
Em 2019, durante a minha estadia na França, soube que Edgar Morin vivia em Montpellier, onde eu estava fazendo meu doutorado sanduíche. Essa descoberta me fez procurar por vários dias eventuais palestras e cursos dele na cidade. As buscas me levaram a um curso de quatro encontros para poucas pessoas que ele iria ministrar na Universidade de Montpellier. Infelizmente, as inscrições já haviam se encerrado. Inconformado e, com algum atrevimento, apareci no local do curso no dia e horário da primeira aula!
Enquanto esperava o elevador, observei um senhor saindo da porta de trás de um carro do lado de fora do prédio. Em seguida, ele se dirigiu até onde eu estava e entramos juntos no elevador. Cumprimentamo-nos e ele perguntou sobre a localização de uma sala. Respondi que não sabia, era a minha primeira vez naquela faculdade e eu estava procurando a sala onde seria o curso de Edgar Morin. Ele respondeu:
- Eu também! Prazer, Edgar! Então, vamos descobrir juntos!
Fiquei alguns segundos sem reação. Estava diante de um dos maiores pensadores dos nossos tempos! Autor de Cultura de Massas do Século XX, obra que li nos primeiros semestres do curso de Jornalismo, e da teoria da complexidade, que havia estudado no mestrado. Lembro que só consegui dizer: prazer, Marco.
Encontramos a sala rapidamente. Edgar foi recebido por algumas pessoas. Já eu, sem inscrição, expliquei a situação à professora responsável pela organização. Ela lamentou, disse que houve muita procura, que o espaço era pequeno (de fato, era um curso para não mais que 30 pessoas). Percebendo a minha decepção, mudou de ideia.
- Pode entrar, se eu estivesse no seu lugar, faria o mesmo!
Acompanhei entusiasmado os quatro encontros do curso de Edgard Morin da primeira fileira. Com 97 anos, ele esbanjava lucidez, conhecimento e sabedoria. Falou sobre a sua vida, dos períodos em que sofreu perseguição política, da sua participação na Resistência contra a ocupação nazista na França, da sua carreira e de como havia formulado os principais conceitos e teorias. Chamou-me particularmente a atenção sua honestidade intelectual: sempre quando explicava um conceito/ uma teoria, ele relatava a sua trajetória até a sua elaboração. “Isso aqui, eu busquei no Barthes, depois trouxe a contribuição de...”, - contava. A sua simpatia e humildade também foram marcantes. Nos intervalos, vez ou outra ele puxava conversa. Disse que já tinha vindo ao Brasil várias vezes, que gostava do nosso país e que por aqui tinha amigos.
Em um dos dias, tiramos uma foto e cheguei a pegar seu contato para agendarmos uma entrevista em Montpellier. Infelizmente, devido ao pouco tempo que dispunha na França e a complicações na sua saúde, não foi possível.
De Edgar ficam essas boas lembranças e, principalmente, a imensa obra que ele deixou e que temos o privilégio de ler, explorar e aprender.
Obrigado por tudo, Edgar! Foi um prazer!
Dr. Marco Túlio de Sousa
Professor do Mestrado Profissional em Comunicação do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp)

Edgar Morin (sentado) e Marco Túlio (em pé)


