
Senhor, dai-me a inocência dos animais
Para que eu possa beber nesta manhã
A harmonia e a força das coisas naturais.
Apagai a máscara vazia e vã
De humanidade,
Apagai a vaidade,
Para que eu me perca e me dissolva
Na perfeição da manhã
E para que o vento me devolva
A parte de mim que vive
À beira dum jardim que só eu tive.
Sophia de Mello Breyner Andresen
imagem: pexels.com

IN MEMORIAM
Esses mortos difíceis
que não acabam de morrer
dentro de nós; o sorriso
de fotografia,
a carícia suspensa, as folhas
dos estios persistindo
na poeira; difíceis;
o suor dos cavalos, o sorriso,
como já disse, nos lábios,
nas folhas dos livros;
não acabam de morrer;
tão difíceis, os amigos.
Eugenio de Andrade
De Ofício de Paciência (1994)
Cruzaram-se como estranhos,
sem um gesto, uma palavra,
ela indo em direção à loja,
ele para o carro.
Talvez por pânico
ou por distração,
ou por deslembrança
de que por um breve tempo
amaram-se para sempre.
Não há garantia, aliás,
de que fossem eles.
Talvez de longe sim,
mas de perto de jeito nenhum.
Eu os avistei da janela,
e quem olha do alto
é quem mais facilmente se engana.
Ela sumiu atrás de uma porta de vidro
ele sentou-se ao volante
e partiu depressa.
Portanto, nada aconteceu
mesmo que tenha acontecido.
E eu, só por um instante
certa do que vi,
procuro agora num poeminha casual
persuadi-los, caros leitores,
de que isso foi triste.
Wislawa Szymborska
Todos os poemas:
in Para o meu coração num domingo

[TENHO CHORADO]
tenho chorado
no meio da rua
dentro do carro
ao telefone
com estranhos
falo em voz alta
do luto
da falta
o coração despedaçado
à espera de uma palavra
que conforte
que nunca é
o suficiente
todas as águas
vivas
correm
se atormentam
dentro de mim
queimam
Marina Rabelo

Lapinha




O MUNDO
o único lugar confortável no mundo
é o amor
depois que os espinhos
são retirados da pele
esse é o nome
de quase tudo
Déborah de Paula Souza
Todos os poemas:
in Vermelho vivo
Laranja Original, São Paulo, 2021

254
“Esperança” é a coisa com plumas —
Que na alma se aninha —
Seu canto não tem palavras —
Sempre a mesma — ladainha —
Soa bem — na ventania —
E só a forte tormenta —
Há de calar a Passarinha
Que a tantos acalenta —
Ouvi-a na terra mais fria —
E no estranho Mar sem fim —
Mas — nem em situações extremas
Pediu migalhas — pra Mim.
Emily Dickinson
Todos os poemas:
in Poesia Completa – Volume I: Os Fascículos
Tradução, notas e posfácio: Adalberto Müller
Prefácio à edição brasileira: Cristanne Miller
Editora UnB, Brasília, 2020

O MUNDO
o único lugar confortável no mundo
é o amor
depois que os espinhos
são retirados da pele
esse é o nome
de quase tudo
Déborah de Paula Souza
• Todos os poemas:
in Vermelho vivo
Laranja Original, São Paulo, 2021

I (2)
Abandonei o tempo dos limites.
É do infinito que a alma mais tem fome.
A vida tece a urdidura do avesso
E é de loucura que o corpo se sacia.
Minha paixão não teme estes abismos.
O que se busca é nesta névoa que se oculta.
Luíza Mendes Furia
In Vênus em Escorpião - Patuá, São Paulo, 2016






Nós nos abraçamos.
Eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos do tempo e de nossa
Permanente amizade. Todo o resto
Seria amargo demais.
Autor: Bertolt Brecht (1898-1956)
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