
“Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar” (Mt 14,22)
O primeiro aspecto da espiritualidade do seguimento de Jesus faz referência à itinerância. Somos seres de travessias. E isto supõe transitar por outras fronteiras. Com o evangelho deste domingo somos instigados por Jesus a retomar a dinâmica do “passar para o outro lado”. É preciso sair dos limites conhecidos.
Portanto, o primeiro apelo é para nos situar em outros espaços, para o encontro com o novo e o diferente; é preciso nos despojar de nossa maneira habitual de ser e viver e nos deixar provocar por outras maneiras de ser e viver. Na realidade, o evangelho ativa em nós uma atitude de contínuo deslocamento, não só espacial, mas também social, cultural, mental, espiritual...
Aonde ir e como ir; não sabemos; devemos transitar por onde não conhecemos, abertos às surpresas. Habitualmente sempre fazemos nossas “travessias” com uma infinidade de seguranças. Vamos aonde nós queremos, onde nós sabemos, onde nós somos alguém e onde vamos “fazer” algo. E a travessia, como seguidores(as) é ir aonde não sabemos, para estar com Aquele que tudo sabe.
Em muitas ocasiões nos sentiremos como um explorador que nunca sabe o que vai encontrar; às vezes nem encontra o que estava buscando; outras vezes, encontra o que não estava buscando.
No entanto, “buscar” é o que dá sentido e sabor à nossa própria vida; e isso faz a diferença...
Os verdadeiros motores da travessia sempre foram a curiosidade e a fé. A curiosidade impede ficar ancorados e a fé dá força para lançar-se ao mar e para seguir em momentos de desalento e tempestade. A curiosidade destrava, ativa a criatividade, abre as portas à fé. Quem se aventura à travessia deixa de ouvir a si mesmo para escutar os outros; só assim ele poderá compreender-se a si mesmo e alargar sua consciência ao viver novas experiências de acontecimentos, de lugares e de situações que lhe eram alheias.
“Nas viagens, não é simplesmente a cartografia da paisagem que as pessoas palmilham. A experiência da viagem é a experiência da fronteira e do aberto, de que cada um de nós precisa para ser. É a nossa consciência que passeia, descobre cada detalhe do mundo e olha tudo de novo como pela primeira vez. A viagem é uma espécie de propulsor desse olhar novo. É uma lente. É um observatório levantado sobre a vida plana”. (cf. José Tolentino Mendonça – A mística do presente – Paulinas)
No evangelho de hoje, Mateus descreve com detalhe a cena da travessia do mar: os discípulos acabaram de viver junto a Jesus um dos acontecimentos mais importantes dos evangelhos: a multiplicação dos pães e peixes. Descobriram que organizar-se segundo o modo de proceder de Jesus (a compaixão diante do sofrimento dos outros; a acolhida e atenção a todos, incluídos aqueles que não são contados na sociedade; a solidariedade e a partilha; o trabalho em equipe...) favorece a vida, sacia a fome e alegra o coração de todos. Esta experiência lhes fortaleceu e os animou, depois de um momento de dúvida no qual chegaram a solicitar a Jesus que despedisse as multidões, temerosos de se encontrarem diante de uma situação que ultrapassava suas possibilidades de resolvê-la.
O relato deste domingo nos recorda que é preciso viver sempre um novo êxodo. Aqui, vem à memória, como pano de fundo, a recordação dos hebreus libertados, que passaram pelo Mar Vermelho, salvos por Deus. Somos herdeiros de um naufrágio. Deus quer que vivamos para algo maior, deslocando-nos em direção a Terra prometida. Como acontece em toda travessia, quando é preciso deixar a margem conhecida e rotineira, os medos nos assaltam por todos os lados.
Não são os “fatos” que causam medo, mas o que nós pensamos e sentimos dos “fatos”. Por isso, o medo é um câncer que ameaça à fé, ao amor e à esperança de pessoas e instituições. O medo corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade. O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”.
Os estragos do medo em nossa vida, em nossa sociedade, em nossa Igreja, em nosso mundo, são terríveis. O medo explica quase todos os desastres: complexos e angústias, ciúmes e invejas, cobiça, corrupção e mentira, o acúmulo de bens, as diferentes expressões de ódio, violência, preconceito, intolerância... Quem usa as redes sociais para expelir acusações, ódios... deixa transparecer um medo petrificado, uma insegurança enraizada..., que rompe a comunhão, cria distâncias, esfria os relacionamentos.
Quem é marcado pelo medo tem forte tendência a ver “fantasmas”; quando nos deparamos com um desafio, começamos a ver o fantasma do medo; quando nos propomos uma meta mais alta para nós, começamos a ver o fantasma do impossível; quando buscamos uma mudança na vida, começamos a ver o fantasma da insegurança; quando somos movidos a tomar o Evangelho a sério, começamos a ver o fantasma de que não é para nós; quando ouvimos o chamados à santidade, começamos a ver o fantasma de que isso é para pessoas especiais... Nossa vida está cheia de fantasmas; o fantasma do “eu não posso”, do “é impossível”, fantasma do “que os outros vão dizer?”, o fantasma do “e seu fracassar?” ...
Também no ambiente eclesial e nas comunidades cristãs ainda hoje prevalecem muitos medos: o medo das mudanças, o medo de renunciar à posse da verdade e ao controle da moral, o medo da dúvida, o medo da heresia (sendo que a heresia mais perigosa é o medo), o medo de perder o poder e inclusive os bens, o medo da laicidade, o medo da diversidade, o medo do pluralismo, o medo da liberdade, o medo da presença feminina, o medo da perspectiva de gênero, o medo do ser humano em seu horizonte tão aberto, o medo do Espírito livre, o medo do novo, o medo da morte..., em uma palavra o medo da vida. A Igreja se encontra talvez na maior travessia de sua história, carregada de medos, dúvidas, apegos...:
Como Igreja, temos medo de viver e caminhar sobre o mar em nossos frágeis barcos. Não nos damos conta de que eles podem ir a fundo se continuamos colocando neles pesos e mais pesos.
Temos medo e, por isso, buscamos seguranças. Temos medo de que se afunde nosso edifício de certezas e por isso elevamos muralhas, colocamos trancas nas portas, destruímos pontes... Temos medo e transformamos a barca dos discípulos de Jesus em uma grande fortificação, feita de doutrinas, leis e imposições, de brilhos exteriores e de seguranças falsas. Ou a Igreja se liberta de seus medos ou perecerá com eles.
Somos condenados a viver mergulhados no medo, no nível pessoal, social, eclesial? É preciso levantar velas, observar o horizonte, reorientar a rota ... Mas há uma certeza: a presença d’Aquele que viveu em contínua itinerância, guiado pelo Espírito do Pai.
Hoje a Palavra nos dá a oportunidade de reconhecer nossos próprios medos para acolhê-los a partir da confiança absoluta de que Jesus, o Senhor, caminha ao nosso lado até nas situações mais limites e dolorosas. No encontro sereno com Ele podemos experimentar que nos estende sua mão para que não nos afundemos em nossos temores e dificuldades. Ele nos dá a força necessária para arriscar-nos por aqueles caminhos que nos parecem intransitáveis.
Sigamos adiante com os olhos fixos não em nós mesmos, nem sequer em nossa pequena ou grande barca, mas no Senhor que conduz a História e nossos passos, no Filho de Deus que nos impulsiona a entrar sempre no fluxo da travessia, com a finalidade de anunciar sua Boa Nova “no outro lado do mar”.
Texto bíblico: Mt 14,23-33
Na oração: Na “barca do ego” nos sentimos facilmente sacudidos por todo tipo de ondas, cheios de medos e vendo fantasmas ao nosso redor. Mas, os medos e fantasmas se dissipam quando saímos das interpretações que nossa mente faz das coisas e nos ancoramos no nosso verdadeiro “eu sou”, nossa identidade profunda, aquela que nos faz entrar em sintonia com todos os seres, habitados por uma presença providente.
- A oração é o ambiente favorável para acessar nossa interioridade habitada, sem nos deixar afetar pelas “ondas” superficiais da vida.
- Sua vida cotidiana está ancorada no seu “eu profundo” ou é marcada pela “tempestade”, confusão, obscuridade
- Que medos e fantasmas perturbam sua vida, seja na relação com Deus ou com os outros?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
06.08.2026


