Livro: Âncoras no céu: a infraestrutura metafísica

Autor: Rémi Brague

Edições Loyola 2013

 

Amar viver / amar a vida

Se você está à procura de uma leitura para julho e se interessa pelos dilemas da sociedade contemporânea, esses que nunca estiveram no nosso radar mais imediato e que, agora, nos interrogam de perto, dê uma olhada em Âncoras no Céu, (Rémi Brague, ed. Loyola, São Paulo, 2013) Trata-se de um livro de filosofia, mas sendo o caso, você pode deixar os capítulos iniciais e começar lá pelo capítulo V. Ou, se preferir, leia todo o livro.

A distinção entre amar viver e amar a vida, analisada no livro e que acompanho aqui, é bem reveladora do cenário contemporâneo. As duas expressões parecem próximas, mas não o são; pelo contrário, assinalam decisões e caminhos  opostos.

Quando se diz amar viver, quase sempre estamos nos referindo à nossa própria vida, ao seu usufruto, à busca de novas condições capazes de beneficiar a nós mesmos. Mais conforto, carros melhores, viagens múltiplas, cuidado constante para contornar ou negar a marcha de nossa corporalidade, enfim, dedicar-se ao que nos parece um direito individual inquestionável. Mais academias, mais shoppings. Sendo essa a perspectiva, qualquer restrição deve ser combatida

Mas se dizemos amar a vida já não estamos nos referindo a nós mesmos, falamos da vida de forma abrangente, daquilo que vale não porque contempla nossos interesses pessoais, mas que tem valor em si mesmo e é, portanto, mais universal. Um exemplo seria o nosso compromisso para com as gerações vindouras, as que aqui estarão quando nós não estivermos. Afora a importância da questão ecológica, mais falada do que enfrentada, não se deve colocar, de mais um ângulo, a questão das gerações futuras?

Certamente que são muitos os casos, todos respeitáveis na sua singularidade, mas quando uma tendência se torna majoritária, quando um padrão se impõe de forma mais generalizada, há algo a pensar. Não é esse o caso da queda da taxa de nascimentos, sobretudo ainda na Europa, e da preferência crescente dos casais por não ter filhos? Dado o cuidado necessário com as novas gerações, encargos e sacrifícios são inevitáveis e redirecionam nossas vidas. Ora, amar a vida, contrariamente a amar viver, se opõe a essa recusa,  tão acentuada e historicamente inédita, a transmitir e legar o que recebemos. Se amamos a vida, mais que amar viver, não se segue daí o valor da propagação da vida em favor das gerações vindouras, ainda que a isso estejam associadas condutas tão avessas aos tempos atuais?

Ricardo Fenati

Equipe do Centro Loyola