
Se levarmos em conta a raridade com que essa expressão aparece no que é escrito sobre os assuntos humanos, seremos levados a ver nela apenas um sentimento de breve duração, quase nada indicativo de uma vivência humana. Com alguma timidez, estamos nos debruçando, de algum tempo para cá, sobre uma parenta da alegria, a felicidade. Felicidade, dizem, pode ser medida, decorre de certos fatores objetivos. Alegria não, apesar de ser real, é fugaz demais para que possa merecer nossa atenção. É o costume habitual, tendemos tomar como inexistente o que não conseguimos compreender.
Alegria talvez seja como o tempo para Agostinho, sabemos o que é, desde que não sejamos perguntados. Talvez a poesia possa nos ajudar. Emily Dickinson diz que “Alegria é um vento que nos levanta do piso e nos deixa em outra parte, um lugar em desaviso.” A alegria pode ser pessoal, um bem conquistado, uma fronteira atravessada. Pode ser coletiva, a vitória do nosso time, uma medida política que torne a vida comum mais humana.
Parece também que o júbilo que acompanha a alegria impede que ela se encerre em nós mesmos, transborda de nosso recato.
Se caminharmos um pouco mais, talvez possamos dizer que a alegria é tão mais intensa quando ela, passando por nós, não fica contida no nosso horizonte mais habitual, quando ela traz até nós algum excesso que, pela intensidade ou pela desatenção, tenha nos escapado. Não é verdade que nos sentimos mais em casa quando afrouxamos os laços que nos prendem a nós mesmos? Não é esse o trabalho da cultura na diversidade de suas formas?
Arte, ciência, filosofia, religião são formas distintas e equivalentes que, revelando nossos limites pessoais, lembram que a chegada a nós mesmos nunca é imediata e que o caminho mais longo é o que nos conduz mais rapidamente para quem somos.
Esqueci o título acima, esqueci a alegria? Não, até arrisco, não uma definição, mas um princípio de conversa. Alegria, alegria mesmo, talvez dependa de mantermos nossa casa, nós mesmos, abertos à visitação daquilo que somos,daquilo que, sendo nosso, insistimos no falso conforto de desconhecer. .
Ricardo Fenati
Equipe do Centro Loyola
19.06.2026


