
Quando penso nas maravilhosas telas monocromáticas de Lucio Fontana, com aqueles cortes precisos praticados com o cutelo, não consigo deixar de recordar que o pintor começou a trabalhar daquele modo quando tinha quase 60 anos.
A escuta da nossa alma é, frequentemente, mais longa e lenta do que supomos, e não é de maneira imediata que conseguimos exprimi-lo. É também verdade, porém, que nunca é tarde demais para encontrar a sua linguagem pessoal e profunda.
Gosto muito do subtítulo que Fontana dá a estas obras com os cortes: chamou-lhes Espera. É uma palavra justa para explicar aquelas cesuras que ocorrem fora e dentro de nós.
E certamente esse nome constitui um modo sábio de compreender que também as feridas, as lacerações e os golpes são, no fim de contas, linhas em movimento que nos conectam com a expetativa pulsante da própria vida.
A espera não é representada, na arte de Fontana, como um acrescento, nem através de uma qualquer tipologia ornamental. Ao contrário: é na superfície nua, neste esforço de redução ao núcleo essencial de uma só cor que a espera se desenha, então, como uma fissura, uma hipótese de passagem.
E, para concluir, um último elemento curioso: por trás das telas, o artista escreve frases que fazem parte da obra, mas que nós não vemos. Numa delas anotou: «É um belíssimo dia de maio».

Hoje não são unicamente os mercados financeiros ou a política com os seus ciclos trepidantes a recorrer à terminologia da crise. Na nossa própria vida (pela meia-idade, ou para além desta etapa), damo-nos conta de que avançamos de crise em crise.
São as grandes crises – quando a percepção de uma devastadora insegurança vital nos induz a colocar tudo em questão – ou as pequenas, das quais temos de nos ocupar no dia a dia.
Por muito que nos custe admiti-lo, as crises podem ensinar-nos alguma coisa, podem ajudar-nos a entrar numa dimensão mais autêntica da existência, ainda que saibamos que comportam o risco de nos lançar para turbulências para as quais não estávamos preparados.
Precisamente por este motivo, a crise é, por definição, um momento de sofrimento. Todavia, à maneira de um parto, ela pode representar a ocasião para compreender que o tempo não é um dispositivo trágico sem redenção, mas que, atravessado pela graça de Deus, o tempo é aberto e reversível.
A vida não é sem remédio: a vida está dentro de um processo contínuo, em gestação, num constante reinício. Existe sempre uma oportunidade de salvação, qualquer que seja a etapa do caminho.
Num mundo sem rituais, e que nos aprofunda numa inválida pobreza simbólica, são as crises, muitas vezes, que marcam a possibilidade de um reencontro com as interrogações mais sérias da vida.

Não sei o que nos aconteceu como civilização, mas a verdade é que as boas notícias nos embaraçam e entediam, ao ponto de quase evitarmos falar delas, enquanto que as más provocam uma curiosidade viral, uma excitação, um interesse redobrado.
Não há patologia pior do que este emurchecer da alma, deste olhar repleto de preconceitos que depois se faz amargo, deste juízo que se deixa capturar pelo defeito e pelo peso da imperfeição, e depois não voa, ignorando o que é a ligeireza.
Não há exercício mais esterilizador do que esta espécie de ressentimento expresso como anátema em relação à vida, do que este totalitarismo da lamúria que, sem nos apercebermos, nos asfixia, do que esta incapacidade de romper com a engrenagem do maldizer tudo e todos, ao qual nem nós escapamos.
E todavia, reconhecer o bem, procurá-lo obstinadamente e construí-lo a cada dia é a nossa vocação primordial. Dar notícia do bem e divulgá-lo realiza a nossa missão de fidelidade à vida.
Só assim se desperta a consciência de que cada ser humano é portador autorizado da imagem e semelhança de Deus. E só este é o modo de fazer justiça a esse extraordinário milagre que é estar vivo.
Colocamos demasiadamente o acento na compreensão racional, mas a razão só por si é clamorosamente insuficiente para interpretar a existência. A razão precisa, muitas vezes, de ser completada pela ordem do coração.

O místico medieval Ricardo de São Vítor escreveu: «Onde está o amor, aí há um olhar». Não raro, este olhar que o amor nos requer dá-se no contexto de um sofrimento que teríamos absolutamente preferido não viver, mas da qual aprendemos alguma coisa – e alguma coisa de belíssimo – a que, sem ela, não teríamos chegado.
O mundo da dor é vasto e, quando menos o esperamos, encontramo-nos a habitá-lo. Os sentimentos que então irrompem são muitos: recusamo-nos a aceitar, entramos em revolta, em depressão; gostaríamos de fugir para longe; perguntamo-nos “porquê?”, “porquê precisamente a mim?”, “porquê precisamente agora?”; sentimo-nos impreparados para uma travessia muito árdua.
E, pelo menos neste último ponto, temos razão. O nosso tempo fez da doença, da velhice da deficiência um verdadeiro tabu. Vigora uma espécie de interdito em relação à vida vulnerável: cada um tem de viver estas situações em estreita solidão, sem grandes ajudas para aprofundar a sua experiência como um recurso, e não como uma fatalidade. No entanto, a verdade é bem diferente deste desígnio traçado pelo egoísmo ou pelo medo.
Escutava há alguns dias um pai falar do seu filho com síndrome de Down, Dizia, sem esconder a sua comoção: «Este meu filho é um membro importante da nossa família. É o nosso ponto de união. Fez de nós pessoas diferentes, mais humanas e atentas aos outros. Alargou a nossa capacidade de amar».

Sobre esta hora, Rilke foi mais longe que todos os evangelhos canônicos e disse que a mãe ao pé do sepulcro ficou “imóvel como o interior da pedra ficou imóvel”. Em qualquer outra hora, essa mãe poderia ser da glória, da esperança, dos remédios, dos milagres, do bom conselho, da boa morte. Nesta hora, não. Nesta hora, ela é da solidão, mãe das mães silenciosas que alguma vez em suas vidas também ficaram imóveis, cada uma com o nome do seu filho suspenso nos lábios, suportando duramente tudo o que jaz dentro da pedra junto com um filho, mundos possíveis, amigos, safras de milhares de momentos, elos ardentes no tempo, amores de Madalenas que nem saberão dessa perda, só talvez, de vez em quando, sintam um estranho aperto no peito, felicidades grandes e pequenas, o inimaginável, o imprevisível, poemas. Nesta hora, a mãe está desamparada. Ela, de quem se espera auxílio, compreensão, paz, misericórdia. Desamparada, ausente da música das coisas e das águas, sem pés e sem mãos, na desolação de todos os possíveis, ela, de quem se espera que console, que proteja, que socorra, que conceda graças. Que esperem. Que vigiem. Cuidem dessa mãe, agora desprotegida, desarvorada de cuidados. Cantem para ela, neste dia de pedra, como um carinho de filho, um caminho de flauta, o roçar de uma folha. Pensem nessa mãe imóvel.
Mariana Ianelli

É paradoxal e sugestivo, e como poderia não o ser?, o modo como os Evangelhos narram a ressurreição. Desconcerta que nos discípulos não haja o crer imediato, que não tomem em consideração as provas irrefutáveis apresentadas, ou não considerem como inabaláveis as primeiras testemunhas.
A notícia da ressurreição é vivida antes de tudo com suspeita, desconfiança, temor, distância. A frase de Tomé, «se não vir, não acredito», é, no fundo, a posição de todos.
A notícia circulava em surdina, como uma hipótese inquietante que ainda precisava de ser verificada. Já tinha certamente chegado aos ouvidos dos dois discípulos de Emaús, que ainda assim estavam prontos a deitar tudo para trás das costas e a esquecer apressadamente aquela história.
O anúncio da ressurreição, todavia, cresce. Mesmo sem acreditar nas mulheres, Pedro e João correm ao sepulcro. E João vê o silêncio dos sinais e retira-se. Os dois discípulos em fuga reconhecem Jesus numa estalagem à beira da estrada e regressam a Jerusalém. O Ressuscitado em pessoa vai ao encontro de Pedro e dos discípulos, atravessando as portas que eles tinham fechado. E Jesus estende a mão às dúvidas de Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos».
A pouco e pouco, é em torno àquilo que primeiro tinham declarado impossível, que os discípulos de Jesus se recolhem e vivem.

A maior verdade que és chamado a acreditar é esta: a ressurreição de Jesus. É a maior, a mais delirante, a mais incrível das pretensões cristãs.
Há um Homem, na história, que ressuscita, e que Deus constitui como princípio de um novo destino para a nossa humanidade.
Verdadeiramente Aquele que contemplaste na cruz está vivo e caminha à frente dos seus, Aquele que viste esmagado pelo sofrimento testemunha um amor capaz de vencer a morte Aquele que viste ser deposto no sepulcro deixou vazio o seu sepulcro.
Esta é a notícia que o teu coração esperava como nenhuma outra, mas na qual nem sequer ousavas pensar. Este é o dia, o primeiro dia da tua re-criação em Cristo.
Alegra-te, por isso. Que tu possas rejubilar imensamente. Reveste o teu coração de festa. Compreende que na ressurreição de Cristo está toda a vida que se amplifica, se ilumina.
Compreende que é a tua própria vida que adquire uma outra forma. Sente-te atraído, lançado, projetado para dentro do Mistério Pascal.
Jesus ressuscitou, e agora vive à direita do Pai, como Senhor da História. E Ele, o Vivente, envia o seu Espírito para que tu te tornes o seu Corpo Místico, presença do Ressuscitado no mundo.
Pede-lhe a força de acreditar naquilo que melhor exprime a sua presença: a comunhão, o perdão, a fraternidade, a compaixão, a misericórdia, a bondade, a mansidão, o serviço.

Com a sua vida e a sua morte, Jesus desce para abraçar todos os silêncios, mesmo aqueles abissais, mesmo aqueles mais distantes, e dessa forma redisse a vida como possibilidade de salvação.
Ele abraçou o silêncio dos nossos becos sem saída, daquilo que em nós, ou de nós, é omitido; o silêncio em que as nossas forças desmoronam e nos deixam à mercê do medo e da sombra que nos assediam; esse impreciso e íntimo silêncio que a nós parece, tantas vezes: o silêncio desta inquieta indefinição que somos nós, entre o já e o ainda não.
Ele abraçou este tempo amassado com derrotas e esperanças, este tempo que faz mal como o espinho que permanece depois que a rosa foi cortada, este nosso tempo caracterizado por tempestades que nos rugem furibundas e por naufrágios que nos acometem, prontos a fazerem-nos em pedaços.
Abraçou o silêncio da vida nua, vulnerável, indefesa ou ferida, a vida que nenhuma cidade acolhe, a vida bloqueada pelo arame farpado das fronteiras, impiedosamente votada ao descarte.
Ele abraçou o silêncio de todas as vítimas da história, o silêncio terrificante da injustiça, a lâmina cega da violência, o grito sem voz dos excluídos, o emudecimento dos pobres, o último olhar, imenso e silencioso, que os justos lançam sobre a Terra.
Na verdade, não há ninguém que Jesus não tenha abraçado. É esta a beleza deste silêncio tão grande.

«Depois disto, Jesus, sabendo que tudo estava agora cumprindo, a fim de que se cumprisse a Escritura, disse: “Tenho sede”» (João 19,28).
Quantos acontecimentos dramáticos são sintetizados no rápido advérbio «depois» na abertura do versículo: a angústia que antecede a captura de Jesus, o estranho juízo no qual a sua inocência não foi tida em consideração, a humilhação infligida pelos soldados, a dolorosíssima via da cruz e, para acabar, a própria cruz sobre a qual foi pregado. E «depois» de tudo isto, aquele grito - «tenho sede» - que continua a ecoar.
Noutras vezes, no mesmo Evangelho de João, Jesus foi ao encontro de quantos tinham sede, dizendo: «Quem beber da água que Eu lhe der, não terá mais sede pela eternidade» (4,13); ou: «Se alguém tenha sede, venha a mim!» (7,37).
Mas neste momento, do texto da Paixão é o próprio Jesus que afirma «tenho sede», e a sua declaração nós lemos no tempo presente, como que a explicar-nos que a sede de Jesus é atual e infinita. Aquele que tinha dirigido o seu convite àqueles que têm sede, é agora, Ele próprio, devorado pela sede.
De que tem sede, Jesus? Tem sede de ti, tem sede da tua fé, sede da tua presença, sede do teu sim. Tem sede da sede que tu podes ter de Deus, da falta de verdade que te habita, de um desejo de salvação que subsista em ti – ainda que seja um desejo oculto ou sepultado por feridas e escombros.
Jesus tem sede de dar-te a beber o seu amor.

Hoje há consenso sobre o fato de que os Evangelhos começaram a ser redigidos a partir do relato da Paixão; e que antes de serem constituídos na forma a que chegaram, já existia, como seu embrião, a narrativa da Paixão.
Por isso, quando os primeiros cristãos se reuniam, era para recordar a Paixão do Senhor. Ela é, efetivamente, o núcleo vital de tudo o que diz respeito a Jesus. E é a história que nos funda como cristãos, que nos confere a identidade, que nos faz ser.
Quer estejamos ou não conscientes, nós, cristãos, somos uma consequência da Paixão de Cristo. Disponhamos por isso o nosso coração a acolhê-la uma vez mais.
Pode dar-se o caso de nunca estarmos verdadeiramente confrontados com ela. Talvez nunca a tenhamos ainda considerado uma história especialmente dirigida a cada um de nós.
A Paixão de Jesus atesta a verdade fundamental do seu amor, que não é abstrato ou sem destinatário. É um amor real, que podemos experimentar sempre.
Jesus vive a sua Paixão como um ato de compaixão sem medida a nosso favor. Jesus abraça a nossa condição, a nossa inconsistência, abraça aquilo que em nós nos agrada e que não nos agrada, abraça aquilo que nos entristece ter acontecido ou simplesmente não ter acontecido.
Jesus aceita ser provado em tudo para abraçar tudo em nós: «Eu estive sempre ao vosso lado, nunca estive longe de vós, nunca alguma coisa vos separou do meu amor»

Normalmente, quando nos deslocamos de um ponto para outro conhecemos o motivo. Mas – temos de o reconhecer – uma viagem assim é demasiado curta. Uma viagem que se faz conhecendo os seus motivos não é a viagem.
A verdadeira viagem é aquela que interiormente dura tanto, que já não sabemos porque é que viemos ou porque é que estamos ali. As perguntas sobre aquilo que fazemos deixam de interessar.
Estamos ali, ponto final, e chega. Viemos. Demo-nos. Não são o saber ou a função que definem a vida, mas o próprio ser, a expressão profunda de si, o puro dom, e nada mais.
Escreve Rainer Maria Rilke naquele mapa indispensável que são as “Cartas a um jovem poeta”: «O tempo não é uma medida. Um ano não conta. Dez anos não são nada. Ser pessoa não quer dizer contar, quer dizer crescer, como a árvore que não instiga a sua seiva, que resiste confiante».
A beleza mais fecunda é aquela que não se deixa determinar pelas finalidades provisórias ou pelos utilitarismos de cada ocasião.
Antes, é aquela que, sem instigar a sua seiva, a degusta lentamente, deixando-se impregnar completamente por ela: até àquele horizonte em que já não se distingue o meu do teu, nem se separe o amor do objeto amado, nem o tempo seja dividido em passado, presente ou futuro.
Esta fecunda beleza, experimentá-la-emos unicamente no darmo-nos.
D. José Tolentino Mendonça
In: In Avvenire 9.04.2019

O místico medieval Ricardo de São Vítor escreveu: “Onde há amor há um olhar.” Não raro, esse olhar que o amor nos pede acontece no contexto de um sofrimento que preferíamos absolutamente não viver, mas do qual aprendemos alguma coisa — e alguma coisa preciosa — a que sem ele não chegaríamos. O mundo da dor é vasto e bem mais próximo do que supomos. Quando menos pensamos, damos por nós a habitar o seu território. E os sentimentos que, então, nos sobrevêm são tantos: entramos em negação, em revolta, em depressão, em ressentimento; apetece-nos fugir para longe; perguntamo-nos: “porquê?”, “porquê a mim?”, “porquê agora?”; a impressão que temos é que tudo em nosso redor naufraga e nós também; sentimo-nos impreparados para essa empresa exigente. E, relativamente a este último ponto, temos razão. A cultura dominante faz da doença, da velhice, da deficiência e do limite um completo tabu. Persiste uma espécie de interdito a respeito da vida vulnerável: não se fala dela socialmente, cada um deve viver essas situações em estrita solidão, não nos ajudamos a aprofundar essa experiência como um recurso e não como uma fatalidade. Contudo, a verdadeira realidade é tão diferente do desenho traçado pelo egoísmo ou pelo medo. Escutava há dias um pai, falando do seu filho afetado pelo Síndrome de Down, e ele dizia, sem esconder a comoção: “Este meu filho é o membro mais importante da nossa família. É o nosso elo de união. Fez de nós pessoas diferentes, mais humanas e atentas aos outros. Ampliou a nossa capacidade de amar. O que recebemos dele não tem preço.” E, na mesma linha, ouvia de uma amiga que, tendo começado a viver independente dos pais muito cedo, lhe coube depois acompanhar a mãe numa velhice muito sofrida. A vida desta amiga mudou da noite para um dia. De repente, dava por si em trabalhos e preocupações completamente diferentes, em que a mãe era o centro. A princípio, ainda pensava naquilo que estava a perder com esta mudança, mas assumiu-a depois como uma oportunidade de se reencontrar com a vida. Não é que tivesse grandes conversas com a mãe. Passavam, sim, tempo juntas. Caminhavam devagar, de braço dado, nos longos corredores do hospital ou quando desciam ao parque, vizinho da sua casa, para olhar as flores. Massajava com creme a cara, as mãos, os pés da mãe todas as noites. Tinham mil ocasiões para dizer “amo-te” ou “obrigado pelo teu amor”.
Recordo a peça de teatro de Romeo Castellucci, intitulada “Sobre a Definição do Rosto do Filho de Deus”, que esteve em cena em Lisboa, há uns anos atrás. A peça propõe uma reflexão em torno de duas imagens, e a primeira é esta: um filho que trata do pai, de um pai idoso, com muitas limitações de saúde. É até, para os espectadores, uma coisa dura de ver, porque um dos problemas daquele pai é uma incontinência fecal. De maneira que o filho tem de estar sempre a limpá-lo. E muitas vezes nos parece que vai soçobrar, que já não será capaz, porque está sempre a acontecer a mesma coisa. Apercebemo-nos do seu esforço extremo: é extenuante amparar as necessidades de outro ser humano. Mas ao mesmo tempo, com que delicadeza, com que transparente amor aquele filho se debruça para o pai e o sustenta. E há um momento belíssimo no meio daquele combate interminável em que ambos são aliados: agarram-se um ao outro e, abraçados, choram. Pai e filho choram perante o irremediável da própria vida, sentindo que já não vão conseguir resolver nada senão amar-se, senão perdoar-se, senão acompanhar-se até ao fim. Por paradoxal que possa ser, um dia apercebemo-nos que poucas coisas no mundo são tão importantes como essa.
D. José Tolentino Mendonça
In: imissio.net

«A piedade é a única maneira para escapar à aridez que a prática da reflexão cria inevitavelmente nas raízes da nossa sensibilidade. Saber não prepara para amar.»
Extraída de um escrito do conhecido pensador francês Jean Guitton (1901-1999), esta frase apoia-se na consideração de outro escritor, Joseph Joubert (1754-1824), que se referia à aridez a que pode conduzir a pura razão, exercitada de modo exclusivo, exorcizando e excluindo todo o sentimento ou piedade.
Todos na vida já encontrámos pessoas dotadas de grande inteligência mas privadas de humanidade. Houve nazistas intelectualmente muito apurados, mas de igual modo cruéis e implacáveis. Sim, porque como conclui Guitton, o «saber não prepara para amar».
Entendamo-nos bem: também para a amar é necessária pelo menos uma gota de inteligência, para não nos precipitarmos na cegueira ou no sentimentalismo. Mas um conhecimento racional gélido e exclusivo pode gerar monstros e monstruosidades.
«O “führer” tem sempre razão», dizia-se, e esta estúpida afirmação incarnava a degeneração de um pensamento totalitário que não sabe confrontar-se, que se torna ridículo na sua autolatria, isto é, na adoração de si, perdendo assim a luz da verdadeira razão.
«O último passo da razão – dizia outro grande filósofo francês, Pascal – é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam». Então, seguindo ainda as lições de Pascal, aprendamos a seguir «as razões do coração» e a evitar «dois excessos: excluir a razão, só admitir a razão».

Conheci-a numa tarde de verão, quando os ramos arqueados pelo peso da folhagem desenhavam uma longa sombra sobre a rua estreita. Serena e majestosa, abrigava naquele tempo uma pequena orquestra de pássaros selvagens e era ponto de encontro de amigos.
Os anos passaram. Tenho-a acompanhado nas adaptações às diversas estações do ano. Esta semana, por exemplo, a chuva caiu generosa e gratuitamente. O ritmo constante da água e a força do vento agitaram repetidamente os ramos secos e, mesmo assim, ela permaneceu silenciosa e serena, como se escondesse o segredo da juventude, a força que em breve a fará renascer. Amanhã será diferente. Amanhã, o vento voltará a agitar a folhagem, como se uma mão divina passasse os dedos pelas cordas de um instrumento.
Por agora, porém, a intempérie oferece ciclos de sucessivas provações. Despem-na do seu esplendor. Despojam-na da alegre companhia dos homens. Quase esquecida, ela está ali, à espera de um sinal da natureza para que volte a ser uma bênção. Ela persiste austera e silenciosa como um monge, de ramos erguidos para o céu, quais braços abertos à procura da eternidade. Serena e majestosa.
A Quaresma bate à tua porta como uma intempérie de sinais e palavras: cinzas, roxo, despojamento, jejum, abstinência, esmola, silêncio, oração e oração. A Quaresma é como um parto. A Quaresma é como se estendesses a mão e ouvisses pela primeira vez «não basta este pão». E a fome põe-te a caminho.
Como a copa da árvore num início de outono, descobres, nestes dias, que os quartos da tua casa estão arqueados de objetos imprescindíveis e imagens endeusadas sob as quais se escreve, num jogo de luz e sombras, «não me adores mais». Ali está também o velho relógio a medir o tempo com um ponteiro que não se cansa de repetir as mesmas voltas. Quantas voltas já deste aos mesmos temas? Quantas vezes já repetiste os esquemas obsoletos na esperança vã de vencer e dominar? Vais aprender, nesta Quaresma, que perder é ganhar?
Compreendes que é tempo de sair sem os artifícios do verão. Viajas em sentido contrário? Percorres ruas esquecidas? Lês mapas antigos? Reencontras aqueles que tens evitado? Não te arrependas nem tentes o Criador com os teus lamentos. A intempérie que te faz sofrer é também aquela que te fortalece. A provação que te despoja é aquela que te enriquece. E se a vocação daquela árvore, serena e majestosa, é confundir-se com o céu, tu também estás chamado a crescer, cada vez mais livre, em direção à eternidade.

É uma arte difícil, a alegria. Por um lado, sabemo-la próxima e acessível, como se os nossos dedos pudessem, a cada momento, e sem esforço, alcançá-la. Mas sabemos também como nos escapa, como é precária, dolorosa e inexplicável a alegria. Como nos obriga a procuras extenuantes e a desertos cujo fim não se divisa. Não admira, por isso, que muitos desistam da alegria e se metam a caminhar, vida fora, excluindo-a do seu alforge. A alegria, porém, é uma condição necessária da existência. Sempre que ela nos falta temos de interpretar isso como um iniludível sintoma, a que é preciso atender. Temos de nos interrogar sobre o porquê do nosso viver burocrático e tristonho, o porquê do nosso passo precocemente anoitecido, do nosso errar entre o peso e a cinza de onde a alegria se ausenta.
Não raro o problema é fazer depender a alegria de motivações acidentais, que nada têm que ver com a sua essência. Julgamos extrair a alegria do sucesso, da abundância, da força, da afirmação, da eficácia, do poder, mas o tempo encarrega-se de demonstrar o nosso equívoco. Os mestres espirituais ensinam, por exemplo, que a alegria não depende do imediato ou conjuntural: a alegria liga-se às razões profundas do viver. De fato, ela não deve ser reduzida a uma espécie de estado de graça que nos toca em certas estações ou a uma maravilhosa isenção face à turbulência e aos contrastes do mundo. Pelo contrário. Se pensarmos bem, a maior parte do tempo, a nossa vida é experiência de inacabamento e incompletude, é esboço e projeto, é movimento transformante. Como escrevia Montale: “Não existe um tempo inteiro:/ temos sempre tantos fios/ a correr em paralelo/ fios em sentido contrário/ que raramente coincidem.”
Conta-se nos ‘Fioretti’ (a célebre recolha hagiográfica que se tornou uma das fontes para conhecer o franciscanismo das origens) que regressando São Francisco de uma viagem para o seu convento de Santa Maria dos Anjos, fustigado por um inverno particularmente hostil, o seu companheiro Frei Leão lhe perguntou: “Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria.” E que São Francisco lhe respondeu desta maneira: “Imagina que ao chegarmos a Santa Maria dos Anjos, completamente encharcados, desfigurados pela lama da estrada, pela fome e pelo frio, batemos à porta do convento; o porteiro aproxima-se irritado e diz: ‘quem são vocês?’; e nós explicamos: ‘somos dois dos vossos irmãos’; mas ele responde, ‘vê-se claramente que estão a mentir, são, sim, vagabundos que roubam as esmolas destinadas aos pobres. Fora daqui!’. Quando o irmão porteiro nos fechar a porta, e nos abandonar sem apelo à neve e à fome, se soubermos suportar tal injúria de bom modo, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele, possuiremos então a perfeita alegria.”
É uma arte de paciência, a alegria. Ela pede de nós a capacidade de desconstruir as nossas expectativas, necessidades, idealizações — coisas a que estamos mais apegados do que supomos — e a provar aquela liberdade que vem de abraçar a vida nas suas não-coincidências (como sugeria o verso de Montale), com os seus sofrimentos, os seus revezes, as suas interrogações e pausas, as suas misteriosas travessias. E a fazê-lo sem ressentimento, mas aceitando que a esperança se expressa de um modo alternativo, prossegue por um caminho outro, capaz de nos surpreender. Na verdade, é um artesanato a alegria, não um produto prefabricado. É uma coreografia que avança por tentativas e não um enredo prévio, que já dominamos. Somos felizes quando, reconhecendo a nossa própria fragilidade, nos reconhecemos também prometidos não só à alegria, mas à perfeita alegria.
D. José Tolentino Mendonça
In: Missio.net 02.03.2019

Este seria um titulo improvável há uns anos atrás, diria mesmo impossível. Pois bem, desenganem-se aqueles que pensam que nos falta um acento numa das vogais ou estamos a falar de uma espécie de sheik das arábias porque estamos precisamente a falar da visita do Sumo Pontífice, chefe da igreja católica apostólica romana, magna organização dos cristãos com mais de 2000 anos, a um país árabe do golfo pérsico.
Quais são afinal, os impactos desta visita, já histórica, aos Emirados Árabes Unidos?
Comecemos pelo espírito de abertura que preside ao presente diálogo inter-religioso, num sinal claro de mudança e que promete e impõe uma aliança entre muçulmanos e católicos, tão necessária num mundo profundamente marcado pela influência dos religiosos, sobretudo pela negativa e fruto, diga-se em grande parte da atuação deficitária dos seus líderes.
Por outro lado, é razoável admitir-se um reconhecimento e cada vez maior afirmação de Al-Azhar, como a referência no mundo islâmico, estando para este último como o Vaticano está para o catolicismo. Al-Azhar é considerada a elite do mundo islâmico acadêmico sunita e é dotada de um discurso pacífico, com uma raiz e visão já per se ecumenista (não nos esqueçamos que começou por ser xiita) e moderada, orientada pelo seu grande Imã, Sheik Ahmed Al Tayeb, que esteve com o Papa Francisco seis vezes, nos últimos tempos.
A história recente do mundo globalizado em que vivemos trouxe consigo um rol de novos desafios, designadamente a mudança no paradigma da integração que, se por um lado deveria ser desnecessária tendo presente a ampliação das fronteiras anteriormente impostas, é cada vez mais necessária, sôfrega muito por culpa dos movimentos migratórios que se fazem sentir, sejam estes voluntários ou não (refugiados).
É preciso pois, refletir sobre se a religião pode e deve ter um espaço e/ou locais próprios ou se extravasa essa circunscrição, tendo por isso uma feição universalista. Achei especialmente curioso a forma como os cristãos do médio oriente fazem as suas preces, levantando as mãos para o céu (como fazem os muçulmanos de todo o mundo no Duá) ao invés de orarem como um típico católico de Lisboa faria, o que me faz crer que na subtileza dos pormenores assentam as vicissitudes de carácter cultural que impregnam a realidade religiosa, umas vezes bem, colorindo-a, outras nem tanto, conspurcando-a.
A ameaça global do terrorismo transporta-nos para a necessidade de perceber o papel das religiões e de se saber se estas estão demode, tantas vezes que são instrumentalizadas para cumprir com agendas de outra índole.
A somar a isto, os habituais avanços e recuos de natureza geopolítica e estratégica, que nos convocam a uma estabilidade periclitante e mais grave do que isso: são geradores de incertezas e impõem escolhas que nem sempre temos como certas.
É neste contexto que se insere a visita de Sua Santidade aos Emirados Árabe Unidos, afirmando que neste local no qual “areia e arranha-céus se encontram, continua a ser uma importante encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente, entre o Norte e o Sul do planeta, um lugar de desenvolvimento, onde espaços outrora inóspitos reservam empregos para pessoas de várias nações.” (Papa Francisco durante a visita aos EAU, discurso por ocasião do encontro com o Concelho Islâmico de Anciãos)
Visto como um melting pot das mais variadas religiões e culturas, os EAU são assim e do nosso ponto de vista inegavelmente uma terra de tolerância, conforme demonstra a iniciativa de realizar diversas actividades ao longo do ano nesse âmbito, promovidas pelo ministério com o mesmo nome.
A visita papal teve vários momentos relevantes, dos quais destacaremos apenas um — a missa — para a esmagadora maioria dos católicos, foi a primeira manifestação publica de fé, o que denota um facto histórico. A cruz é ainda proibida publicamente e as manifestações de cristianismo são permitidas, embora devam ser discretas. Espera-se que após esta visita tal venha a mudar, e que a liberdade religiosa no oriente seja uma plena realidade.
À boa maneira portuguesa eu e o meu companheiro de viagem, Pedro Gil, católico e que faz um programa de rádio comigo há mais de dois anos, fomos dar um passeio no jardim da tolerância, que assinala a visita conjunta do Papa Francisco e do grande Imam e onde coabitam ainda a catedral de Abu Dhabi, uma igreja copta ortodoxa e a mesquita que agora recebeu o nome de Maria mãe de Jesus.
Vizinhança essa aliás, muito útil, dado que o passeio foi precedido de uma missa e oração, respectivamente — cada um para seu lado — e separados por uma fé que se une por uma amizade, admiração e respeito inabaláveis.
Pois a verdadeira solidariedade entre os povos é demonstrada pelo abraço caloroso e cúmplice que o Papa e o Imam deram, num gesto de absoluta humanidade, que é também a nossa, sem máscaras nem artifícios, num verdadeiro amor incondicional.
[@Observador | Khalid Sacoor D. Jamal | Vogal da Direção da Comunidade Islâmica de Lisboa,
In: imissio.net 11.02.2019

Os gregos descreviam a experiência humana partindo de três dimensões. Trata-se de uma visão ancestral, mas que podemos acompanhar ainda. A primeira dimensão seria a da memória (mnemis), que fornece a base primária daquele conhecimento que torna viável a vida. Sem a memória teríamos de reaprender tudo, a cada instante. É por ela, por exemplo, que dormimos e, no dia seguinte, somos capazes de andar, capazes de comer, de reconhecer o mundo a nosso lado, de saber quem somos. Se a todo o momento tivéssemos de perguntar, “como se caminha?”, “como se fala?”, “como se ama?”, a vida emergiria lentíssima e, certamente, muito diversa. Outra dimensão fundamental para os gregos seria a aesthesis, isto é, a percepção sensível do presente. A nossa experiência concretiza-se numa prática sensorial: podemos ver, ouvir, cheirar, tocar, sentir. A vida é tátil, é isto de que nos podemos aproximar, é o que trazemos entre mãos. Mas atenção: a vida não se resume apenas à memória e ao presente que apreendemos com os sentidos. Os antigos nomeavam uma ulterior e necessária dimensão, que chamavam esperança (elpis), explicada como a consciência de que havia um além, um amanhã. A ideia de um futuro foi sempre tida também como determinante, mesmo se para os gregos a esperança era uma coisa na qual não se podia propriamente confiar. Píndaro explicita-o bem quando relata que, no princípio, os deuses colocaram todas as coisas boas para o homem dentro de um vaso e lhe puseram uma tampa, com a proibição de removê-la. Mas o homem avizinhou-se do vaso e destapou-o. Quando fez isso, todas as coisas saíram de repente e o único bem que ficou dentro foi a esperança, a esperança daquelas coisas perdidas.
Creio que daqui se extrai uma dupla conclusão: não podemos viver sem esperança, mas esta não é uma tarefa estável e fácil. Muito pelo contrário. No extraordinário poema que lhe dedicou Charles Péguy (e que Armando Silva Carvalho traduziu magnificamente para a nossa língua) garante-se que a única realidade que deixa o próprio Deus espantado, em relação ao homem, é a esperança: “Não é a fé que me espanta.../ A caridade, diz também Deus, essa não me espanta.../ Mas a esperança, diz Deus, essa sim causa-me espanto./ Essa sim, é digna de espanto./ Que essas pobres crianças vejam como tudo acontece/ E acreditem que amanhã será melhor./ Que elas vejam o que se passa hoje e acreditem/ que amanhã de manhã será melhor./ Isso é espantoso e essa é a maior maravilha da nossa graça./ E isso a mim mesmo me espanta.”
A esperança não é um lenitivo que adormece a dor até que ganhemos coragem para tratar a sério da vida, mas uma força que já hoje nos motiva para a transformação da história. A esperança não é um adiamento, mas um compromisso. Não é uma abstração idealizada, mas um dinamismo concreto, uma laboriosidade, um fazer. Precisamos de uma educação para a esperança.
Sobre o seu significado profundo, e de como se pratica, há aquela história do velho monge que se propunha alcançar o cimo de uma montanha e que, numa das etapas iniciais do caminho, pernoita numa estalagem. O estalajadeiro repara na sua fragilidade e tenta dissuadi-lo, enumerando os perigos que o espreitam, e que certamente acabarão por vencê-lo. O monge, porém, respondeu: “Tenho a certeza de que chegarei lá.” “E como é que um homem fraco como tu pode ter semelhante certeza? Para mais, vem aí um inverno duro.” O ancião retorquiu: “Coloquei lá em cima o meu coração e por isso sei que, mesmo assim inseguros, os meus passos hão de chegar lá.”
Pe. José Tolentino Mendonça
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Riquezas das Minas Gerais, seus minérios e tantas outras maravilhas, que tão generosamente nos foram dadas pelo Criador, transformaram-se em sua perdição. Minas vê, gravíssima e rapidamente, seus rios, lagos, afluentes, terras agricultáveis, comunidades e suas culturas sendo dizimadas. São cometidos crimes contra a vida humana, contra o meio ambiente e contra o direito de viver em comunidade e em família.
Na Encíclica Laudato si, o Papa Francisco nos alerta para a necessidade da urgente compreensão de que o Planeta agoniza e clama contra o mal que provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nele colocou.
O que foi legado ao homem para que prospere e tenha uma vida plena e a transmita às futuras gerações, a ação irrefreavelmente gananciosa e criminosa das mineradoras destrói em tão pouco tempo. Vemo-nos diante da débil regulação deste setor pelo Legislativo, eivado de pessoas financiadas por essas empresas e que são autorizadas pelo Executivo, imiscuído em múltiplos interesses nem sempre republicanos e precariamente fiscalizadas pelos órgãos que existem para isso. Soma-se a isso um Judiciário leniente, ensimesmado, caríssimo, insensível, pretensioso e divorciado do povo brasileiro. Foi assim em Mariana, pela Vale/Samarco, até hoje “na justiça”; é assim em Brumadinho, pela Vale. Não podemos deixar que assim continue.
Não houve um acidente nessas Minas Gerais. Houve um crime ambiental e um homicídio coletivo. Uma matança de pessoas, animais e do meio ambiente. Quase mataram também a esperança, a fé, a dignidade e o amor das pessoas que sobraram, agora terrível e indescritivelmente sofridas, mas em processo curativo, em reconstrução, soerguimento, revitalização e retomada de posse de sua brava dignidade. Como não há uma empresa mineradora em abstrato, as pessoas que nela atuam e têm responsabilidade sobre esta tragédia devem ser rigorosamente punidas, para que, juntamente com a mineradora, não caiam em desgraça também os que exercem os poderes acima citados e já tão pouco acreditados. Conscientemente, as mineradoras optam, por serem mais baratos, por modelos de exploração de minério de ferro e de outros metais mais danosos ao meio ambiente e à vida humana. O lucro exorbitante, quase ilimitado, com pouco retorno à sociedade por meio do poder público, é o único critério e preside, inconsequentemente, as decisões em relação aos modelos de exploração dos recursos naturais.
Por causa dessa sede insaciável e enlouquecida por riquezas cada vez maiores, “que a traça e a ferrugem destroem e os ladrões roubam” (Mt 6,19), concentradas sempre mais nas mãos de pouquíssimas pessoas, empresas mantêm trabalhadores na pobreza a vida inteira e expostos à morte. A mineração em nosso País se tornou eticamente insustentável, calamitosa e de altíssimo risco para a vida humana e toda a vida existente em suas áreas de atuação.
A dimensão cruel e potência danosa da reincidência desses crimes nos apontam que apenas o fato de não se tratarem de um contexto de conflito armado é que os distingue de que sejam entendidos como crimes de lesa-humanidade. As práticas de seus infratores, afinal, se mostram sistemáticas, resultam da clareza dos riscos e danos de suas ações em covardes atos desumanos e contra a população civil.
Por isso mesmo, urge que as pessoas, organizações e instituições que valorizam a vida humana, que querem defender a natureza dessa progressiva e suicida destruição, se insurjam contra esse modelo de negócio que enriquece tão poucos, destruindo a vida de tantos. Do modo que se realiza, esta economia mata, repito o Papa Francisco, o maior líder humanitário do mundo atual.
É inadmissível a persistência desse modelo econômico de enriquecimento pela destruição. É impossível continuarmos aceitando que a natureza, obra-prima de Deus, seja sistematicamente destruída. E que milhares de trabalhadores, idosos e crianças, mulheres e jovens, prevalentemente os mais pobres e humildes, sejam diariamente expostos ao risco de morrer em função de uma ganância deplorável.
Precisamos, talvez como nunca antes, como nos convoca o Papa Francisco, cujo nome tem inspiração em São Francisco de Assis, “exemplo por excelência pelo cuidado com o que é frágil e a ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade” (Laudato si), de um debate que una a todos, porque o desafio ambiental diz respeito e tem impacto sobre todos nós.
Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães
Reitor da PUC Minas
Bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte
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