de viver.
A vida não é permanecer nem desaparecer. É ir evoluindo ao longo do tempo, até mesmo depois das negras trevas da morte nos tomarem. Ficamos com os que ficam, levando connosco, para onde formos, o amor com que se deram a nós. Honra com a tua vida a vida dos que te amaram.
Os que me morrem, matam-me na medida em que a sua vida também era minha. Assim como a minha era sua. Viver é duro, viver sozinho torna a existência quase insuportável. O amor é essencial à vida. Sem amor, tudo, no fundo, é morte.
Quando chega o último momento, não é do amor que nos arrependemos!
Cada dia que passa tira-nos tempo que foi nosso, mas que já não o é. Tal como na morte, a vida é acabar e começar a cada instante.
O que viam os meus olhos antes dos meus pais sequer se conhecerem? Talvez eu já fosse quem sou, muito antes de nascer, apesar de não o saber. Nem na altura, nem agora!
Tenho de ser capaz de me entregar ao depois com a mesma fé com que tenho a certeza de que o amor nunca morre.
Afinal, de onde me chega a confiança de que acordarei sempre que, a cada noite, me entrego ao sono?
—
Dedico este texto ao meu amigo Pe. João Aguiar Campos que terá chegado ao Céu no passado dia 27 de abril de 2023. Obrigado, muito, muito!
José Luis Nunes Martins
In: imissio.net 02.06.23
Imagem: pexels.com/Helena Lopes

Um poema de Wislawa Szimborska, a poeta polonesa, fala da desatenção e diz coisas como “Ontem me comportei mal com o universo. /Vivi o dia inteiro sem indagar nada, sem estranhar nada.” E mais adiante: “o savoir-vivre cósmico,/ embora se cale sobre sobre nós,/ainda assim nos exige algo:/alguma atenção, umas frases de Pascal/ e uma participação perplexa nesse jogo/de regras desconhecidas.”
Essa defesa do espanto aparece, lá com os gregos, como a origem da filosofia, como o lugar de onde brota nosso desejo de compreensão. Uma oposição tradicional ao espanto vem das nossas obrigações rotineiras, da repetição dos pequenos rituais que o cotidiano impõe. É assim mesmo, há um cotidiano a ser cumprido, o que não significa que, fascinados com essa pequena ordem, nós devemos transferi-la para a amplitude da vida. Assim fazia o homem prático, o que zombava de quaisquer exercícios da imaginação, o que se irritava com tudo o que não estivesse diante dos seus olhos ou dos seus interesses mais imediatos.
Hoje não é mais apenas o homem prático que se opõe ao espanto. É, pelo contrário, o que sabe demais, o que julga tudo compreender, o que padece da ilusão, muitas vezes de forma enraivecida, de que o há para compreender já está compreendido. Assim o desprezo pela atenção, defendida pelo homem prático, se une à insistência na certeza, cultivada em meios supostamente ilustrados, ao modo de duas faces de uma só moeda.
Contra ambos é preciso defender o direito à atenção, ao reconhecimento da porção de estranheza presente na existência humana e no universo que habitamos. Será preciso aceitar um pouco mais de silêncio e acolher o inevitável limite do que nos parece, ilusoriamente, um saber exaustivo. Como somos viajantes tardios, não estavam nos começos, não somos capazes de antever os fins. Portanto, o que nos cabe é fazer avançar a compreensão onde for possível, sem esquecer que é da natureza da luz ser acompanhada da sombra.
Talvez a poeta, ou a poesia tenha mesmo razão: “...alguma atenção, umas frases de Pascal e uma participação perplexa nesse jogo de regras desconhecidas.”
Ricardo Fenati
Equipe do site
04.05.23

Talvez estejamos mais habituados a procurar nossa humanidade, o melhor de nós, nas grandes realizações, na criação artística, nos gestos de justiça, no exercício da bondade, na disposição amorosa, na celebração da alegria e no gosto pela verdade. E é bom que seja assim, cada uma dessas experiências registra uma vitória, uma superação, mesmo que provisórias, mesmo que devam ser reiteradas muitas vezes, diante daquilo que nos avilta e que se volta contra nós. Não apenas no sentido de que devemos resistir ao que, vamos dizer assim, vem de fora, do mundo à nossa volta, mas também do que brota em nós, que, às vezes, somos, paradoxalmente, o adversário contra quem cabe lutar.
Se isso é importante, e ao meu juízo é, não devemos nos esquecer de que há um outro lugar onde nossa humanidade está presente, o lugar da fragilidade. Há uma fragilidade que se pode chamar de objetiva, a que vem da progressiva debilitação do nosso corpo, a que é trazida, inesperadamente, por uma doença, a que, podendo ser minorada, não pode ser afastada. A essa dimensão objetiva, se associa uma outra dimensão, desta vez, existencial e, um pouco além, espiritual. Fragilidade aqui é o reconhecimento do limite humano, a percepção de que nossa segurança tem contornos mais estreitos, o que nos obriga a que recuemos das nossas ilusões de que os riscos não estão presentes. Ora, é desistindo de ultrapassar o que não pode ser ultrapassado, que abrimos em nós um espaço vazio, um quase não-ser, e é daí, desse esvaziamento que se abre o horizonte da transcendência. Aqui já somos agentes, nos tornamos pacientes, à espera cuidadosa e à escuta atenta do que nossa impotência trará. E, assim, nesta hora, somos, no que temos de mais íntimo, uma peleja, essa que nos convoca a dispor do que pensávamos ter e voltar nosso olhar para os sinais, ora tênues, ora mais intensos, daquilo que a esperança anuncia.
Ricardo Fenati
26.04.23

Vivemos para agradar. Para fingir. Para fazer de conta. Moldamo-nos para pertencer e para nos convencermos a nós (e aos outros) que vamos na direção oposta do vento que nos sopra dentro do coração. É mais fácil ser-se o que não se é. Viver uma vida que alguém desenhou, pensou ou perspetivou. E enquanto nos vamos adaptando às expectativas alheias, já nem sabemos quem somos. Perdemo-nos da nossa raiz e da luz que, em vez de brilhar, só conseguirá apagar-se.
Quando nos perguntam de que é que precisamos, não sabemos responder. Abrimos os olhos e a vida de espanto e de dor. Sabemos lá do que precisamos. Sabemos lá o que queremos. Fomos andando para a frente sem saber se era por aí o caminho. E é assim que, um dia, damos por nós a precisar de voltar para trás. Damos por nós a seguir uma urgência de compreender o que ficou por desatar, por viver, por descobrir.
A nossa vida não é de ninguém. Não pertence a um grupo. A uma rede social. A uma pessoa ou a vários. Não se restringe a um trabalho, a uma profissão ou a uma vocação. A nossa vida é única. Como um fio de água que faz o rio crescer, mas que ninguém vê. A vida rasgou-nos para nos construir naquilo que precisamos de ser. E o tempo passa demasiado depressa para vivermos para as aparências. Para as necessidades dos amigos, da família, dos maridos, das mulheres, dos namorados ou das namoradas. Ninguém te pode explicar como é que (te) vais fazer feliz. Como é que podes aproveitar o teu caminho para deixar marca.
Essa responsabilidade é tua. Esse presente foi-te dado a ti.
Não passes a bola a mais ninguém.
Viver é agora. E aqui.
Viver é o que tu quiseres. É aquilo em que acreditas. É a pessoa que amas. Seja ela quem for.
Viver é ser capaz de fazer o que só te cabe a ti.
Viver é contigo. E só podes ser tu.
Marta Arrais
In: imissio.net 19.04.23

Talvez o elemento cultural mais forte do presente seja a ferida. A própria pandemia — tal, como agora, a experiência devastadora da guerra, mesmo se localizada — deixam a descoberto uma vulnerabilidade global que não queríamos ver e obriga as sociedades, no seu todo, a fazer contas com feridas antigas e recentes. A vulnerabilidade associada à experiência humana pede, de facto, para ser lida como realidade mais intrínseca, transversal e vasta. Há um estrutural défice de cuidado, que vem de muito longe e de muito fundo. Não admira, por isso, que a necessidade de reconhecer a ferida, de a narrar, de colocá-la no centro do debate público, de a atender e de lhe fazer justiça se tenha tornado uma aspiração tão forte do nosso tempo. A ferida é um património e uma responsabilidade que pertence a todos. Recordo o que escreveu Hofmannsthal (1874-1929) num precioso livro que a Assírio publicou há uns anos e que passou, entre nós, praticamente despercebido, “Livro dos Amigos” (Assírio, 2002): “Ninguém pode dizer que se conhece profundamente se é apenas ela ou ele próprio, e não ao mesmo tempo também um outro.” De facto, não há futuro a não ser na reciprocidade eticamente qualificada entre a situação de quem fala e de quem escuta.
A história da dor é, infelizmente, quase sempre uma história submersa, negligenciada face aos discursos dominantes, remetida para as trincheiras de uma solidão que poucos ouvem. A ponto de se achar que é um inconsequente idealismo pensar a vitória sobre as diversas formas de mal. Na cela da prisão nazi, onde viveu os últimos meses da sua vida, depois de uma participação na tentativa fracassada de atentado contra Hitler, o teólogo cristão Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) escreveu: “No curso das nossas existências, não falamos facilmente de vitória: é uma palavra que nos parece demasiado grande. Ao longo dos anos sofremos demasiadas derrotas, demasiados momentos de fracasso e fragilidade. E contudo, o espírito que habita em nós deseja o sucesso final contra o mal.” É verdade que o próprio Bonhoeffer foi enforcado, escassos dez dias antes de o campo de concentração ser libertado pelas forças aliadas, mas ele foi no terrível século XX (e o século XXI infelizmente não se está a revelar menos terrível) uma testemunha dos desejos do espírito contra a tirania do mal. O desejo desse espírito que pulsa dentro de cada ser humano é uma força que não se rende. E — para quem o quiser escutar — ele acentua a urgência de construir um novo pacto social, uma nova visão cultural partilhada, que seja capaz de introduzir e sustentar, no seu interior, dinâmicas de escuta, de encontro, de devolução de liberdade e de justiça, de verdadeira pacificação e de cura. Para isso, porém, precisamos de reaprender todos a ser coprotagonistas no artesanato interminável que é a construção da paz e de desenvolver a cultura do cuidado.
Em dias como estes que dramaticamente o mundo vive, onde assistimos às consequências do delírio do poder, é importante, por exemplo, rever criticamente o impacto das lideranças autoritárias, baseadas no brutal princípio da violência. O futuro precisa de líderes com maior consciência da vulnerabilidade da terra e dos seus moradores, capazes de dialogar com as necessidades reais das pessoas, mais empáticos do que autoritários, capazes de desenvolver formas de escuta e de corresponsabilidade, investindo na confiança em vez do controlo, promovendo a compreensão de que o lucro e a posse violenta, o consumo ou o domínio não são as únicas coisas pelas quais vale a pena lutar.
Dom José Tolentino Mendonça
In: imissio.net 01.04.23
Imagem: bigstock
PERFEIÇÃO ou SANTIDADE
Pe. José Antonio Netto de Oliveira, s.j.
Não é necessário um grande esforço de observação para notar que muitos cristãos e, particularmente cristãos consagrados, não vivem sua fé com alegria, não dão um testemunho existencial de que o Evangelho é uma alvissareira e Boa Notícia para todo ser humano, uma libertação de todo medo, diante da revelação, em Jesus Cristo, da inexplicável misericórdia, perdão, amor incondicional de Deus para com suas criaturas.
Cristãos e cristãos consagrados parecem viver um interminável sentimento de culpa diante de Deus, sempre se sentindo em dívida e consequentemente experimentando uma separação ou pelo menos uma distância e frieza no relacionamento com Ele. O Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, revelado como infinita ternura, misericórdia, amor, proximidade para com o homem pecador não é então percebido como Pai, mas como um juiz mal humorado, eternamente esquadrinhando nossa vida atrás de infidelidades, desobediências e fraquezas. Em vez da intimidade, da proximidade e da alegria que Jesus manifesta no seu relacionamento com o Pai, nós como Adão no Paraíso, sentimos medo de Deus e procuramos esconder-nos.
Nós, cristãos, nem sempre temos sabido refletir em nossos próprios rostos a alegria de Deus: desde o escrúpulo até à inimizade para com o corpo, desde um ascetismo não integrado até um legalismo sem calor... damos demasiadas vezes a impressão de que somos pessoas mais presas do que libertas por nosso Deus.
As causas desses sentimentos e comportamentos dos cristãos, pouco reveladores da Boa Notícia de Jesus, podem ser procuradas em múltiplas direções: no tipo de educação religiosa recebida, na psicologia pessoal mais ou menos propensa a sentimentos de culpa e de escrupulosidade, na experiência de se ter sido ou não amado com gratuidade, na experiência pessoal de Deus, nas múltiplas camadas teológicas e ideológicas que se foram superpondo, obscurecendo muitas vezes a experiência original do cristianismo e consequentemente a alegria cristã etc...
No presente artigo gostaríamos de ressaltar um aspecto dessa problemática, uma confusão que fazemos entre santidade e perfeição, em parte responsável, em nossa opinião, por essa distância e frieza no relacionamento com Deus e por certo sentimento de culpa permanente que impede a intimidade da filiação e a alegria de vivermos como filhos amados gratuitamente pelo Pai.
Confundir santidade e perfeição, com a conotação que a palavra perfeição tem aos nossos ouvidos hoje, é condenar-nos a uma eterna insatisfação conosco mesmos, a uma autocondenação permanente, porque percebemos que somos cada dia mais imperfeitos, na medida mesmo em que avançamos na vida. Passar desse sentimento à verificação de que a santidade não é para nós, é um pulo. Desistimos então da santidade, não ouvimos mais o apelo de Deus "sede santos porque eu sou santo" e nos condenamos à mediocridade na vida cristã.
A interpretação da santidade como perfeição tem suas raízes no evangelho de São Mateus e mais particularmente em Mt 5,48 "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito". Examinemos rapidamente este texto.
Devemos notar primeiramente que a perfeição, segundo o Antigo Testamento, não é um atributo de Deus. Em nenhuma ocasião o Antigo Testamento chama Deus de "perfeito". Chama-o de "santo". Nos evangelhos o adjetivo "perfeito" (teleios) aparece somente duas vezes e ambas em Mateus: Mt 5,48 "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito" e Mt 19,21 "Se queres ser perfeito" pergunta Jesus ao jovem rico.
Na mentalidade hebraica a perfeição é antes um atributo do ser humano expressando a idéia de totalidade, aplicando-se ao que é completo, intacto, àquilo que de nada carece. Quando em Mt 19, 21, Jesus diz: "Se queres ser perfeito", quer significar: se queres que nada te falte, se queres não ter limite algum.
Ao afirmar "sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito" Mateus estaria projetando em Deus uma qualidade propriamente humana. Encontramo-nos diante de um antropomorfismo: Mateus nos convida a imitar em Deus uma qualidade que não é propriamente divina, mas que é a projeção em Deus de um ideal humano.
A perspectiva de Mateus aparentemente parece ser mais moralista que teológica: sua atenção está centrada no dever que se impõe ao homem, na conduta que este deve adotar com relação a seus irmãos para cumprir perfeitamente a vontade divina.
Verifica-se, pois, que neste texto de Mateus o ponto de partida da santidade já não seria Deus em primeiro lugar, mas o que o homem deve fazer. A atenção se desloca da misericórdia de Deus, como na versão de Lucas: "Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso" para a perfeição do homem em geral, como um progresso no desenvolvimento ontológico do ser humano. A santidade passa a ser vista como a perfeição no cumprimento da lei, manifestação da vontade divina, e na prática das boas obras, frutos, basicamente, do esforço do homem.
Poderíamos, contudo, vislumbrar uma outra interpretação, seguindo São Jerônimo e outros. O logion "Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito" liga-se com o texto precedente pela partícula de conseqüência "portanto". Ora, o texto imediatamente antecedente fala precisamente do amor sem limites do Pai que faz nascer o sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos e que ama a todos: amigos e inimigos. Assim poderíamos concluir que o discípulo deve ser perfeito no amor como o Pai Celestial é perfeito no amor.
Antes de prosseguir em nossas reflexões sobre a perfeição é iluminador considerar a relação entre santidade, perfeição e pecado. É mesmo curioso observar que a Igreja não assinale uma oposição radical entre santidade e pecado, podendo as duas realidades subsistirem simultaneamente na mesma pessoa ou no mesmo corpo social. A própria Igreja se auto-define como sendo pecadora e santa e os santos Padres não tinham escrúpulos de denominá-la "casta-prostituta": de um lado é patente sua infidelidade e mesmo suas traições a seu Esposo Jesus Cristo, e de outro é patente
também a presença do Espírito do Esposo no meio dela purificando-a, salvando-a e fazendo dela sacramento universal de salvação.
Outra realidade que chama nossa atenção é o fato de os santos canonizados pela Igreja nunca se terem considerado santos, antes muito pelo contrário, todos se confessaram grandes pecadores, até o fim de suas vidas, e praticaram penitências por seus pecados que nos assustam. Apesar dessa consciência de serem imperfeitos e pecadores, eram santos e a Igreja reconheceu sua santidade, canonizando-os. Não existe, pois uma incompatibilidade radical entre santidade e pecado. Pode-se ser simultaneamente santo e pecador.
Se passamos à relação entre pecado e perfeição aí encontraremos essa incompatibilidade: não se pode ser simultaneamente perfeito e pecador uma vez que o pecado é a imperfeição por excelência. A perfeição exclui necessariamente o pecado. Esta breve consideração poderá ajudar a entender melhor as reflexões que se seguem.
É igualmente importante para a intelecção do que se segue captar a distinção entre ter pecado (s) e ser pecador.
Ter pecado(s) é a consciência que temos de ter falhado objetivamente no amor para com Deus, para conosco mesmos ou para com o próximo. Antes de nos dirigirmos ao sacramento da penitência, costumamos parar, fazer um exame de consciência perguntando-nos "quais os pecados que tenho", quais minhas faltas objetivas de amor, desde a última confissão. Comunicamos então ao sacerdote os pecados que "temos" e, se estamos arrependidos, somos perdoados, Deus nos assegura o seu perdão. Saindo da confissão já não temos mais pecados.
Ser pecador é a consciência que temos de nossa fragilidade. Saindo da confissão não temos mais pecado, mas reconhecemos que estamos num estado de fraqueza, que somos vasos de barro, muito quebradiços. O pecado atingiu, de certa maneira, algo de profundo em nós, atingiu de algum modo o nosso ser, o nosso coração como diz a Bíblia (é do coração que saem os maus pensamentos, assassinatos etc.). Encontramo-nos todos numa situação de fragilidade. Cada um percebe no seu "coração" certas tendências inatas para o mal e para o pecado que os teólogos chamam de concupiscência, tendências inatas para o orgulho, a avareza, a gula, a luxúria, a preguiça etc... É porque estamos neste estado de fragilidade, é porque somos pecadores que voltamos novamente a cometer pecados e assim teremos de confessar-nos uma e outra vez até o final de nossa vida.
Reconhecer não somente que temos pecado, mas também que somos pecadores é abrir-se para a verdade do próprio ser, é o início do esvaziamento de si, é começar a descer à verdadeira humildade diante de Deus e diante dos homens.
O conceito de perfeição que cada um tem em sua própria cabeça, não é puramente teórico, porque o conceito de perfeição forma-se ao longo da vida, é existencial e, portanto vem marcado por cargas afetivas desde a primeira infância: os comportamentos corretos, perfeitos eram premiados, os imperfeitos, incorretos eram
punidos. O conceito de perfeição foi-se formando em nós a partir de nossa educação, a partir de experiências integradoras ou traumatizantes, de sentimentos de culpabilidade e castigo ou de libertação e perdão. Normalmente terminamos com um conceito de perfeição que se identifica no plano pessoal com não ter defeitos, não ter vícios, não ter traumas nem marcas psíquicas negativas, não ter nenhuma fraqueza, nenhuma falha, nenhum pecado etc...
A busca da perfeição é um projeto do homem, um ideal humano. Trata-se de um projeto fechado dentro do próprio eu orgulhoso, que exige o máximo de si, o máximo de esforço para não falhar em ponto algum, uma vez que o perfeccionista está convencido de que somente será amado por Deus e pelos demais se for perfeito. Nesse esforço ele tende a contar exclusivamente consigo mesmo, prescindindo de Deus e dos outros.
A perfeição estaria no fim do caminho que traçamos para nós, do ideal que nos propusemos, ou então no topo de uma escada que decidimos subir com nosso esforço, galgando degrau por degrau, eliminando vícios e adquirindo virtudes numa busca tensa. A perfeição não suporta o pecado uma vez que o perfeccionista vê o pecado não como uma ruptura de laços de amor, não em relação a um outro, mas em relação ao próprio ideal: "falhei no meu ideal, no ideal que me havia proposto". Esta verificação é sempre sentida como humilhação.
O perfeccionista procura viver apenas com os melhores fragmentos de si mesmo, aqueles que estão conforme com as normas, com o ideal buscado, com o que pensa que os outros esperam dele. O resto, as fraquezas, as tendências obscuras, os fragmentos dos quais está menos orgulhoso, ficam trancados para sempre nas margens da consciência. Eles são recusados e negados. Desse modo, a chaga secreta que está fermentando, supurando e contaminando a vida nunca é reconhecida, nunca vem à luz. A perfeição, humilhada pelo pecado e pelas fraquezas, tende a fechar a pessoa sobre si, e fechá-la para Deus e para os outros. O amor desaparece. O perfeccionista tende a voltar-se sobre si, tornando-se seu próprio juiz e auto-condenando-se. Após certo tempo de luta sua vida pode tornar-se amargurada, amargurada consigo, com Deus, com os outros, com tudo.
A perfeição visa à própria pessoa; ela própria estabelece seus ideais e seus degraus, se mede e se compara, calcula e avalia. Suas quedas e falhas, visto que não têm um referencial fora de sim, são amargas, entristecem, levam ao desânimo e à auto-condenação.
A perfeição dialoga com um código de normas e de exigências, dialoga com a lei. Esse código é, não raro, elaborado sob o peso do constrangimento de uma consciência culpada ou aterrorizada que fixa rigidamente as balizas de uma estrada fora da qual não se pode dar um passo sem que a auto-imagem se esfacele em sentimentos de fracasso irremediável.
A perfeição não justifica nem salva o homem. É Jesus que no-lo diz na parábola do fariseu e do Publicano que vão ao templo para rezar. Esta pequenina parábola teve o efeito de uma bomba atômica para a sociedade religiosa judaica, porque nela Jesus coloca tudo de pernas para o ar, inverte toda a concepção de justificação e salvação tranquilamente aceita por todos, em todos os segmentos sociais. Todos estavam convictos de que as pessoas agradáveis a Deus, que estavam justificadas, eram os fariseus, fanáticos cumpridores da lei. Jesus afirma o oposto, esse homem não saiu do
templo justificado. Sua pretensa perfeição no cumprimento da lei, o leva a um grande orgulho "não sou como os demais homens", ao desprezo dos outros, ao fechamento do coração para o amor, a prescindir de Deus, a pensar que se salva pelo próprio esforço, a exigir recompensa de Deus, Jesus afirma sem rodeios, tal homem não está justificado, a perfeição não justifica o homem.
O Publicano sim, sai do templo justificado, está a caminho da salvação. O Publicano capitula diante de Deus: reconheceu seu pecado e sua condição de pecador, reconhece sua incapacidade de salvar-se por si mesmo, abre-se para um outro, abre-se para Deus de quem espera o perdão e a salvação. Esta humildade é a porta de abertura para sair de um mundo enclausurado em si mesmo, um mundo auto-suficiente e tenebroso, onde tudo gira em torno do próprio eu, onde não há lugar para o Outro e os outros, onde não há salvação possível.
A compaixão e a misericórdia são os mais característicos atributos divinos na teologia de Israel. Lucas nos convida, portanto, a imitar uma maneira de ser que é, antes de mais nada, a de Deus. Mostrando-se misericordiosos os discípulos de Jesus se assemelham ao exemplo que Deus nos dá. A atenção aqui está voltada para a visão dos sentimentos da misericórdia de Deus para com seus filhos, na sua solicitude para com os pecadores e os mais desamparados e necessitados. A conduta do homem deve se regular, deve imitar a conduta de Deus.
O versículo 6,36 conclui de modo natural a instrução sobre o amor aos inimigos. Lucas começa com uma recomendação: v. 27 "Amai os vossos inimigos..." Esta recomendação é reforçada por uma primeira consideração em forma negativa: "não imiteis os pagãos e os publicanos que só amam aqueles que os amam" (v.32). Finalmente uma segunda consideração em forma positiva convida a imitar a Deus: "mostrai-vos como filhos do Altíssimo.... e sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso".
Os exegetas nos asseguram que esta versão de Lucas reflete, mais exatamente que Mateus, o pensamento de Jesus, que nos convida a assemelhar-nos a seu Pai reproduzindo em nossas vidas os sentimentos de compaixão e misericórdia que ele tem para com os homens. Por meio dessa conduta com os irmãos aderimos a Deus, reforça-se nosso vínculo de pertença a Ele e, nesse sentido, somos santos como Ele é santo.
O tema da santidade, por conseguinte, deve ser reconduzido à interpretação que Jesus dá da misericórdia de Deus e ao que, de tal imagem paterna deriva, como norma e caminho para a conduta do homem e sua pertença a Deus.
Em vez de optarmos pela perfeição, podemos optar pela santidade e santidade está relacionada com compaixão, com misericórdia, com amor, com esse convite que Deus nos faz: "Sede santos porque Eu sou santo". Deus é amor e nisso consiste a santidade de Deus. Trata-se, pois de abrir-se para o amor, dentro mesmo dessa nossa realidade de criaturas limitadas, frágeis, pecadoras, vasos de barro como diz São Paulo. Ora, essa capacidade de amar nos é dada por Deus, é um dom de Deus.
A santidade, portanto me é dada por Deus e me é dada agora, imediatamente: sou amado por Deus, sem condições, agora, com todas as minhas imperfeições, pecados, fraquezas, debilidades, limitações, traumas.... e esse amor de Deus sem condições, me torna capaz de amar agora, e fazer o bem agora, de servir agora, de ser santo agora, apesar de minhas imperfeições e fraquezas. A grande ilusão é pensar que só poderemos amar, servir, fazer o bem quando formos perfeitos. Somos santos agora e devemos amar agora embora sejamos também pecadores: somos uma Igreja pecadora e santa.
A santidade nunca é humilhada pelo pecado, porque a santidade é humilde. Somos humilhados quando pensamos ser alguém, quando nos colocamos num pedestal, quando nos julgamos melhores do que os outros.... somos humildes quando aceitamos ser pobres, ser frágeis, limitados, pecadores, mas amados na nossa pobreza e fragilidade.
A santidade é recusa de deixar-se fechar no próprio pecado, é a capacidade de ultrapassar as próprias condenações porque um Outro nos acolhe e nos ama apesar de nosso pecado. A superação da auto-condenação está na entrega da vida a Deus, em saber-se amado como pecador porque pecadores seremos sempre até o fim da vida. Santidade é a certeza de não podermos salvar-nos a nós mesmos e acolher, na ação de graças, uma salvação que nos é oferecida gratuitamente por Deus que nos ama. A santidade nunca leva ao fechamento, antes se abre para Deus acolhendo sempre o seu perdão e abre-se para os outros no amor, no serviço e no dom. Santidade é a recusa de ser o seu próprio juiz, deixando o juízo para Alguém que nos ama e vela por nós com amor. A santidade liberta, é confiante, é alegre; leva-nos a passar da recusa e condenação de nós mesmos e dos outros para descoberta de nós e dos outros.
Se a perfeição era colocada em termos de uma subida laboriosa de uma escada, a santidade pode ser também representada por esse símbolo da escada, somente que se trata agora de uma descida progressiva a caminho de uma radical humildade. De fato, se meditarmos atentamente o evangelho, encontramos Jesus convidando continuamente seus discípulos a uma descida: quem quiser ser o primeiro, seja o último, o servidor de todos; quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado; se não vos tornardes como crianças não entrareis no Reino; felizes os pobres porque deles é o Reino...
Trata-se de um esvaziar-se progressivo de toda auto-suficiência e orgulho, de toda ambição de riquezas, de prestígio e projeção, de poder de dominação e opressão, no seguimento do Filho de Deus que "esvaziou-se a si mesmo tomando nossa condição humana." O orgulho fecha o homem sobre si e o impede de amar, de ser santo. A humildade é o reconhecimento pacífico da própria condição de criatura pecadora e frágil, mas amada por Deus, é a porta para a santidade, isto é para poder amar os irmãos e irmãs pecadores e frágeis como somos amados embora pecadores e frágeis.
Permanecer aí, no fundo do templo, como o Publicano da parábola, reconhecendo a própria pobreza, numa súplica permanente: "tem piedade de mim, Senhor, porque sou um pecador", celebrando a misericórdia de Deus para com todos os homens, é tornar-se vulnerável à dor, ao sofrimento, à falta de vida e de sentido de muitos irmãos no mundo, é começar a ter compaixão, misericórdia, é começar a amar, é caminhar para a santidade: "sede santos porque eu sou santo".
Contrariamente à perfeição que dialoga com um código, a santidade dialoga com Alguém, com o Pai, com Cristo, construindo-se nesse lugar privilegiado de liberdade aberta ao sopro do Espírito. O santo nunca se julga alguém infalível, antes é pobre e aceita ser fraco.
Contrariamente ao perfeccionista que pensa só poder ser amado se for digno, o santo aceita ser amado na indignidade, acolhe um amor que lhe é oferecido gratuitamente. Consequentemente não espera que os outros sejam dignos de seu amor para amá-los. Procura amá-los como Deus nos ama: é o amor gratuito que cria as condições de uma resposta.
Finalmente santidade é um combate, um afrontamento. Não é no fim da vida que se chega a santidade. Ela deve aparecer e aparece, de fato, em cada instante que passa, em cada pequeno ato de amor, de bondade, de compaixão, de abertura e acolhida do outro. Santidade não é um resultado que possa ser contabilizado, é antes uma tendência, uma superação diária, um esvaziamento progressivo de si. Santidade é um caminhar: um passo depois do outro.
Os autores do Novo Testamento e seus sucessores imediatos quando escreviam sobre o que chamamos "perfeição espiritual", ou "perfeição da vida cristã", queriam significar algo próximo do que chamamos "maturidade". Ora, só se amadurece usando tempo e experiência para aprender. O ponto crucial dessa aprendizagem é saber ouvir, é ter um ouvido atento primeiramente ao evangelho, ouvindo Jesus que chama para segui-lo; em segundo lugar à tradição: o seguimento de Jesus ao longo dos séculos e finalmente, em terceiro lugar, ao próprio coração, isto é, à própria experiência como ser humano.
Nossa vida humana e espiritual avança não tanto através de cortes, de saltos bruscos, mas de um processo, com freqüência imperceptível aos nossos próprios olhos: quando nos damos conta, algo está mudado dentro de nós. Cotejando a experiência de muitas pessoas em sua caminhada espiritual, podemos descobrir um processo evolutivo que existencialmente poderíamos descrever como uma trajetória não igual para todos, mas com certas semelhanças.
As primeiras etapas na vida espiritual costumam caracterizar-se pela experiência de uma forte atração de Deus sobre a pessoa e pela presença de grandes consolações espirituais. Diante de tal generosidade divina, a pessoa, sobretudo se é jovem, sente-se desafiada em sua generosidade e deseja responder a tanto amor recebido gratuitamente: "Se Deus é generoso comigo, devo ser generoso para com Deus.". Esta generosidade primeira é frequentemente interpretada em termos de perfeição: devo eliminar vícios, falhas, fraquezas, pecados... para responder e agradar a Deus.
O jovem lança-se então a subir a escada da perfeição, num esforço louvável e tenaz, mas nesse esforço conta muito consigo e pouco com Deus: confia em si, na sua generosidade, no seu esforço, no seu idealismo, na sua força de vontade. Nessa tentativa mescla-se uma forte dose de vontade de poder e, sobretudo, um orgulho subtil, que na sua subtileza não é percebido. Esta fase do esforço voluntarista centrado em si pode ter a duração de oito a quinze anos, dependendo do nível de profundidade da oração pessoal.
Em seguida, a pessoa começa a perceber pouco a pouco que estacionou, que não avança mais, que o carro não consegue mais subir a ladeira da perfeição, está derrapando. Entra-se progressivamente numa série de crises, de falhas, de quedas que aparecem sobretudo como fracassos no ideal proposto. Há uma sensação vaga de que os fundamentos da casa estão abalados. Problemas inconscientes não suficientemente trabalhados anteriormente, emergem agora com violência, exigindo gratificações. A experiência concreta se manifesta no aparecimento de paixões de todos os tipos que a pessoa julgava já ter domado definitivamente no passado: agora se reanimam subitamente com força redobrada e experimenta-se a própria pobreza e fraqueza. Aos poucos chega-se a uma verificação: não só os fundamentos da casa estão abalados, a casa toda está em ruínas, "estava construída sobre a areia".
Há um período de angústia profunda, que não pode ser evitado, uma sensação de cansaço na luta, de não saber por onde recomeçar porque a pessoa sabe que não pode mais fazer uso do dinamismo gasto de sua vontade: a garra, o fogo, o idealismo da juventude, que acreditava superar tudo com a força de vontade, esgotou-se, acabou. E então?
Há duas saídas possíveis para esta crise: uma é a do desânimo e do abandono: “a santidade não é para mim". Outra é a busca de uma saída em Deus: voltar-se para uma oração simples, de súplica humilde: "tem compaixão de mim, Senhor, porque sou um pecador", "do fundo do abismo clamo por ti, Senhor", "mais do que o vigia, espero pela aurora"... esperando a iniciativa de Deus. Trata-se agora de iniciar a descida da escada rumo à humildade radical. A verificação da própria indigência já é o início dessa descida, uma descida cheia de esperança, expectativa e confiança no amor, na graça, na salvação que vem de Deus. "O Senhor está próximo de todos os que o invocam, dos que o invocam na verdade". A súplica que brota do reconhecimento da própria pobreza, é sempre verdadeira. O lugar mesmo onde a busca da perfeição fracassa, pode ser o ponto de partida da estrada da santidade.
De um lado a busca, o esforço humano, a vida ascética, de outro a graça, o dom de Deus, o amor gratuito e transformante, a vida mística: atividade e passividade. Estas duas dimensões estão presentes em nossa experiência espiritual, mas em equilíbrio instável: por vezes nos perguntamos se não estamos contando unicamente com nosso esforço, nosso compromisso, nossa força de vontade e esperando pouco ou nada de Deus; outras vezes teremos a impressão de estarmos esperando tudo de Deus, passivamente, sem nada fazermos para procurá-lo. Gostaríamos de ver com clareza onde estamos e se estamos no caminho certo. Essa clareza nem sempre é possível. O que é possível é continuar avançando, sem ver claro, a partir do ponto aonde chegamos.
Santo Inácio percebe com clareza que a santidade é esse dom de Deus que transforma a criatura e a torna capaz de "em tudo amar e servir". Percebe também que há muitas desordens no ser humano que o impedem de acolher o dom santificador de Deus e por isso vai empenhar-se em fornecer meios e instrumentos para a ordenar a própria vida e assim dispor-se para acolher o dom. Inácio está convencido de que o que transforma e santifica o ser humano é a graça, o dom, o amor de Deus, mas que é necessário uma busca, um esforço, uma ascese de nossa parte, que tem como única finalidade dispor-nos para acolher o dom e não conquistar, merecer a graça. O dom é gratuito, está à nossa disposição, mas há indisposições que Inácio vai chamar com
vários nomes: cobiça de riquezas, honra vã do mundo, soberba, amor próprio, sensualidade, amor carnal e mundano, afeições desordenadas, pecados... Tudo isto está em nós e nos atrapalha, cria obstáculos à acolhida do dom de Deus.
Os Exercícios Espirituais são conhecidos como uma experiência em que a busca generosa de ordenação da própria vida, no horizonte de Jesus Cristo, abre para a acolhida do dom transformante de Deus e consequentemente para a santidade, isto é para em tudo amar e servir. "Cada qual esteja convencido de que tanto mais progredirá em todas as coisas espirituais, quanto mais sair de seu amor próprio, querer e interesse" (EE 189). Esse sair do amor próprio, do próprio querer e interesse tem como objetivo acolher um outro amor, um outro querer, isto é, a vontade de Deus, e um outro interesse, a saber, os interesses do Reino e dos outros. Esse sair implica uma missão: somos enviados e revestidos de uma capacidade de amar que não vem de nós, porque somos e seremos sempre vasos de argila, vasos de barro bem frágeis e quebradiços, mas dentro desse barro carregamos um tesouro, o amor de Deus derramado em nossos corações. Esse amor nos santifica, nos torna capazes de realmente "em tudo amar e servir".
Terminemos com uma página de rara beleza sobre a pureza do coração e consequentemente sobre a santidade, que se encontra no livro Sabedoria de um pobre, de Elói Leclerc (Editorial Franciscana, Braga, 1975, pp. 137-140).
"...Depois de um momento de silêncio, Francisco perguntou a Leão: Irmão, sabes acaso o que é a pureza de coração?
- É não termos falta alguma de que nos acusemos, respondeu Leão sem hesitar.
- Então compreendo a tua tristeza, disse Francisco, porque temos sempre alguma coisa de que nos acusar.
- Sim, concordou Leão, e é precisamente isso que faz com que eu perca a esperança de chegar um dia à pureza de coração. Ah! Frei Leão, acredita-me, retorquiu Francisco, não te preocupes tanto com a pureza de tua alma. Volta o olhar para Deus. Regozija-te por Ele ser todo santidade. Dá-lhe graças por causa dele mesmo. Isso é que é irmãozinho, ter o coração puro. E quando estiveres voltado para Deus, não voltes a debruçar-te sobre ti. Não perguntes a ti próprio em que ponto estás em relação a Deus. A tristeza de não sermos perfeitos, de nos descobrirmos pecadores é, ainda, um sentimento humano, demasiadamente humano. É preciso que eleves o teu olhar mais alto, muito mais alto. Há Deus, a imensidade de Deus e o seu inalterável esplendor. O coração puro é aquele que não cessa de adorar o Senhor vivo e verdadeiro; o que toma um interesse profundo pela própria vida de Deus e é capaz, no meio de todas as suas misérias, de vibrar com a eterna inocência e a eterna alegria de Deus. Semelhante coração é, a um tempo, despojado e cumulado. Basta-lhe que Deus seja Deus. É mesmo nisso que ele encontra toda a sua paz, todo o seu amor. E então, é o próprio Deus que é toda a sua santidade.
- Deus, no entanto, exige o nosso esforço e a nossa fidelidade, observou Leão.
- Sim, sem dúvida, respondeu Francisco. Mas a santidade não é uma realização do nosso eu, nem uma plenitude que nos damos a nós mesmos. Acima de tudo ela é um vazio que descobrimos em nós, que aceitamos e que Deus vem encher na medida em que nos abrimos à sua plenitude. O nosso nada, compreendes, quando é aceito,
transforma-se no espaço vazio onde Deus pode, ainda, criar. O Senhor não deixa que ninguém lhe roube a sua glória. Ele é o Senhor, o único, o Santo. Toma, porém, o pobre pela mão, tira-o da lama e fá-lo sentar no meio dos príncipes do seu povo a fim de que ele veja a sua glória. Deus torna-se, então o céu da sua alma.
- Contemplar a glória de Deus, Frei Leão, descobrir que Deus é Deus, eternamente Deus para além do que nós somos ou possamos ser, alegrar-se, em cheio, com aquilo que Ele é, extasiar-se diante de sua eterna juventude e dar-lhe graças por causa da sua indefectível misericórdia, eis a exigência mais profunda desse amor que o espírito do Senhor não cessa de derramar em nossos corações. Ter o coração puro é isto. Mas esta pureza não se obtém à força de punhos e de tensão.
Que fazer para a alcançar? perguntou Leão.
Basta simplesmente nada guardar para si. Nem sequer essa percepção aguda da nossa miséria. Desprender-se de tudo. Aceitar ser pobre. Renunciar a tudo o que é pesado, inclusive ao peso das nossas faltas. Já não ver senão a glória do Senhor e deixar-se iluminar por ela. Deus é, isto basta. O coração como a cotovia ébria de espaço e de azul abandonou todo e qualquer cuidado, toda e qualquer inquietação. O seu desejo de perfeição mudou-se num simples e puro querer de Deus.
Leão escutava com ar grave, enquanto ia caminhando adiante de seu pai. Porém, à medida que avançava, sentia que o coração se lhe tornava leve e que uma grande paz o invadia.".
O Pe. Netto foi Mestre de Noviços, assessor da CRB e da CLAR e Diretor do CEI-Itaici. Atualmente, dedica-se à orientação espiritual dos estudantes jesuítas, em Belo Horizonte. No presente artigo, contrapõe o conceito de santidade ao de "perfeição", no sentido que esta palavra tem "aos nossos ouvidos, hoje". Surpreendente, talvez, para alguns, o artigo será de muito proveito para todos.
Pe. José Antonio Netto de Oliveira, s.j.
(Publicado em ITAICI - Revista de Espiritualidade Inaciana - dezembro/94) Com permissão do autor)
Imagem: pexels.com
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